Coronavírus: a militarização das crises. Artigo de Raúl Zibechi

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29 Fevereiro 2020

“Considero que estamos diante de um ensaio que será aplicado em situações críticas, como desastres naturais, tsunamis e terremotos, mas, sobretudo, diante das grandes convulsões sociais capazes de provocar devastadoras crises políticas para os de cima. Em suma, eles se preparam para eventuais desafios à sua dominação”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 28-02-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

É necessário voltar aos períodos do nazismo e do estalinismo, há quase um século, para encontrar exemplos de controle de população tão extenso e intenso como os que acontecem na China, nesses dias, com a desculpa do coronavírus. Um gigantesco panóptico militar e sanitário, que limita a população a viver trancada e sob permanente vigilância.

As imagens que nos chegam sobre a vida cotidiana em amplas áreas da China, não apenas na cidade de Wuhan e na província de Hubei, onde vivem 60 milhões, dão a impressão de um enorme campo de concentração a céu aberto pela imposição de quarentena a todos os seus habitantes.

Cidades desertas, onde transita apenas gente da segurança e da saúde. Mede-se a temperatura de todas as pessoas na entrada de supermercados, centros comerciais e conjuntos residenciais. Se há membros da família em quarentena, apenas um membro tem o direito de sair, a cada dois dias, para comprar mantimentos.

Em algumas cidades, aqueles que não usam máscaras podem acabar na prisão. Estimula-se o uso de luvas descartáveis e lápis para pressionar os botões do elevador. As cidades da China parecem lugares fantasmas, a ponto de que em Wuhan você quase não encontra pessoas nas ruas.

É necessário insistir em que o medo está circulando em maior velocidade que o coronavírus e que, ao contrário do que se faz crer, o principal assassino na história da humanidade foi e é a desnutrição, como destaca uma imprescindível entrevista no portal Comune-info.

O habitual na história foi colocar em quarentena pessoas infectadas, mas nunca se isolou deste modo a milhões de pessoas saudáveis. O médico e professor do Instituto de Saúde Global, da University College London, Vageesh Jain, questiona: Justifica-se uma resposta tão drástica? O que acontece com os direitos das pessoas saudáveis?

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cada infectado com o coronavírus pode contagiar mais dois, ao passo que o sarampo contagia de 12 a 18 pessoas. Por isso, Jain afirma que mais de 99,9% dos habitantes da província de Hubei não estão infectados e que a grande maioria da população presa na região não está mal e é pouco provável que se infecte.

O boletim 142 do Laboratório Europeu de Antecipação Política (LEAP) reflete: A China desencadeou um plano de ação de emergência de magnitude sem precedentes, após somente 40 mortes em uma população de 1,2 bilhão de pessoas, sabendo que a gripe mata 3.000 pessoas na França todos os anos. Em 2019, a gripe matou 40.000 pessoas nos Estados Unidos. O sarampo mata 100.000 pessoas todos os anos e o influenza (gripe) meio milhão no mundo.

O LEAP argumenta que estamos enfrentando um novo modelo de gestão de crises, que conta com a aprovação do Ocidente. A Itália seguiu esse caminho ao isolar 10 povoados com 50.000 habitantes, quando havia apenas 16 pessoas com coronavírus.

A China exerce um sofisticado controle da população, desde a videovigilância, com 400 milhões de câmeras nas ruas, até o sistema de pontos de crédito social que regula o comportamento dos cidadãos. Agora, o controle se multiplica, incluindo a vigilância territorial com brigadas de moradores voluntários em cada bairro.

Gostaria de entrar em várias considerações, não do ponto de vista da saúde, mas daquele que deixa o manejo dessa epidemia aos movimentos antissistêmicos.

A primeira é que sendo a China o futuro hegemon global, as práticas do Estado em relação à população revelam o tipo de sociedade que as elites desejam construir e propõem ao mundo. As formas de controle que a China exerce são extremamente úteis às classes dominantes de todo o planeta, para manter os de baixo na linha, em períodos de profundas convulsões econômicas, sociais e políticas, de crise terminal do capitalismo.

A segunda é que as elites estão usando a epidemia como um laboratório de engenharia social, com a finalidade de estreitar o cerco sobre a população com uma dupla malha, em escala macro e micro, combinando um controle minucioso em escala local com outro geral e extenso, como a censura na Internet e a videovigilância.

Considero que estamos diante de um ensaio que será aplicado em situações críticas, como desastres naturais, tsunamis e terremotos, mas, sobretudo, diante das grandes convulsões sociais capazes de provocar devastadoras crises políticas para os de cima. Em suma, eles se preparam para eventuais desafios à sua dominação.

A terceira é que as pessoas ainda não sabem como enfrentaremos esses poderosos mecanismos de controle de grandes populações, que se combinam com a militarização das sociedades, diante de revoltas e levantes, como está acontecendo no Equador.

 

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