O coronavírus e o curso da História. Artigo de Eduardo Crespo

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20 Março 2020

“Após a Revolução Industrial, a humanidade conseguiu superar com orgulho os limites ao crescimento econômico e demográfico que outrora era imposto pela natureza, como os derivados do lento crescimento da produtividade agrícola, do desmatamento e a salinização da irrigação. Desde então, a população mundial se multiplicou por 7, e as condições de vida melhoraram em todos os continentes. Não é improvável que a natureza comece a nos cobrar a fatura com novas restrições”, escreve Eduardo Crespo, doutor em economia, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, em artigo publicado por El Economista, 17-03-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Nos próximos anos, o fulminante surto de coronavírus que hoje assola o planeta será objeto de vários estudos econômicos, políticos, biológicos, médicos, epidemiológicos e filosóficos. Quais características tinham as organizações sociais que melhor responderam à crise? Quais fracassaram terminantemente? Que condições ambientais favoreceram ou dificultaram a propagação da pandemia? Quais foram suas consequências econômicas e políticas?

Os economistas e cientistas políticos poderiam classificar o coronavírus como um exemplo de “Cisne Negro”, de acordo com a terminologia de Nassim Taleb, um evento surpresa de enorme impacto socioeconômico. Embora muitos analistas e cientistas nas últimas décadas advertiram sobre os perigos inerentes à propagação de novas epidemias, poucos imaginavam que em poucas semanas algo semelhante poderia desmoronar os preços das ações, paralisar as economias, precipitar o fechamento das fronteiras nacionais e colocar países inteiros em quarentena. Vários alertavam para os perigos do terrorismo antes de 2001, mas poucos imaginavam algo semelhante ao atentado às Torres Gêmeas. Não é impossível que uma enorme erupção vulcânica produza a derrubada dos fundamentos de nossa civilização capitalista, mas não são muitos os que fazem planos contemplando um acontecimento assim no futuro próximo.

Impossível de prever, as epidemias de grandes proporções tiveram consequências sociais altamente relevantes. A história ambiental ensina que as pestes, juntamente com as guerras, o crescimento populacional, as revoluções e a crescente sofisticação no uso de fontes de energia são talvez as principais forças que guiam o curso da História. Os vírus foram um agente fundamental, por exemplo, na conquista europeia do mundo. Estudos recentes indicam que a queda do Império Romano se deve, entre outras coisas, a uma combinação de mudança climática (uma pequena era glacial) com uma disseminação generalizada de pestes. Um padrão semelhante foi observado durante a conquista da América pelos espanhóis.

Jared Diamond se pergunta em sua obra mestre, “Armas, Germes e Aço”, como foi possível acontecer que 142 espanhóis derrotassem o poderoso Império Inca. Embora em sua explicação combine vários fatores, os germes teriam desempenhado um papel fundamental para desorganizar e desmoralizar os nativos. Estima-se que aproximadamente 95% dos nativos americanos pereceram por causa das pestes trazidas por europeus e africanos, circunstância agravada com as guerras e as condições extremas de exploração.

Outro marco na história foi a Peste Negra, de meados do século XIV, que acabou com aproximadamente um terço da população da Eurásia, ajudada pela mudança climática, o comércio e a “globalização” das trocas que da China até a Inglaterra garantiam os mongóis. Alguns intérpretes apontam que em certas regiões da Europa a peste depositou o próprio Feudalismo no cemitério da história, ao empoderar camponeses e trabalhadores urbanos.

A grande crise do século XVII, que segundo algumas estimativas reduziu a população da Eurásia em mais um terço, teria coincidido com outra pequena era glacial que reduziu a produtividade da agricultura, causou uma maior instabilidade nas colheitas e, sobretudo, espalhou epidemias em vários lugares, plantando as sementes da mudança social que um século depois germinariam com a Revolução Industrial. Na era moderna, o único fato comparável ao atual surto é a Gripe Espanhola de 1918, ainda que naquele caso seus efeitos na economia mundial não foram facilmente distinguíveis das consequências da Primeira Guerra.

Essas histórias sugerem dois ensinamentos. Um é que, embora pagaremos a conta, a pandemia é uma a mais de várias e eventualmente passará. A outra é que, quando a crise do coronavírus acabar, não deveria ser considerada um cisne negro de improvável repetição. As epidemias costumam reaparecer com alguma regularidade cíclica, ainda que com letalidade decrescente ao impactar populações com maior imunidade, sendo que os mais vulneráveis geralmente perecem durante os primeiros ciclos.

A epidemia de coronavírus assusta em razão de sua dinâmica vertiginosa, mas também existem outras catástrofes em desenvolvimento que não são atendidas com tanta decisão pela política pública mundial. A maior parte da comunidade acadêmica aponta que o aquecimento global, a instabilidade climática, o derretimento das calotas polares e o desaparecimento de milhares de espécies, caso não impere uma intervenção global decisiva, terão consequências irreversíveis na vida do planeta. O Chifre da África, nesse momento, sofre uma massiva invasão de gafanhotos-do-deserto que se acelera com o aquecimento, e cujas repercussões poderiam ser catastróficas.

Após a Revolução Industrial, a humanidade conseguiu superar com orgulho os limites ao crescimento econômico e demográfico que outrora era imposto pela natureza, como os derivados do lento crescimento da produtividade agrícola, do desmatamento e a salinização da irrigação. Desde então, a população mundial se multiplicou por 7, e as condições de vida melhoraram em todos os continentes. Não é improvável que a natureza comece a nos cobrar a fatura com novas restrições.

 

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