Gestos de solidariedade começam a surgir em meio à pandemia do coronavírus

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19 Março 2020

Ederson Lopes sabe que os meses de verão são fracos na venda de livros, experiência acumulada nos cinco anos desde que abriu a livraria Taverna, localizada no centro de Porto Alegre. A chegada do mês de março costuma ser aguardada para virar o jogo e levantar o faturamento, impulsionado pelo início das aulas das faculdades e a maior movimento com o fim das férias escolares. Em 2020, todavia, março não começou como se esperava. O boleto do aluguel da livraria, com data de vencimento no dia 5, não pôde ser honrado. Para piorar a situação, a capital gaúcha registrou os primeiros casos da pandemia de coronavírus e o medo de circular pelas ruas começou a afastar ainda mais os clientes.

A reportagem é de Luciano Velleda, publicada por Sul21, 18-03-2020.

Na última terça-feira (17), a livraria tinha mais um dia de movimento fraco quando, por volta das 16h, o telefone tocou. Ederson Lopes atendeu e, do outro lado, uma vizinha e cliente foi logo adiantando se podia fazer uma pergunta indiscreta e lascou: “Qual o valor do aluguel?”

Numa fração de segundos, Lopes pensou que ela iria oferecer algum novo ponto, talvez com valores mais baixos ou algo assim. Ele respondeu. O custo do aluguel da livraria Taverna não é baixo. “Então, se puder, me passa a sua conta que vou pagar pra você”, disse a vizinha e cliente.

O dono da Taverna ficou sem reação. Se fosse algum parente ou amigo próximo, até seria mais fácil entender o gesto. Mas não era o caso. Embora cliente, a mulher que estava ali se oferecendo para pagar o aluguel é daquelas que aparecem a cada dois meses, diferente de outros clientes mais assíduos e com os quais Lopes desenvolve uma relação mais próxima. “Fiquei uns segundos sem saber o que dizer”, lembra ele.

Em seguida, agradeceu, mas destacou que não saberia quando poderia retribuir financeiramente o pagamento. “Não precisa pagar, é um presente, não quero nada em troca”, afirmou a vizinha, ressaltando que a presença da livraria na rua é importante para ela.

Quase 24h depois do ocorrido, o dono da livraria Taverna ainda se emociona com a situação inesperada. “Foi incrível, ainda mais num momento pesado politicamente e agora com o coronavírus, todo mundo vindo de anos pesados, sem um norte exato. Uma atitude dessa de solidariedade é incrível”, afirma Ederson Lopes. “Pior que não vou nem poder dar um abraço nela, ao menos não agora”, completa.

Formado em Sociologia, ele avalia que todos podem se ajudar nesse momento de dificuldade causado pela pandemia de coronavírus. Para Lopes, situações críticas como a atual tendem a se apresentar como oportunidades para ações em prol do outro. E embora demonstre extremo carinho com o gesto que o beneficiou, o dono da livraria diz que ele, assim como tantos outros comerciantes, precisam mesmo é de medidas do Estado para superar as agruras que virão. “Muitos comércios podem vir a fechar. Estou apreensivo”, alerta.

Eu posso ir

A solidariedade que moveu a cliente da livraria Taverna tem se espraiado também por outras vizinhanças. Aqui e ali surgem relatos de pessoas colando cartazes em elevadores e se oferecendo a fazer compras em mercados ou farmácias no lugar de outras consideradas grupo de risco do coronavírus, como idosos.

(Foto: Reprodução | Facebook)

É o caso de Alexandra Zanella, de 38 anos, que no último domingo (15) viu o exemplo de um italiano que colocou bilhete no prédio em que mora e se dispôs a fazer compras para quem precisasse. Jornalista, trabalhando de casa em função da pandemia, Alexandra gostou do exemplo e decidiu “comprar a ideia”. “Estou bem de saúde, em casa, não sou grupo de risco, sou privilegiada, então posso ajudar”, explica.

Na segunda-feira (16) pela manhã, ela escreveu o bilhete e colocou no elevador. Horas depois, duas senhoras idosas usaram o interfone para agradecer. Elas disseram que ainda não estavam precisando ir à rua, mas que já se sentiam mais seguras e protegidas. Uma vizinha de porta também apareceu para agradecer e manifestar felicidade em saber que poderia contar com alguém.

“Precisamos olhar coletivamente, tirar o olho do umbigo”, afirma Alexandra Zanella, proprietária da agência de conteúdo Padrinho. “Eu se ficar doente posso me tratar em casa, o problema é que um pode levar (o vírus) para o outro e esse outro não vai sobreviver”, reflete, dizendo ter ficado abalada com as notícias de que médicos italianos estão tendo que escolher quem vive e quem morre nos hospitais superlotados. “Isso bate fundo no coração. É um momento crucial de olhar o coletivo”, afirma Alexandra.

Sua iniciativa no prédio onde mora, por esses caminhos das redes sociais, chegou até um homem em Curitiba. Ele entrou em contato com ela e disse que faria o mesmo no local em que vive. Um efeito dominó que Alexandra acredita ser possível em momentos de grande crise, de modo a florescer coisas boas em meio a intempérie.

Álcool gel

Morando em São Paulo há cerca de um ano, Valentina Bittencourt admira o trabalho do Padre Júlio Lancellotti não é de hoje. Na capital paulista, o padre é um conhecido defensor da população em situação de rua, há décadas comprando brigas e exigindo políticas públicos dos mais diferentes governantes que a cidade já teve, da esquerda à direita.

Essa semana, Valentina e o marido se envolveram na campanha promovida pelo padre para arrecadar álcool gel e distribuir entre as mais de 20 mil pessoas em situação de rua em São Paulo. Mais do que contribuir com doações, Valentina pretende participar da entrega do produto nesta quinta-feira (19). “Vejo ele se mobilizando de uma maneira especial, é um homem que tem um olhar muito humano. Ficamos bem tocados, para a população de rua não há quarentena”, destaca.

Valentina diz que contribuir com campanhas de doações já é uma prática em sua vida. Agora, na crise do coronavírus, ela tem adotado também outros comportamentos, como priorizar as compras nos pequenos estabelecimentos comerciais do bairro onde mora. Um modo, explica, de colaborar na renda dos pequenos comerciantes, normalmente sem condições financeiras de enfrentar o baque econômico que se projeta. “Quem não ficar contaminado, vai ficar em casa cheio de boleto.”

 

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