Naomi Klein, capitalismo e coronavírus: “O choque é o próprio vírus”

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18 Março 2020

Em dezembro de 2019, surgiu um surto de pneumonia desconhecida em Wuhan, China. O grupo de pessoas afetadas estava vinculado ao mercado atacadista de mariscos, um local que também lida com animais exóticos, entre eles, morcegos, criatura da qual se acredita ter originado o vírus classificado como pandemia pela Organização Mundial da Saúde - OMS.

A reportagem é de Mónica Garrido, publicada por La Tercera, 16-03-2020. A tradução é do Cepat.

O COVID-19 é um tipo de coronavírus originado da SARS-CoV-2, um patógeno que se espalha a uma velocidade alarmante, do continente asiático para o resto do mundo. Tanto a OMS como as autoridades dos respectivos países têm enfatizado a importância de lavar as mãos, espirrar e tossir em lenços ou contra o cotovelo, evitando aglomerações e não cumprimentando com um beijo ou apertando as mãos.

Não só teve repercussões no nível da saúde, o que forçou a aplicação de medidas extraordinárias de saúde, incluindo o fechamento de fronteiras em alguns países, mas também teve um impacto no âmbito econômico, com perdas de mais de 22 trilhões de dólares na capitalização de ações nos Estados Unidos e na Europa.

No marco da crise de saúde - e econômica - com consequências mundiais, a jornalista e ativista americana Naomi Klein analisou a situação atual em relação ao coronavírus e seus efeitos no sistema capitalista.

Em conversa com Vice, a autora de livros como A Doutrina do Choque. A ascensão do capitalismo do desastre (2008) e Sem logo (2002), garante que, mais do que nunca, é necessário “lutar mais por um sistema de saúde universal” e considerar não apenas o autocuidado, também “compartilhar com seus vizinhos e ajudar as pessoas mais vulneráveis".

Naomi Klein explica o “desastre capitalista” como uma maneira de descrever a forma como as indústrias privadas ressurgem ao se beneficiar diretamente de uma crise de larga escala.

“O lucro produzido de desastres e guerras não é um conceito novo, mas realmente se aprofundou no governo Bush, após o 11 de setembro de 2001, quando o governo declarou tais tipos de crises de segurança sem fim, e simultaneamente as privatizou e subcontratou”, disse Klein, explicando que isso incluiu o estado de seguridade nacional, bem como a ocupação do Iraque e do Afeganistão.

“A Doutrina do Choque é uma estratégia política que consiste em usar crises em larga escala para promover políticas que sistematicamente aprofundam a desigualdade, enriquecem as elites e minam os demais”, disse a escritora.

Klein faz alusão a uma estratégia nascida em resposta ao New Deal sob o mandato de Franklin D. Roosevelt, que segundo o economista Milton Friedman, causou uma crise nos Estados Unidos. “As elites políticas e econômicas entendem que os momentos de crise são sua oportunidade de impulsionar sua lista de desejos de políticas impopulares que polarizam ainda mais a riqueza neste país (Estados Unidos) e em todo o mundo”, disse a jornalista e acadêmica.

Consultada sobre as “múltiplas crises que estão ocorrendo atualmente”: uma pandemia, falta de estrutura para lidar com isso e o colapso dos mercados, Naomi Klein disse que “o choque” é o próprio vírus.

“E foi tratado de uma maneira que a maximiza a confusão e minimiza a proteção. Não acredito que seja uma conspiração, é apenas o modo como o governo estadunidense e Trump lidaram completamente mal com essa crise, até agora não a trataram como uma crise de saúde pública, mas como uma crise de percepção e um possível problema para a sua reeleição”, analisa a jornalista, em um período de eleições democratas anteriores às presidenciais.

“É o pior dos cenários, especialmente combinados com o fato de os Estados Unidos não terem um programa nacional de saúde e proteção de seus trabalhadores. É abismal. Essa combinação de forças produziu um choque máximo. Irá explorar para resgatar indústrias que estão no coração das crises mais extremas que enfrentamos, como a crise climática: a indústria aérea, a indústria de petróleo e gás, a indústria de cruzeiros. Querem reforçar tudo”.

Klein argumenta que isso foi visto após a tragédia causada pelo furacão Katrina, em 2005, uma situação de emergência na qual os Estados Unidos receberam doações de vários países, “mas o custo real veio na forma de austeridade econômica [posteriormente, cortes nos serviços sociais] “.

Nesse contexto, Klein disse que temos duas opções: retrocedemos e desmoronamos, ou crescemos e encontramos reservas de força e compaixão que não sabíamos que tínhamos. “A razão pela qual guardo a esperança de que optemos por evoluir é que - ao contrário de 2008 - temos uma alternativa política que propõe uma resposta diferente à crise que chega às causas raízes da nossa vulnerabilidade e um movimento político mais amplo que a apoia”.

De acordo com as propostas de Naomi Klein, é disso que se trata o Green New Deal (acordo político para enfrentar o aquecimento global): “Precisamos nos preparar para um momento como este. Não podemos perder nossa coragem, temos que lutar com mais força do que nunca por um sistema de saúde universal, pelo cuidado universal das crianças, pelo pagamento das licenças médicas. Tudo está intimamente conectado”, explicou a autora.

O que fazer nesse cenário? Klein argumenta que cada indivíduo - logicamente - busca o melhor seguro e o melhor atendimento, e aqueles que não podem pagar, precisam resolver por conta própria. “Isso é o que essa espécie de economia de o-ganhador-leva-tudo faz com nosso cérebro. Estamos vendo em tempo real que estamos muito mais interconectados entre nós do que nosso brutal sistema econômico nos faz acreditar”.

“Podemos pensar que estaremos seguros se tivermos bons cuidados médicos, mas se a pessoa que faz nossa comida, que entrega nossa comida e empacota nossas caixas, não pode sequer pagar pelo teste, e muito menos ficar em casa, pois não recebe licença médica, não estaremos a salvo”, continuou a escritora conhecida por suas críticas à globalização e ao capitalismo.

“Quando se está em um sistema que se sabe que não está cuidando das pessoas e não está distribuindo recursos de maneira equitativa, então sua parte de ‘monopólio’ se iluminará”, explicou Klein, referindo-se ao impulso de comprar massivamente - mais do que o necessário - em supermercados e outras lojas.

“Portanto, leve em conta isso e pense em como, em vez de acumular e pensar em como pode cuidar de si e de sua família, pode passar a compartilhar com seus vizinhos e controlar as pessoas mais vulneráveis”, concluiu Klein, em conversa com Vice.

 

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