O COVID-19 e a vulnerabilidade social

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20 Março 2020

"O ministro da economia quer empurrar reformas que visam mais o garantir do projeto econômico e político do governo do que a atenção ao próprio problema que avança com o COVID-19. Isso é muito triste, é grave, pois aqueles que são os mais vulneráveis nesta crise da saúde também se tornam os mais vulneráveis do atual sistema político-econômico", escreve Cesar Kuzma, teólogo leigo, casado e pai de dois filhos, doutor em Teologia pela PUC-Rio, onde atua como professor-pesquisador do Departamento de Teologia e autor de livros e artigos sobre a teologia e pastoral.

Eis o artigo.

O avanço do COVID-19 trará graves consequências, principalmente sociais. No Brasil de hoje, grande parte de nossa população vive em condições vulneráveis e sem acesso a condições básicas de saúde e de infraestrutura, mesmo de saneamento básico. Os últimos anos trouxeram um aumento da pobreza e uma precarização do sistema de trabalho, no qual a maioria dessas pessoas não encontra qualquer segurança ou perspectiva. O nosso sistema de saúde foi sucateado e este serviço deixou de ser uma segurança para a população, já que o teto de gastos que foi imposto pelo governo T. inibe investimentos públicos e aumento de recursos. Água limpa torna-se um bem de difícil acesso à parcela mais pobre da população e todo descaso pelo meio ambiente, que vemos no governo atual, mostra uma atitude irresponsável para com bens fundamentais de nossa subsistência.

Um ano [2020] que iniciou marcado por tragédias de desmoronamento, alagamentos, por milhares de pessoas desabrigadas e vítimas de uma condição social que exclui e mata, de crimes/acidentes que se somam a outras realidades ainda não superadas e que trazem em exposição aqueles que sempre se encontram numa vulnerabilidade maior. Diante destes fatos e observando o avanço desta nova crise, os dados que percebemos passam a ser preocupantes e merecem toda a atenção.

Diante de tudo isso, a informação que chega para às pessoas é, em grande parte, manipulada, e os interesses mesquinhos desviam o foco do que realmente deveria nos preocupar. É o tempo das fake news e da pós-verdade. Nem todos conseguem ter acesso a bons veículos de comunicação e o desrespeito com que o atual governo B. trata setores da imprensa e pesquisadores em universidades faz com que a verdadeira informação, com base em dados e atenta ao quadro científico e social seja desprezada e ignorada, abrindo espaço para distorções e movimentos que caminham com outros interesses, totalmente ideológicos.

Neste quadro, o atual governo gasta a sua atenção com detalhes secundários e, com isso, desestabiliza a parte do próprio governo que, responsável pela saúde, tenta encontrar respostas e caminhos de superação desta crise. Ao invés disso, de modo irresponsável, convoca e participa de manifestações de rua que trazem propostas antidemocráticas e anticonstitucionais, que desestabilizam um sistema já fragilizado, no qual as vítimas deste desmando e descontrole serão os mais pobres e todos aqueles que sofrem com a falta de recursos e de atenção por parte do Estado.

Enquanto isso, o ministro da economia quer empurrar reformas que visam mais o garantir do projeto econômico e político do governo do que a atenção ao próprio problema que avança com o COVID-19. Isso é muito triste, é grave, pois aqueles que são os mais vulneráveis nesta crise da saúde também se tornam os mais vulneráveis do atual sistema político-econômico, que na sua natureza perversa define quem vive e quem morre, descartando aqueles que sobram na sociedade, os sobrantes.

Neste momento de pandemia, muita coisa está sendo adiada ou suspensa, das quais algumas delas se somarão a esta crise e produzirão mais escombros em nosso tecido econômico-social, outras, porém, serão transportadas para outro momento e poderão ser revistas, retratadas ou adaptadas. No entanto, a vida de muitas pessoas, sobretudo dos mais pobres não pode ser perdida ou ignorada, e sim deve ser atendida e chamada à significância, ao cuidado, ao respeito. Teologicamente falando, somos sim responsáveis por nossos irmãos (cf. Gn 4,9).

Tempos difíceis e que nos farão repensar toda a nossa concepção de sociedade, e de humanidade.

 

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