O coronavírus mudará a China?

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20 Fevereiro 2020

A epidemia de pneumonia viral Covid-19, que já provocou cerca de 1.900 mortes, está longe de terminar. Com o passar dos dias, ela vem tendo repercussões políticas, econômicas e, sobretudo, sociais.

A reportagem é de Jordan Pouille, publicada por La Vie, 19-02-2020. A tradução é de André Langer.

“Outra noite, eu estava andando nos arredores da Praça da Bastilha, em Paris, e vi um grupo de estudantes chineses reunidos em torno de algumas velas. Eles prestavam uma homenagem ao médico de Wuhan, Li Wenliang, esse jovem que fez o alerta, foi amordaçado pelas autoridades e que morreu do vírus no dia 7 de fevereiro. Depois, com poemas, eles exigiram liberdade de expressão. Era sincero e tão raro! Pela primeira vez não foram teleguiados por sua embaixada”, conta Renaud de Spens, sinólogo, autor do Dicionário Impertinente da China e ex-diplomata em Pequim, onde viveu mais de 10 anos. Para ele, a figura de Li Wenliang tornou-se um catalisador das angústias chinesas: “E nas redes sociais chinesas, é ainda mais impressionante. Durante vários dias, 90% dos meus contatos no WeChat só falaram sobre isso. Não via tanta comoção popular desde a queda do líder do Partido de Chongqing, Bo Xilai, em 2012”.

Cidadãos-jornalistas em quarentena

Milhares de contas do WeChat, não inteiramente dissidentes, mas expressando preocupação, foram suspensas. O jornalista-cidadão Chen Qiushi, que testemunhou – com o apoio de um smartphone e pau de selfie – a falta de kits de diagnóstico e de camas nos hospitais de Wuhan, foi forçado a ficar em quarentena e privado de seus meios de comunicação. “Na minha frente está o vírus. Atrás de mim está o poder jurídico e administrativo da China. (...) Não tenho medo da morte. Você acha que tenho medo do Partido Comunista?”, escrevia aos prantos antes de sumir das redes sociais.

Um dos últimos críticos do poder, Xu Zhangrun, professor de Direito da Universidade Tsinghua, em Pequim, foi colocado em prisão domiciliar após uma coluna publicada on-line em 4 de fevereiro, intitulada “Quando a raiva excede o medo”. Ele atacou a gestão da epidemia por parte do “último árbitro”, ou seja, o presidente Xi Jinping, e exigiu a aplicação estrita do artigo 35 da Constituição: “Os cidadãos da República Popular da China têm liberdade de expressão, imprensa, reunião, associação, desfile e manifestação”.

Como não criticou o poder como um Liu Xiaobo ou um Ai Weiwei, mas simplesmente tentou fazer um alerta, o Dr. Li Wenliang não pode ser eliminado da memória coletiva. Aqui ele é até retocado com vermelho. À Rádio Pública Nacional Americana (NPR), o embaixador chinês nos Estados Unidos disse, em 14 de fevereiro: “Este médico fazia parte dos milhões de funcionários que trabalham na linha de frente. Ele provavelmente era formidável, mas fazia parte do sistema. Ele era membro do Partido Comunista. Eu penso que ele era um bom membro do Partido”. Não é certo, no entanto, que Li Wenliang tenha um dia um monumento em seu nome.

Obcecado pelo controle social, o governo não gosta mais de recolhimentos populares. “Na parte mais central da capital chinesa, no coração da Praça Tiananmen, fica uma espécie de obelisco, com quase 38 metros de altura, erguido em 1958, que celebra os heróis das lutas anti-imperialistas e revolucionárias dos séculos XIX e XX, explica Alexis Vannier, professor de civilização chinesa na Ipag Business School. Ora, pouco a pouco e sem explicação, barreiras passaram a impedir o acesso a este monumento. Ao longo dos anos, o transeunte se viu cada vez mais afastado, até não conseguir mais identificar os baixos-relevos que descrevem as façanhas desses heróis do povo”. A Praça da Paz Celestial tornou-se um dos lugares mais monitorados da China.

“Ressaca econômica”

A eficiência econômica é, juntamente com o patriotismo, um dos dois pilares do contrato social que liga o povo chinês a seus líderes. Não é de surpreender que a epidemia tenha congelado a economia. O consumo despencou. Uma grande parte das lojas, restaurantes e fábricas estão atualmente fechadas ou desertas. Empresas estrangeiras, cuja produção depende em parte de fornecedores chineses, ficam paralisadas e estão pensando em alternativas permanentes. “É certamente provisório, mas muitos donos de PMEs querem deixar a China agora e encontrar outros mercados”, disse Renaud de Spens, que fala em “ressaca econômica”. Especialistas do banco suíço UBS preveem um crescimento anual do PIB de 3,8% em comparação com 6,6% no ano passado, uma cifra já excepcionalmente baixa. Obviamente, a economia deve se recuperar, impulsionada pelos incentivos que Pequim mantém em segredo, uma vez superada a crise sanitária.

Como em toda crise, o poder comunista chinês sabe como punir os funcionários dos escalões mais baixos para apaziguar a ira do povo. Os chefes locais caem em grande número. Por exemplo, 337 funcionários da cidade de Huanggang, situada a 75 km a leste de Wuhan, foram punidos. Entre eles, dois funcionários zelosos foram demitidos por terem colocado em quarentena o pai e o irmão de uma criança que sofria de paralisia cerebral, causando a morte desta, abandonada à própria sorte.

Entre os peixes grandes, o presidente Xi Jinping substituiu o secretário do Partido da Província de Hubei pelo prefeito de Xangai. Em Wuhan, o líder do Partido foi substituído por seu colega de Jinan, em Shandong. Essas duas novas figuras têm um longo curso na advocacia: um perfil significativo, diante das lutas e petições de famílias atingidas por essa luta dantesca contra a epidemia. E enquanto Xi Jinping permanece em Pequim, seu primeiro-ministro e seu vice-primeiro-ministro, ex-protegidos do ex-presidente Hu Jintao, multiplicam as aparições públicas em Wuhan ou em qualquer outro lugar da China. Como dois fusíveis que se expõem, prontos para explodir, caso o descontentamento popular aumentar.

Uma “Chernobyl chinesa”?

Jiang Zemin, Hu Jintao, depois Xi Jinping: após o trauma da repressão do movimento estudantil na Praça Tiananmen, os chineses se acostumaram a uma suave alternância de líderes, sem destituição, aproximadamente a cada 10 anos. “Parecia um regime democrático, tínhamos esperança de mudança, uma prova de rejuvenescimento”, até ousa Renaud de Spens. Mas uma emenda à Constituição passou por lá. “Xi Jinping está no poder desde 2012, seu apogeu de soberano está atrás dele e já sabemos que ele vai poder assumir um novo mandato em dois anos. Essa crise chega em um momento ruim”. Estamos assistindo a uma “Chernobyl chinesa” capaz de estremecer a legitimidade do regime? “Não sei, conta Renaud de Spens. O poder chinês está muito melhor instalado do que o russo nessa época, e Chernobyl continua sendo um acidente causado por um erro humano”. Nada de sovietologia barata: nem o escândalo do leite contaminado Sanlu, nem o terremoto de Sichuan e seus 87 mil mortos, conseguiram dar a estocada final no Partido. O coronavírus não deve mudar isso.

Especialmente porque o governo sabe explorar a paranoia sanitária. “Instaurar quarentenas por toda parte, monitorar seus vizinhos, denunciar às autoridades aqueles que retornam de uma viagem a outra província, colocar cartazes convocando para caçar até seu padrasto se ele chegar de outro lugar... Isso adula os baixos instintos da época da Revolução Cultural, cujos slogans ainda são visíveis nas paredes de muitas aldeias”.

No aplicativo móvel TikTok, vídeos incomuns de chineses desfrutando de seu confinamento ocioso coexistem com clipes de propaganda em tom marcial, onde a explosão de dedicação parece estar em ordem. Vemos, por exemplo, jovens enfermeiras de Gansu em lágrimas, raspando a cabeça antes de partir para o reforço em direção a Wuhan. “Podemos, portanto, ao mesmo tempo exigir mais liberdade de expressão, homenagear o mártir Li Wenliang e celebrar a firmeza, o ‘aperto de parafusos’ neste período singular”, analisa Renaud de Spens.

Xi Jinping coloca seus peões

Mais ao sul, com certa indiferença, Xi Jinping também coloca seus peões. Xia Baolong, membro do seu “Exército de Ferro”, executivos que o cercaram quando ele subiu na hierarquia em Zhejiang e depois em Xangai, acaba de ser colocado à frente do escritório de assuntos de Hong Kong e Macau. O homem é conhecido por sua campanha para destruir as cruzes nas cúpulas das igrejas em Wenzhou em 2015, às vezes provocando confrontos violentos com os fiéis. Ele deve enfrentar o desafio de Hong Kong com mão de ferro.

Única pausa: o governo chinês parece ter abandonado o lado taiwanês. Esta ilha que a República Popular da China considera ser sua, e acessoriamente dotada de um renomado sistema de saúde, finalmente conquistou seu lugar na Organização Mundial da Saúde (OMS). Taiwan pode, a partir desse momento, participar de suas reuniões técnicas, trocar informações, especialistas e participar de sua assembleia geral anual... até encontrar uma vacina para voar em auxílio de seu antigo rival chinês?

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