Coronavírus, envelhecimento rápido, fertilidade em queda e Humanae vitae

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19 Março 2020

O papa Francisco iniciou sua missa diária transmitida ao vivo nessa terça-feira com uma oração especial pelas principais vítimas da pandemia de coronavírus e pelas pessoas em maior risco à medida que ele continua se espalhando: os idosos.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada em Crux, 18-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Eu gostaria que hoje rezássemos pelos idosos”, disse o papa. “Eles sofrem neste momento de modo especial, com uma solidão interna muito grande e, às vezes, com muito medo.”

“Rezemos ao Senhor para que ele esteja próximo dos nossos idosos, das nossas avós, de todos os idosos, e lhes dê força”, disse Francisco. “Eles nos deram a sabedoria, a vida, a história. Nós também estamos perto deles com a oração.”

Em meio ao esforço para encontrar uma cura para o coronavírus e, enquanto isso, para impor medidas restritivas para tentar desacelerar sua expansão, houve relativamente pouca atenção aos fatores subjacentes que podem explicar por que alguns lugares foram mais atingidos e mais rapidamente do que outros.

Uma hipótese emergente, no entanto, é que pode haver uma correlação entre taxas de fertilidade em declínio e populações idosas em rápido crescimento em muitas sociedades ao redor do mundo, e até que ponto essas sociedades foram impactadas pelo coronavírus.

Para a Igreja Católica, que está alarmada com o declínio da fertilidade há décadas, a situação poderia oferecer uma confirmação sombria de seu diagnóstico de que uma sociedade em rápido envelhecimento está pondo em risco seu futuro – embora ninguém possa celebrar que tenha sido necessária uma pandemia global que, até o momento, já matou mais de 7.000 vidas para colocar a questão novamente sobre a mesa.

Exposição de idosos

Até agora, ficou bem estabelecido que os idosos são o grupo de maior risco em termos de morte pelo coronavírus Covid-19. Um estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China encontrou uma taxa de mortalidade geral de 2,3% para a população chinesa em geral, mas de 3,6% para aqueles de 60 a 69 anos, 8% para aqueles de 70 a 79 anos, e 14,8% para os maiores de 80 anos.

Dados chineses mostram que a idade média da letalidade por coronavírus é de 75 anos, e dados de uma semana atrás da Itália apontam que a idade média de morte devido ao vírus era de 81 anos.

Embora ainda não esteja claro se os idosos também têm uma probabilidade desproporcionalmente maior de adquirir a doença, a Associação Estadunidense de Pessoas Aposentadas (AARP, na sigla em inglês) relata que pesquisas mostram que os idosos são mais suscetíveis à doença respiratória, que pode causar pneumonia e sintomas como febre, tosse e falta de ar.

O Centro de Controle de Doenças dos EUA também relata que, nos últimos anos, entre 70% e 85% das mortes sazonais por gripe ocorreram em pessoas com 65 anos ou mais.

Comparando os mapas

Os demógrafos dizem que a Taxa Total de Fertilidade necessária para manter uma população estável em uma sociedade é de 2,1 filhos para cada mulher que completou seus anos de gravidez. Esse é o número de filhos que uma mulher precisa para substituir a si mesma por uma mulher que viverá até a idade da gravidez, levando em conta que nascem mais meninos do que meninas, e que nem todas as crianças sobrevivem.

Entre os demógrafos, o termo abreviado para essa taxa de 2,1 é “nível de reposição”. É um fato estatístico impressionante que, entre as 10 nações mais atingidas pelo coronavírus até hoje, nenhuma delas tem uma taxa de fertilidade total acima da reposição.

Aqui está um gráfico que mostra esse ponto, com base nos dados sobre o coronavírus da Universidade de Medicina Johns Hopkins e nos dados de fertilidade fornecidos pela Divisão de População das Nações Unidas.

A política de filho único da China de 1979 a 2015 é a principal explicação para a baixa taxa de fertilidade e a crescente população idosa. A partir de meados do século, a China deverá perder de 20% a 30% de sua população a cada geração, apesar de ter retornado a um limite de dois filhos há quatro anos. Também se espera que a China envelheça em uma geração tanto quanto a Europa nos últimos 100 anos, provocando a afirmação maliciosa de que ela pode ser o primeiro país asiático a envelhecer antes de enriquecer.

O Irã pode parecer um caso mais surpreendente, mas ele também adotou políticas agressivas de planejamento familiar em 1993, após a Guerra do Irã/Iraque, quando o país estava lidando com um desemprego massivo e com uma população de jovens cada vez mais inquietos. A predominância da contracepção no Irã aumentou de 49% em 1989 para 74% em 2000, e a taxa total de fertilidade caiu de um pico de 6,58 em 1980 para o nível atual de 1,621.

À luz da crescente população idosa do Irã, os demógrafos brincam que, até 2050, a organização de base mais popular do país talvez não será o Hezbollah, mas sim a AARP.

No extremo oposto do espectro, os 26 países do mundo com a maior taxa de fertilidade total estão todos na África, liderados por Níger com uma taxa de 7,153 e pela Somália com 6,123.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 27 países africanos registraram nessa segunda-feira apenas 347 casos de coronavírus, e alguns países africanos estão fechando suas fronteiras para chegadas de lugares como a Europa e os Estados Unidos, onde a doença é muito mais predominante.

Especialistas em saúde pública alertam que, dada a natureza contagiosa do coronavírus e a natureza altamente móvel das sociedades do século XXI, mais cedo ou mais tarde o vírus certamente chegará à África, provocando profundas preocupações sobre se os sistemas de saúde subdesenvolvidos e já sobrecarregados poderão estar à altura da tarefa.

Mesmo assim, pelo menos nos estágios iniciais da doença, foram as sociedades com menores taxas de fertilidade e com rápido envelhecimento das populações que sofreram mais. Como afirmou Justin Fox, colunista da Bloomberg, ao examinar os mesmos dados: “Provavelmente, isso não é uma coincidência”.

Aprendizados

Para a Igreja Católica e outros defensores do incentivo às pessoas a terem filhos, indubitavelmente este não é o momento para gritar “ahá!” ou escrever coisas que possam ser interpretadas como triunfantes. Por um lado, os dados epidemiológicos estão incompletos, há uma preocupação real de que alguns países possam estar subnotificando significativamente suas taxas de infecção, a testagem é desigual, e é muito cedo para tirar conclusões definitivas sobre o coronavírus.

Por outro lado, existe um instinto do senso comum que diz que uma sociedade com uma parcela maior de pessoas mais jovens e basicamente saudáveis provavelmente está em uma posição melhor para absorver os choques de uma crise de saúde pública, enquanto uma sociedade com uma parcela desproporcional de pessoas em maior risco enfrentará maiores desafios.

Quando São Paulo VI soou o alarme sobre a disseminação do controle artificial de natalidade e de um crescente encerramento artificial da vida em sua controversa encíclica Humanae vitae, em 1968, o argumento foi amplamente expressado em termos morais e espirituais.

Paulo VI argumentou que os propósitos “unitivo” e “procriativo” do matrimônio estão intrinsecamente ligados, e é um erro moral tentar separá-los.

Desde então, porém, os riscos de esforços excessivamente agressivos para limitar o crescimento populacional também ficaram aparentes por motivos práticos. Os economistas Nicholas Eberstadt e Hans Growth, para citar um exemplo, argumentaram que a queda nas taxas de natalidade “pressagia mudanças sombrias nas perspectivas econômicas, aumentos significativos nos encargos da dívida pública e um crescimento econômico mais lento”, em grande parte porque isso produz uma força de trabalho cada vez menor.

Pode ser que, quando a poeira da pandemia do coronavírus baixar, a saúde pública será adicionada à economia como parte da defesa de políticas pró-natalistas mais fortes, como as adotadas pela França, que conseguiu manter uma das maiores taxas de natalidade da União Europeia, em parte devido a políticas sociais generosas, como cuidados infantis subsidiados, licença-maternidade prolongada e incentivos fiscais para famílias maiores.

Isso não tem muito a ver com os argumentos morais da Igreja, é claro, mas pode pelo menos significar que eles serão ouvidos de forma diferente.

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