Um vírus inteligente, mas agora é preciso descobrir todos os seus pontos fracos

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16 Março 2020

O coronavírus que veio da China é muito esperto: produz sintomas leves e os infectados se movem livremente. É assim que se dissemina.

A reportagem é de Elena Dusi, publicada por La Repubblica, 14-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Existem vírus estúpidos e vírus inteligentes. Os primeiros, como o Ebola, matam rapidamente seus hospedeiros. Já os últimos, atingem a todos com sintomas leves. Mantêm as pessoas viajando, trabalhando e saindo de férias, apesar de alguns calafrios e o nariz entupido. Eles voltam para casa à noite com a família, não cancelam o jantar com os amigos marcado há algum tempo ou se jogam na empreitada esportiva para a qual haviam tanto treinado. Eles se espalham por todo o mundo até o nível da pandemia, declarado oficialmente pela Organização Mundial da Saúde em 11 de março. "A palavra parece sugerir que não há mais nada que possamos fazer para conter o vírus", explicou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. “Isso não é verdade. Estamos empenhados em uma luta que pode ser vencida se fizermos as coisas certas".

Rápido e esperto

O coronavírus que enfrentamos é um inimigo particularmente inteligente. 80% dos infectados apresentam sintomas leves. Parece que, nos diziam um mês atrás - mas parece que uma vida se passou - não mata certamente como os outros coronavírus da Sars e Mers. Por que se preocupar tanto, é uma gripe ou pouco mais. Enquanto isso, ele, sem ser visto pelos radares, viajava a bordo de indivíduos insuspeitos, com apenas sintomas incipientes ou completamente irrelevantes. E indo rápido, mostrava uma letalidade bastante baixa (3% contra 10% da Sars e 34% da Mers). Até triturar, com sua constância, os recordes de contágios e de vítimas dos muito mais agressivos coronavírus irmãos.

Território desconhecido

"Nós nos movemos em um território sem mapas", advertiu Ghebreyesus. Três meses após a descoberta da epidemia, não temos curas, não entendemos exatamente quem é contagioso, por que as crianças apresentam sintomas muito mais brandos que os adultos e por que as mulheres se saem melhor que os homens, nem sabemos quão bem fundamentada seja a esperança de que o vírus seja sazonal e acabe se eclipsando com a chegada da primavera. "Estamos enfrentando a ameaça número um do mundo", disse o diretor da OMS. "Um vírus pode ter efeitos mais poderosos do que qualquer ataque terrorista". Era 11 de fevereiro e parecia um exagero. Um mês depois, trancados em casa ou atrás das máscaras, prestando atenção à nossa volta e mudando de calçada caso tivesse alguém no caminho, percebemos como ele estava certo. Do outro lado, destaca Benedetta Allegranzi, diretora mundial do serviço de prevenção de epidemias da OMS, "as epidemias podem nos fazer superar o individualismo e redescobrir que somos um conjunto e temos responsabilidades coletivas". É muito improvável que o coronavírus nos prejudique diretamente. É muito mais fácil que nossas imprudências tenham efeitos que recaiam sobre os ombros dos outros: os doentes mais frágeis ou o pessoal do sistema de saúde.

A ponta do iceberg

De acordo com uma análise do Imperial College, dois em cada três pacientes não são identificados. Eles se curam sem tratamento e nunca serão incluídos nas estatísticas. Em 13 de fevereiro, a China, tomada pela onda de contágios, parou de contar os doentes através de teste e análises do genoma do vírus e simplesmente inseriu nas estatísticas aqueles que apresentavam sintomas aos pulmões. Até a Itália - em particular a Lombardia - está tendo dificuldades para testar todas as pessoas que apresentam distúrbios. O trabalho normalmente é realizado quando um novo vírus aparece (entrevistando todos os infectados, investigando os deslocamentos e rastreando os contatos) já depois de alguns dias provou ser uma tarefa insana. O mapa que normalmente, na disciplina chamada "epidemiologia de campo", reconstrói quem infectou quem no norte do país se tornou uma selva inextricável. O fato de a Itália ter uma taxa de letalidade (a razão entre mortos e infectados) que é o dobro em comparação com a China (acima de 5 em relação a 2,5) pode ser explicado com a idade média (44 anos contra 37 na China) e com o fato de que, como em Wuhan, nem sempre se consegue identificar os doentes.

A epidemia dos feriados

A epidemia preocupou as autoridades de Wuhan desde o início. Em 30 de dezembro, o alarme foi disparado pela Organização Mundial da Saúde. Mas medidas de prevenção foram tomadas lentamente. Wuhan esperou até os dias 23 e 24 de janeiro para impor um cordão sanitário. A decisão entrou em vigor 8 horas após o anúncio, permitindo que aqueles que não gostassem da reclusão mudassem de cidade. Nem mesmo um banquete digno de guinness para 10.000 famílias foi cancelado em 7 de fevereiro, para comemorar o Ano Novo. Somente após o fim das festas foi proibida a venda de animais silvestres vivos. Desde então - para demonstrar a dimensão desse mercado - as autoridades fecharam 20.000 criadouros de porco-espinho, javalis, corujas e pavões. À venda também havia crocodilos, cobras, tigres, pangolins e, como sabemos, morcegos. O animal do qual, com toda a probabilidade, veio o coronavírus que está provocando a pandemia de hoje.

Lições descumpridas

Nem sempre, podemos dizer hoje, estivemos à altura da inteligência do vírus. "Além da disseminação e gravidade da doença, estamos preocupados com o alarmante nível de inação de alguns países" é a acusação lançada por Ghebreyesus ao declarar o estado de pandemia. A onda crescente do vírus se espalhou da China para a Coréia do Sul, Irã e Itália. A partir daí, simplesmente deslocada por algumas semanas, a curva de contágios também aumentou na França, Alemanha e Estados Unidos. Aumento exponencial: conceito que pode ser resumido por uma lenda. Um rei queria recompensar o súdito que inventara o jogo do xadrez, um passatempo muito apreciado pelo soberano. O súdito pediu apenas um grão de trigo, desde que dobrasse de número a cada casa do tabuleiro. Pareceu ao rei um pedido modesto. No final, toda a colheita do reino não foi suficiente.

O calcanhar de Aquiles do vírus

O jogo, para nós, humanos, certamente não está perdido. É verdade que não temos medicamentos para prevenir ou tratar o Covid-19, a doença do coronavírus. Mas, por mais esperto que seja, até o microrganismo tem suas fraquezas. É transmitido com as gotículas de tosse e espirros, mas apenas aquelas maiores, acima de 5 mícrons, incapazes de se afastar mais de 1,5-2 metros da pessoa contagiosa e de persistir no ar além de poucos segundos. Foi calculado que cada pessoa doente infecta outras 2,5-3, enquanto o sarampo pode atingir 15, graças à sua capacidade de ser transportado por gotículas da respiração menores que 5 mícrons, permanecer suspenso no ar e viajar com as correntes, assim afastando-se inclusive vários metros. Em Wuhan e nas áreas vermelhas de Lodi, a medida do "distanciamento social" funcionou. O sacrifício do isolamento de algumas semanas serviu para extinguir o surto.

Oxigênio para se curar

A força do coronavírus - afetar o hospedeiro em 80% dos casos com sintomas leves - também é a sua fraqueza. Apenas 5% dos infectados desenvolvem pneumonia grave. Na ausência de outras doenças, sem outras complicações, mesmo os gravemente doentes têm boas chances de recuperação, se auxiliados com o oxigênio, a hospitalização em terapia intensiva e um bom atendimento. Eventualmente, à medida que os infectados e curados aumentarem, a humanidade desenvolverá a chamada "imunidade de rebanho", que impedirá o vírus de encontrar novas pessoas para infectar. As casas do tabuleiro, por mais numerosas que sejam, não são infinitas. O preço que pagaremos depende muito do sistema de saúde de um país e de sua capacidade de suportar o peso de um grande número de infectados. A Itália, país idoso que passou por um corte míope de 40 mil médicos nos últimos 6-7 anos, está pagando um preço alto. Os profissionais de saúde que permaneceram na frente de ação têm um peso imenso sobre seus ombros. A lição (e o medo) deveria - esperamos - servir para o futuro.

As crianças serão salvas

O coronavírus tem a característica bastante misteriosa de poupar crianças ou de atingi-las de forma leve. Apenas 1% das pessoas infectadas têm menos de 10 anos de idade. A primeira vez que se falou em contágio assintomático, em janeiro, foi precisamente sobre um garotinho de 10 anos de Shenzhen, que permaneceu saudável em uma família totalmente contagiada depois da visita a um parente ao hospital Wuhan. Os pais preocupados quiseram que ele fosse testado, apesar de sua boa saúde. E, de fato, ele resultou positivo, como uma espécie de portador sadio, para nos confortar que, em um cenário de ficção científica em que o coronavírus exterminaria a nós todos, as crianças continuariam a povoar um mundo novo.

Aguardando a vacina

A longo prazo - as estimativas variam de um a três anos - deveremos desenvolver uma vacina. Talvez isso nos salve da ocorrência de mortos e contágios. Ou talvez acabe como a vacina da Sars, colocada em uma prateleira por falta de doentes. O vírus, depois de dominar o mundo por mais de um ano, desapareceu da mesma forma como havia surgido. Deixando feridas e medo. Mas não o suficiente para nos induzir a prevenir hoje a nova epidemia. E aqui está, talvez, o nosso limite, na corrida de inteligência atemporal entre homens e vírus.

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