O coronavírus e os filósofos

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11 Março 2020

Bruno Cava Rodrigues, comenta as intervenções filosóficas de Giorgio Agamben e Slavoj Zizek sobre a pandemia de coronavírus. O texto é publicado no seu Facebook, 10-03-2020.

Eis o texto.

Nietzsche certa vez disse que a busca obsessiva pela saúde pessoal é o caminho certo para a decadência do ser humano. Um ser perfeitamente saudável se torna vaidoso, indolente e o pensamento, no mais das vezes, reflete sua obsessão com a manutenção do eu narcísico. A doença não só é um tônico da vida, como nos força a sair da zona de conforto e pensar a partir dela. O corpo doente como perspectiva sobre a saúde normal. Só sentimos o corpo, afinal, quando ele se impõe a nós. Poderíamos extrapolar o aforismo nietzschiano para pensar como uma epidemia faz emergir verdades antes colocadas para dormir pela normalidade social.

A recente pandemia de coronavírus inspirou dois filósofos famosos a escreverem pequenos textos. Talvez seja injusto avaliar esses comentários a quente, sobre um tema tão atual, mas o ônus dos textos é de quem os comete. A prova do pudim não é comê-lo? Então vamos a eles, às intervenções filosóficas de Giorgio Agamben e Slavoj Zizek.

Agamben escreveu um artigo curtíssimo ao jornal italiano "Il Manifesto". Nele, o autor de "Homo sacer" enxerga na reação ao coronavírus mais uma confirmação do novo paradigma biopolítico totalitário. Diante de uma epidemia "inventada", a resposta "imotivada" e "irracional" está fortalecendo o poder soberano, que consiste em decretar a exceção e decidir sobre ela. Assim como a contraface da luta contra o terrorismo vem sendo o aumento do terrorismo de estado, a contraface do estado de emergência é a normalização da emergência como novo estado.

Jean-Luc Nancy replicou imediatamente a Agamben com um tom humorístico que começa pelo título: "Exceção Viral". O filósofo francês brinca com a aplicação da fórmula do estado de exceção para tudo. No texto, Nancy comenta que, há 30 anos, teve um problema sério de saúde e, tivesse seguido o conselho libertário do colega à época, não teria sobrevivido.

No fundo, a provocação jocosa está deslocada. Não há dúvida que, com um problema de saúde, entre seguir o conselho de um médico ou de um filósofo, devemos seguir o do médico. Entre Agamben e a vacina, obviamente, fiquemos com a vacina. Como Woody Allen, em Desconstruindo Harry (1997), quando brinca com a pertinência da ciência: "entre o Papa e o ar condicionado, fico com o ar condicionado".

A própria pergunta "o que fazer" à filosofia não cabe: no máximo "o que pensar", ou "como pensar", ou ainda, "que sei eu?!".

Mas isto não impede de anotar como o catastrofismo agambeniano estraga o pudim. Se uma epidemia só nos leva a pensar na catástrofe, qual a distância que estamos de um pensamento apocalíptico? Que resta a pensar, sentir e fazer, quando tudo o que acontece é sinal do fim iminente, de um totalitarismo galopante e inescapável?

O conceito original de biopolítica, em Foucault, aliás, não era nem bom nem ruim, como tampouco eram enviesadas negativamente as reflexões judaico-messiânicas de Walter Benjamin. Dois segundos lados da moeda que, pelo menos no varejo, não aparecem nos textos de Agamben.

***

Slavoj Zizek foi na direção contrária e incorreu noutros problemas. O psicanalista esloveno escreveu dois textos em série.

No primeiro ("Meu sonho de Wuhan"), sobre racismo e histeria, o fato real do alastramento do coronavírus teria deflagrado uma epidemia ideológica paralela, essa sim, bem mais perigosa. Se, em termos clínicos, a situação epidemiológica tem "efeitos modestos", terminou por desencadear uma onda racista, paranoica e histérica, dirigida contra os orientais, os imigrantes e as pessoas doentes.

Apesar disso, as reações sociais e políticas de pânico, raiva e preconceito poderiam provocar, inadvertidamente, consequências positivas. As cidades desertificadas e a paralisia do sistema produtivo seriam exercícios utópicos de um tempo morto. Poderíamos inclusive imaginar quarentenas libertárias, que nos livrariam das exigências sufocantes da civilização moderna.

Aqui, em chave pós-lacaniana, Zizek retoma a crítica monocórdia de sua obra, contra o espírito sessentoitista. É que, nessa crítica, as multidões rizomáticas da geração de 1968 que bradavam "é proibido proibir" teriam vencido. O resultado histórico foi o status quo contemporâneo do multiculturalismo liberal, festivo e hedonista. Este establishment libertário prescreve um permanente e intenso envolvimento emotivo com tudo: o trabalho vivo contra o tédio maquinal, o gozo contra a repressão, a alegria contra a melancolia. Daí que os tempos mortos, os sentimentos melancólicos e a monotonia desoladora da paisagem pandêmica se mostrem, aos olhos da Ideologiekritik zizekiana, dotados de um potencial subversivo.

No segundo texto, o filósofo desenvolve o dito potencial subversivo da epidemia. Começa com uma analogia interessante sobre como o desastre nuclear de Chernobyl, em 1986, provocou uma reviravolta subjetiva na antiga URSS. Os cidadãos não só pararam de acreditar nas narrativas que o controle soviético da informação lhes apresentava, como começaram a multiplicar relatos e meios de expressão alternativos (samizdata, zines, mail-letters).

Estaria Zizek esboçando uma crítica à censura do regime de partido único da China? Não. Logo a seguir, ele muda o enfoque para mirar no capitalismo global e nos mercados, como se hoje o socialismo à chinesa não operasse como a principal fábrica do capitalismo global.

Zizek entende que a pandemia permite pensarmos em uma mudança radical, restaurando a confiança no "povo e na ciência" (the people and in science). Aqui temos o Zizek hegeliano entrando em campo: é preciso fortalecer instituições públicas e universais, um Estado forte guiado pelos interesses racionais da classe trabalhadora. Uma aposta na ciência, nos cientistas e na classe médica contra o obscurantismo da nova direita, suas fake news, seu terraplanismo, seu rechaço da medicina moderna, contra as vacinas. Assim como, num passado recente, negacionistas rechaçavam que havia uma relação de causalidade comprovada entre o HIV e a AIDS, atualmente a nova direita assume a reação contra a Ciência.

Com isso, o alastramento do coronavírus nos acordaria duplamente: de um lado, dos fundamentalismos anticientíficos da nova direita, do outro lado, dos pós-modernismos new age, homeopáticos e sessentoitistas, aliados sorrateiramente aos primeiros em sua escalada anti-universalista.

É verdade que, em momentos de pandemia, dá-se uma desterritorialização generalizada, abrindo brechas no campo dos possíveis. Poderíamos lembrar como, na Baixa Idade Média, a Peste Negra precipitou a crise do feudalismo, a pandemia de influenza de 1918-20 criou oportunidades para a luta por um sistema público de saúde, e a de AIDS, nas décadas de 1980-90, uma inédita mobilização pelos direitos dos gays à vida e à saúde.

Porém, em todos os casos, não foi nenhuma Astúcia da Razão hegeliana que, da negação da negação, terminou gerando consequências positivas imprevisíveis. Zizek sabe disso. Nesse sentido, ele aponta para Bernie Sanders, visto pelo filósofo como um Trump do Bem (i.e., de "Esquerda"), alguém que pode reforçar a unidade nacional ao redor de um plano universalista de proteção à classe trabalhadora.

Em vez de fechar fronteiras contra os imigrantes, abri-las para acolher todos os despossuídos, agora com acesso à melhor ciência da medicina moderna. Esse seria o primeiro passo, ainda segundo Zizek, para a criação de um estado internacional protetivo de todos os cidadãos do mundo, uma culminação do progresso histórico da razão. Por isso, desde já, é importante fortalecer a classe médica em sua organização global contra a epidemia, através da OMS e de redes transnacionais de solidariedade.

Valeria perguntar, tudo ponderado, por que o primeiro lugar para essa mudança radical à Zizek seriam os EUA e outras democracias liberais, e não a própria China. Onde a mobilização da classe médica e a formação de redes cidadãs de informação se chocaram quase instantaneamente com o monopólio político da narrativa exercido pelo partido único. Se existe um país no mundo onde os cientistas e midiativistas são vistos como perigosos dissidentes, é na China socialista. Assim como era na União Soviética de Chernobyl, onde o partido comunista igualmente deu mais importância ao controle da narrativa do desastre do que ao controle do próprio desastre.

E se podemos realmente falar em potencial subversivo da ciência, talvez não seja exatamente como aliada do estado (ainda que mascarado na utopia do Estado Universal de Hegel), mas como contrapoder. E não exatamente em Ciência, com maiúscula, mas na multiplicação de hipóteses e questionamentos que fazem as perspectivas científicas se amalgamarem com a liberdade democrática.

Zizek, entretanto, prefere ilustrar suas teorias com os acontecimentos, assim como Agamben o fez de modo bem mais tosco, no caso da teoria do estado de exceção. Ainda que algumas ‘pensatas’ tenham o poder de nos colocar a matutar, estão muito longe de levar a sério o desafio dessa situação que, conforme o texto de Nancy, nos pandemiza a todos.

***

É preciso reconhecer o mérito dos dois filósofos em, pelo menos, se arriscarem numa arena pública tão asfixiante. Num mundo em que as narrativas são imediatamente submetidas a um crivo estrito, seja por centros unificados como o do partido chinês, seja pela polícia difusa de linchadores virtuais, quando a prudência nos aconselha a ficar quietos, pensar a partir de uma catástrofe não deixa de ser um gesto de coragem.

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