Foucault: como o sexo se tornou poder

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04 Fevereiro 2020

Um dos laboratórios conceituais mais significativos da obra de Michel Foucault foi dedicado ao estudo das metamorfoses da concepção de sexo no Ocidente.

O comentário é do sociólogo italiano Massimiliano Panarari, professor da Universidade LUISS Guido Carli, em Roma, e da Universidade Luigi Bocconi, em Milão, publicado por La Stampa, 31-01-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo. 

Originalmente, o filósofo havia pensado nisso como um estudo daquilo que ele considerava como o dispositivo biopolítico da sexualidade na era moderna (entre os séculos XVI e XIX), para depois escolher, em vez disso, fazer uma genealogia histórica do “sujeito desejante” através da análise de alguns textos paradigmáticos da cultura greco-romana. Um canteiro de obras aberto, mas que permaneceu incompleto devido à sua morte prematura em 1984.

Recentemente, foi publicado também em italiano Le confessioni della carne[As confissões da carne] (Ed. Feltrinelli, 426 páginas), o quarto volume da sua incompleta “História da sexualidade” (cuja publicação havia iniciado em 1976), que, a partir do universo greco-romano clássico, transporta o leitor para o mundo cristão. Um livro que estava “quase pronto”, mas não terminado, assim que saiu do arquivo de Gallimard, após mais de 30 anos de interrupção da publicação dos seus textos que haviam permanecido inéditos. É uma experiência intelectual fascinante, como todos os trabalhos foucaultianos.

Em um cenário temporal posterior, o fio condutor continua sendo o mesmo dos livros anteriores dessa obra planejada em vários volumes, justapondo os processos de constituição do sujeito na antiguidade. Acompanhados e reconstruídos nestas páginas, passo a passo, com a releitura dos Padres do cristianismo dos primeiros séculos (dos séculos II a IV d.C.) mediante uma abordagem hermenêutica (mas de matriz “desconstrutiva e desconstrucionista”, por assim dizer).

Também nesse livro, vemos em ação, assim, o Foucault do debate serrado entre genealogia e arqueologia dos saberes, com livros e pensamentos nos quais entrevia a estruturação de uma doutrina e de um aparato de preceitos que reorientavam e curvavam a liberdade dos indivíduos.

Em algumas das suas lições no Collège de France, de fevereiro de 1978, o filósofo começara a delinear as especificidades do contexto da “governamentalidade pastoral”, fundamentada em uma série de “atos de verdade” (predominantemente em torno a si mesmos), que se articulavam através de uma série de práticas de obediência.

É a perspectiva que guiará os seus apontamentos e as suas anotações que confluíram de maneira quase orgânica neste quarto volume da “História da sexualidade”. Graças à qual ele evidenciava o processo de translação, em certos aspectos sem solução de continuidade, nos Padres da Igreja, de toda uma série de preceitos que provinham do paganismo. Que, nos dois primeiros séculos da era cristã, acaba se sujeitando, precisamente, a uma governamentalidade de tipo público.

Para os filósofos gregos e romanos, que a haviam elaborado inicialmente, ela permanecia predominantemente destinada à arte de viver e às “técnicas de si” do indivíduo. A desconstrução foucaultiana, assim, havia levado à subversão de uma convicção muito enraizada: a de uma moral dominante de tolerância em relação à diversidade das condutas sexuais na era antiga.

Por meio da hermenêutica textual das “confissões da carne”, o célebre professor de História dos Sistemas no Collège de France evidenciou, em vez disso, como as raízes da ideia da sexualidade para fins procriativos, da proibição da homossexualidade e da exaltação de temperança (e, portanto, da continência) encontram-se nas escolas e nas seitas filosóficas greco-romanas, e especialmente no estoicismo.

As regras da carne, portanto, já estão codificadas pela filosofia antiga, mas a sua disciplina da existência se desenvolve em um quadro racionalista e de formação espiritual voluntária, que o cristianismo definiria como livre arbítrio. E o indivíduo, portanto, não era absolutamente obrigado a se submeter a isso, enquanto a patrística converteu essas tecnologias de si, com base na “antropologia negativa” de São Paulo – segundo o qual a maldade, de fato, se abriga dentro de nós e, consequentemente, a anulação do prazer se torna o caminho exclusivo para combatê-la – no pilar da “arte de viver cristãmente”. Edificada sobre a dimensão pública da vigilância e sobre a figura do pastor como conselheiro espiritual a quem se deve prestar contas de todos os aspectos da esfera privada, através da definição de práticas e regras (do batismo à penitência) que configurarão um “regime”, como Foucault o chama no rastro dos médicos antigos, a ser seguido de perto.

Assim, o cristianismo – primeira religião do mundo antigo a gerar uma Igreja, como ressalta o filósofo francês – dará origem à disciplina penitencial e à da ascese monástica, que orientarão fortemente o sujeito ocidental, estabelecendo uma conexão entre o conceito de mal e o de verdade. Aqui se situa também a nova moral sexual cristã, fruto da justaposição e estratificação de um certo conjunto de tratados (esquecido) dos primeiros séculos, que vai da doutrina do matrimônio de Clemente de Alexandria à arte cristã da virgindade (de São Cipriano e dos bispos Basílio de Ancira e Metódio de Olimpos), até a categorização da libido por Santo Agostinho. E, em particular, em Clemente de Alexandria, o filósofo identificava os dois principais âmbitos destinados a orientar a ética cristã: o tema da virgindade e o da concupiscência.

Foucault nos faz ler em contraluz que é como se o cristianismo tivesse inventado o sujeito do inconsciente, tão distante daquele sempre presente a si mesmo, que o amadíssimo universo cultural tardo-pagão quisera construir.

 

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