Coronavírus: a anestesiologista que diagnosticou o paciente número 1 na Itália

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Francisco denuncia: “Ouvimos mais as empresas multinacionais do que os movimentos sociais. Falando claramente, ouvimos mais os poderosos do que os fracos e este não é o caminho”

    LER MAIS
  • “A atual loucura digital é um veneno para as crianças”. Entrevista com Michel Desmurget

    LER MAIS
  • Prefeito da Doutrina da Fé pede para que padre irlandês, defensor da ordenação de mulheres, faça os juramentos de fidelidade aos ensinamentos da Igreja

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


07 Março 2020

“Quando um paciente não responde aos tratamentos normais, na universidade me ensinaram a não ignorar a pior hipótese. Mattia se apresentou com uma pneumonia leve, mas resistente a qualquer terapia conhecida. Eu pensei que eu também, para ajudá-lo, tinha que procurar algo impossível. Eu estava no lugar certo no momento certo, ou talvez no lugar errado no momento errado.”

Annalisa Malara, 38 anos, anestesista de Cremona, é a médica do hospital de Codogno que mudou a vida de todos com uma ideia maluca: intuir que Mattia havia sido infectado pelo coronavírus. Em poucas horas, ele se tornou o paciente número 1 na Itália, e ela descobriu que era a médica que identificou o surto italiano.

Graças à sua loucura clínica, a Itália e o resto do continente tiveram tempo para tentar desacelerar a epidemia. Para os extraordinários médicos anônimos dos pequenos hospitais das províncias, a história de Annalisa e Mattia é uma revanche inesperada: uma grande redenção.

A reportagem é de Giampaolo Visetti, publicado em La Repubblica, 06-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Por que você intuiu que a verdade estava escondida no absurdo?

Pela primeira vez, medicamentos e tratamentos eram ineficazes contra uma pneumonia aparentemente banal. O meu dever era curar aquele doente. Por exclusão, concluí que, se o conhecido falhava, só me restava entrar no desconhecido. O coronavírus havia se escondido precisamente aqui.

Pode explicar desde o início o momento que está mudando o destino coletivo?

Desde o dia 14 de fevereiro, Mattia tinha a gripe usual, mas que não passava. No dia 18, ele chegou ao pronto-socorro em Codogno, e as radiografias mostravam uma leve pneumonia. O perfil não autorizava uma internação forçada, e ele preferiu voltar para casa. Questão de poucas horas: na 19ª noite, ele voltou, e aquela pneumonia já era gravíssima.

Você não é infectologista: por que o caso foi confiado a você?

Todos ficamos surpresos com a rapidez e a gravidade do ataque viral. Levaram-no do remédio à reanimação. O que eu via era impossível. Esse é o passo em falso que traiu o coronavírus. Na quinta-feira, 20, no meio da manhã, eu pensei que, naquele ponto, o impossível não podia mais ser excluído.

O que fez?

Perguntei novamente à esposa se Mattia tivera alguma relação com a China. Ela se lembrou de um jantar com um colega, cujo resultado acabou sendo negativo.

O exame foi imediato?

Tive que pedir autorização à empresa de saúde. Os protocolos italianos não o justificavam. Foi-me dito que, se eu considerasse necessário e assumisse a responsabilidade por isso, poderia fazê-lo.

Isso quer dizer que o paciente número 1 foi descoberto porque você forçou as regras?

Eu digo que, por volta das 12h30 do dia 20 de janeiro, meus colegas e eu decidimos fazer algo que a prática não previa. A obediência às regras médicas está entre as causas que permitiram que esse vírus circulasse imperturbável durante semanas.

O que aconteceu depois que você o localizou?

O exame de Mattia seguiu para o hospital Sacco, em Milão, antes das 13h de quinta-feira. O telefonema confirmando o Covid-19 chegou até mim pouco depois das 20h30. Enquanto isso, as três enfermeiras da ala e eu vestimos as proteções sugeridas para o coronavírus. Esse excesso de prudência nos salvou.

Por quê?

Nenhum de nós foi contagiado. Hoje [dia 5] saímos da quarentena: fechados no hospital, continuamos tratando dos doentes mesmo nessas duas semanas.

Você acha que salvou a vida do paciente número 1 e de outros infectados na Itália?

Ninguém poderá dizer. Eu tinha na minha frente um rapaz jovem e saudável. O quadro sugeria uma pneumonia viral, e não bacteriana. Os primeiros tratamentos, em reanimação, teriam sido os mesmos praticados para o Covid-19. Somente após a transferência para o San Matteo de Pavia é que se pôs submetê-lo a uma terapia experimental.

O que essa incrível história de coragem científica ensina?

Que a sorte, se você insistir, ajuda você. Se uma pessoa está mal, existe uma causa. Se os tratamentos conhecidos não funcionam, você deve tentar os que não conhece. O Covid-19 não havia levado em conta que o ser humano, para sobreviver, não se resigna.

Você acha que tem um mérito específico?

Não. Mas espero ter contribuído para dar tempo para colegas e instituições, na Itália e na Europa. Ganhamos dias preciosos no combate à epidemia. Se os cidadãos também os usarem bem, respeitando as indicações e medidas de prevenção, muitos poderão se curar, e outros evitarão o contágio.

Você acha que isso está acontecendo?

Eu sou médica. A responsabilidade pelas grandes escolhas cabe à política: que, no entanto, em circunstâncias excepcionais, coincide com a ética.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Coronavírus: a anestesiologista que diagnosticou o paciente número 1 na Itália - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV