Confissões da carne segundo Foucault

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02 Março 2018

As confissões da carne se ocupa da tarefa de descrever a especificidade da experiência cristã da carne, mostrando como se formou a partir da transformação dos aphrodisia e como tornou possível a experiência moderna da sexualidade”, escreve Edgardo Castro, doutor em Filosofia e pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET) da Argentina, em artigo publicado por Clarín-Revista Ñ, 23-02-2018. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

No dia 25 de junho de 1984, morria Michel Foucault. Uma das cláusulas do testamento redigido em 1982 estabelecia pas de publication posthume, ou seja, nenhuma publicação póstuma. Apesar disso, não deixaram de aparecer trabalhos de sua autoria. Em 1994, publicou-se em francês uma edição em quatro tomos intitulada Ditos e escritos, que reunia textos majoritariamente breves do autor, já publicados em vida, ou seja, sem nenhum precisamente póstumo.

A partir de 1997, começaram a ser publicados seus cursos no Collège de France, já que por ter sido lidos em aulas públicas e gravados com a autorização do próprio Foucault podiam ser considerados como já publicados de maneira oral. Mais recentemente, apareceram outros cursos, artigos, conferências, diálogos e, sobretudo, sua tese complementar de doutorado. Em nenhum destes casos se tratava de algo inédito em sentido estrito: já circulavam registros orais, já existiam versões em outros idiomas, ou novas versões ampliadas. Se excetuamos alguns textos breves, então, “As confissões da carne”, o quarto volume de História da sexualidade, que acaba de ser publicado na França, é o primeiro inédito de Foucault em sentido estrito.

Foucault havia publicado o primeiro volume em 1976 e os seguintes, o segundo e o terceiro, oito anos depois, em 1984, pouco antes de morrer. Mas, o certo é que também havia enviado o manuscrito de As confissões da carne para que fosse publicado, mesmo que já não tivesse o tempo e nem as forças para realizar as correções requeridas pela transcrição editorial. Entre idas e voltas, foram necessários quase trinta e cinco anos para que, finalmente, este volume chegasse às livrarias.

Afora a ansiedade de seus leitores, do interesse dos especialistas e do público (por estes dias, não há quase nenhuma livraria importante em Paris que não lhe dedique um lugar destacado em suas vitrines), é necessário questionar o que traz de novo ao que já lemos e conhecemos. Enganam-se tanto aqueles que pensam que tudo é novidade como, ao contrário, aqueles que acreditam que podem prescindir de sua leitura. E também se enganam, assim como aconteceu em algumas das primeiras resenhas de “As confissões da carne”, aqueles que colocam o acento em que se trata de um livro sobre o cristianismo dos primeiros séculos e no fato de que o autor sustente que, por essa época, entre os autores pagãos e os cristãos, entre os filósofos e os Padres da Igreja, há uma linha de continuidade no que concerne aos códigos da moral, as regras do permitido e o proibido.

Do interesse de Foucault pelo cristianismo já estávamos sobremaneira advertidos através da leitura de seus cursos de inícios dos anos 1980. E os historiadores já tinham nos advertido acerca da continuidade entre o paganismo e o cristianismo, por exemplo, na condenação das relações sexuais fora da finalidade reprodutiva, no marco do matrimônio, homossexualidade e prostituição. Os próprios Padres da Igreja, com não pouca imaginação, sustentavam, com efeito, que tinham sido os filósofos os autores do roubo, ou seja, que tinham tomado suas ideias do Antigo Testamento. Platão, por exemplo, teria lido o profeta Jeremias.

Uma expressão do poeta René Char, que o próprio Foucault fez colocar na contracapa da edição francesa do primeiro volume e que aparece também na de As confissões da carne, constitui, sem dúvidas, sua melhor porta de entrada: “A história dos homens é a longa sucessão dos sinônimos do mesmo vocábulo. Contradizer isto é nossa obrigação”.

Aqui, os supostos sinônimos em questão são três: aphrodisia, carne, sexualidade. Aphrodisia é o nome da experiência grega de sexo. Aphrodisia eram as coisas de Afrodite (que os latinos traduziram por “venérea”, as coisas de Vênus), aqueles atos aos quais a natureza associou a um prazer tão intenso que os torna sempre suscetíveis ao excesso e revolta. Carne é o nome que se dá à experiência cristã destes atos e prazeres. Sexualidade, o de nossa própria experiência, a dos modernos. A experiência ética de sexo dos gregos, dos cristãos e dos modernos constitui o eixo de toda a História da sexualidade. O primeiro tomo se ocupa da sexualidade moderna; o segundo e o terceiro, dos aphrodisia gregos; e o quarto, da carne dos cristãos.

A experiência cristã

Do ponto de vista do código é possível falar de uma certa continuidade ao longo de todas estas experiências, mas nenhuma delas se define ou pode se descrever adequadamente se limitando à perspectiva das regras do permitido e do proibido. É necessário entender por qual motivo alguém aceita um determinado código, para qual finalidade, por meio de quais práticas se vincula a ele. Segundo o vocabulário de Foucault, as formas de sujeição, a teleologia e as formas do trabalho ético são tão ou mais relevantes que o código.

Não é a mesma coisa, por exemplo, controlar os próprios prazeres e moderá-los porque o domínio sobre si mesmo, o governo que se exerce sobre si mesmo, é um requisito para governar os outros neste mundo, que agir assim porque se deseja alcançar a vida eterna que foi prometida em outro mundo. Por isso, apesar da continuidade relativa dos códigos, trata-se de experiências diferentes. Aphrodisia, carne e sexualidade não são sinônimos. “As confissões da carne” se ocupa da tarefa de descrever a especificidade da experiência cristã da carne, mostrando como se formou a partir da transformação dos aphrodisia e como tornou possível a experiência moderna da sexualidade.

As análises de Foucault se estendem do século II ao século V, de Clemente de Alexandria a Agostinho de Hipona, de O Pedagogo à Cidade de Deus; passa-se, entre outros, por Tertuliano e Cassiano, de quem já se havia ocupado com cuidado no curso de 1980, no Collège de France, Do governo dos vivos. Com efeito, as páginas dedicadas a Clemente, e sobretudo a Agostinho, constituem as contribuições mais inovadoras e importantes de As confissões da carne.

Clemente é o primeiro a elaborar todo um regime de atos sexuais que não se estabelece, como acontece com os aphrodisia, em função da sabedoria e da saúde individual, mas, sobretudo, do ponto de vista das regras intrínsecas do matrimônio. Contudo, será necessário esperar Agostinho para que se constitua essa experiência da carne, na qual tanto o conhecimento de si mesmo, como a transformação de si mesmo, requer a manifestação da verdade, a verbalização do próprio desejo, e a luta contra o mal que corrompe nossa natureza a partir do pecado das origens. Tanto em Clemente como em Agostinho nos deparamos com a matrimonialização do desejo legítimo; mas só com Agostinho ocorre a libidinização de todo desejo. Agostinho, com efeito, denomina libido o desejo cuja natureza foi modificada pelo pecado original e já não corresponde à vontade do homem.

Sem Clemente não é possível compreender a passagem dos aphrodisia à carne; sem Agostinho, a da carne à sexualidade. No que concerne ao desejo, ainda falamos a língua de Agostinho. Neste sentido, “As confissões da carne” é uma peça fundamental dessa genealogia do homem de desejo que Foucault apresenta em sua História da sexualidade.

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