Filósofa espanhola analisa aspecto paradoxal do panóptico descrito por Foucault

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Por: Lara Ely | 28 Agosto 2017

É no fio da navalha do tempo presente, entre a antiga sociedade disciplinar e a atual sociedade do controle, que o fenômeno do panoptismo foi debatido pela filósofa espanhola Olaya Fernandes. Durante o evento realizado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU,  na noite da segunda-feira, 21-8-2017, o tema do panóptico de Jeremy Bentham voltou à baila para pensarmos as contradições e potencialidades das sociedades contemporâneas. Olaya Fernandes, professora da Universidade de La Rioja da Espanha, chama atenção para a necessidade de questionar os sistemas de controle impostos socialmente, mas também pontua aspectos positivos de certos controles sociais.

As mudanças estruturais, contudo, vêm do descontentamento. “É desse jeito que a sociedade muda: quando as pessoas não estão se sentindo confortáveis com a norma e questionam”, argumenta a espanhola ao público que lotou a sala do Laboratório de Pesquisa Avançada em Comunicação e Informação – Labtics, na Unisinos, em São Leopoldo.

A palestra de Olaya encontra eco na perspectiva da desobediência, tema central da edição da Revista IHU On-Line publicada recentemente sobre Henry David Thoreau “A desobediência civil como forma de vida”.

Desobedecer é, em última medida, uma luta de resistência do pensamento crítico. As revoluções, antes de serem globais, são da ordem do individual, do micropolítico. No fundo, esse é um dos papeis da Filosofia, à medida que faz o debate avançar e coloca em crise o que é estabelecido pelos mecanismos de poder, que não são somente estatais, mas também sociais, como o machismo. Como professora, filósofa e jornalista, ela revela que encontrou no campo de pesquisa sobre feminismo uma de suas formas de resistência. Mas é possível criar outras, como adotar posturas de autonomia frente a comportamentos sociais hegemônicos.

“Não é preciso provocar uma Revolução Francesa para causar mudanças. Existem muitas formas de mudar o padrão de comportamento”, diz ao mencionar o exemplo de homens que tiram licença paternidade ou mulheres que viajam sozinhas.

Ao explicar a teoria que inspirou a arquitetura do poder em universidades, hospitais, escolas, quarteis, Olaya descreve que, no panoptismo, um guardião ocupa o posto de vigilância podendo ver tudo que está ao redor de si, sem ser visto pelos vigiados. Quem é monitorado, por sua vez, assume a forma de vida do vigiado, pois tende a comportar-se mediado pela vigilância invisível. Um bom exemplo para pensar essas contradições é o fato de criticarmos e vivermos a vida do panopticismo, à medida que primamos por nossa autonomia, mas nos sujeitamos à servidão de algoritmos como o do Facebook e sua economia dos "likes", por exemplo. 

“A partir daí se cria contato sináptico entre corpo e poder que influencia na biologia da vida, e por consequência, na biopolítica. Essa sociedade disciplinar que se constitui depois do século XVIII se baseia na ideia produtivista, junto ao surgimento do capitalismo. A biopolítca dessa sociedade não permite que o indivíduo perca tempo com atividades não-produtivas. O indivíduo então se sujeita e adota comportamentos exclusivamente economicistas”, afirma a palestrante.

Paradoxo e consciência crítica

Com a mediação do professor e filósofo Castor Bartolomé Ruiz, o evento tratou sobre “O poder e o panoptismo da cidadania segundo Foucault” e teve a proposta de ouvir o que “outros pesquisadores ao redor do mundo pensam sobre temas que também nos atingem”. A palestra é preparatória para o IX Colóquio Internacional IHU A Biopolítica como Teorema da Bioética, promovido pelo IHU em outubro nos dias 17 e 18 de outubro.

Castor Ruiz destacou o aspecto paradoxal do panoptismo, quando dá luz ao comportamento individual e ao mesmo tempo promove autodisciplina. Há efeitos positivos, segundo ele, como, por exemplo, o controle epidemiológico de doenças por parte do Ministério da Saúde. O problema da teoria, entretanto, está na definição do limiar entre a liberdade e sujeição. É neste sutil espaço que se alinha o perigo desses dispositivos de controle social.

“Esses debates não nos trazem soluções, trazem consciência crítica”, constata Castor, ao questionar onde essa ferramenta da vigilância servirá ao controle da cidadania.

Ao avançar no questionamento deste paradoxo, o professor abordou o mundo do trabalho e a sujeição dos trabalhadores a metas como mecanismos de exclusão. Segundo o filósofo e pesquisador, o olho da vigilância está sobre todos, e se sujeitar a modos e ritmos de trabalho faz parte dessa sociedade do conhecimento.

Redes sociais reafirmam Foucault

A questão que se coloca diante do tema é que, ao mesmo tempo que questiona o controle e o poder por parte das instituições, grande parte das pessoas reforça essa vigilância por meio de informações geradas nas redes sociais, expressão maior de nosso paradoxo contemporâneo. Na visão de Olaya Fernandes, essa comunicação via redes sociais reforça a ideia do panóptico de Foucault, bem como a vigilância por câmeras nas ruas, nas lojas, nos bancos, nos aeroportos, nas contas bancárias.

“Na nossa época, o panoptismo é mais forte ainda do que quando Foucault escreveu porque todos controlam e vigiam o tempo todo. O regime da vigilância por conta do discurso da segurança vem confirmar todas essas mudanças que houve. Isso confirma as teses escritas há quase 40 anos. O passar do tempo deu razão a ele”.

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