O coronavírus e o “jejum de missa” na Quaresma

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11 Março 2020

Assim como o jejum pode melhorar a nossa saúde física e espiritual, a nossa renúncia à missa na Quaresma por causa do coronavírus melhorará a saúde da nossa Igreja.

O comentário é de Bill Grimm, padre maryknoll estadunidense, em artigo publicado por La Croix International, 09-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A primavera é a temporada do sumô no Japão, um dos seis períodos de duas semanas ao longo do ano em que o esporte nacional é praticado diante de grandes multidões. Mas não este ano. Os meios de comunicação estão mostrando o torneio de luta livre em um local vazio. Os espectadores estão banidos da arena.

Em várias partes do mundo, especialmente talvez na Ásia, os bispos cancelaram as missas dominicais e outras reuniões como medida preventiva contra a disseminação do coronavírus que causa o Covid-19, uma infecção potencialmente fatal que parece estar prestes a se tornar uma pandemia.

É decepcionante, mas infelizmente não muito surpreendente, ver quantos católicos estão tentando contornar esse cancelamento, invadindo missas até então para pequenos grupos em conventos e casas religiosas, e, assim, forçando essas comunidades ou a se fecharem a forasteiros ou a cancelarem suas próprias liturgias domésticas.

Um lar de irmãs idosas doentes, onde eu celebro uma missa semanal, teve que cancelar suas liturgias dominicais por causa do número de pessoas de fora que tentaram comparecer, parecendo pensar que o fato de estarem na missa é mais importante do que protegerem a vida das irmãs idosas que estão especialmente em risco se expostas ao vírus.

Eu conheço uma comunidade de religiosos em Tóquio que acolhe todas as pessoas cuja igreja teria ficado lotada com pessoas cujas próprias igrejas estão obedecendo à ordem diocesana de cancelamento. Isso encoraja os desobedientes, os insensatos, os egoístas e os estúpidos, enquanto coloca em risco a sociedade em geral. Mas, presumivelmente, enche os cofres dos religiosas através de coletas maiores que provavelmente não vão ser destinadas para o alívio da epidemia.

Essas pessoas não demonstram nenhuma preocupação com a lógica por trás da cessação de missas para grandes grupos, nem com a obediência às lideranças da Igreja e da sociedade civil. Eles egoisticamente sentem que sua piedade privada é mais importante do que a saúde e a segurança, e até mesmo a vida de suas irmãs e irmãos.

Alguns chegaram a contestar a autoridade de seus bispos ao emitirem tais ordens de cancelamento. Aliás, os bispos têm essa autoridade, independentemente do que as pessoas que parecem se considerar supercatólicas possam pensar.

De fato, dado o estado atual da epidemia e a incerteza sobre o seu curso provável, não cancelar os encontros eclesiais seria irresponsável por parte dos bispos nas áreas afetadas.

Além daqueles que se consideram isentos, nós, católicos presentes em áreas afetadas pelo vírus, fomos efetivamente forçados a abrir mão da missa por uma duração significativa e ainda não clara durante a Quaresma. O desafio e a oportunidade para nós é ver como essa privação pode aprofundar a nossa fé, esperança e amor em preparação para renovar o nosso compromisso batismal na Páscoa, quer possamos nos encontrar ou não.

Certamente, o cancelamento das liturgias paroquiais não impede que usemos o tempo que normalmente gastaríamos participando da missa para ler e refletir sobre as orações e as leituras do dia. De fato, podemos descobrir que somos capazes de desenvolver “homilias” pessoais melhores do que aquelas que podemos suportar em circunstâncias normais.

Podemos até fazer uma “coleta”, reservando o dinheiro para contribuir posteriormente com as nossas paróquias, porque, embora as missas tenham sido canceladas, a maioria das grandes despesas não foi. Os salários ainda precisam ser pagos, e, pelo menos em Tóquio, a companhia elétrica não mostrou nenhuma indicação de que cancelará as cobranças às igrejas que não estão se reunindo todos os domingos.

Nossos jejuns e sacrifícios quaresmais destinam-se, em parte, para aumentar a nossa consciência da situação pela qual nossos irmãos e irmãs devem passar sem escolha, nem por um tempo limitado, mas por causa da pobreza, fome, opressão ou falta de oportunidade persistentes.

O nosso “jejum” da missa dominical não deveria nos oferecer uma comunhão mais íntima com as nossas irmãs e irmãos, que devem ficar sem celebrações eucarísticas durante meses ou até anos seguidos, porque não há padres disponíveis para participar dos seus encontros?

Esse é o caso, por exemplo, da região amazônica da América do Sul, e, em seu recente Sínodo, os bispos da Amazônia declararam que a ordenação de homens casados deve ser considerada como um meio para aliviar esse “jejumforçado da Eucaristia. Aparentemente, o Papa Francisco está esperando que um ou mais desses bispos peçam para que ele dê esse passo.

O que é verdade na Amazônia também será verdade no restante da Igreja. A epidemia da falta de padres se espalhará. Em grande parte do mundo, a maioria das lideranças das celebrações eucarísticas têm cabelos brancos, se é que têm cabelos. Esse não é um bom augúrio para o futuro.

Talvez, o jejum eucarístico temporário imposto pelo coronavírus nos dará um senso de urgência na preparação para acabar com a pobreza eucarística. Então, se nós – todos nós – procurarmos respostas criativas para o problema, poderemos descobrir que, assim como o jejum pode melhorar a nossa saúde física e espiritual, a nossa renúncia à missa na Quaresma melhorará a saúde da nossa Igreja.

 

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