A travessia epocal de Francisco

Arte de Jonathan Camargo em foto de Catholic Church

Por: João Vitor Santos | Edição: Ricardo Machado e Wagner Fernandes de Azevedo | 24 Janeiro 2020

No próximo dia 13 de março, completam-se sete anos que Jorge Mario Bergoglio foi eleito Papa. Quando as cortinas do Palácio Apostólico se abriram e o cardeal francês Jean-Louis Tauran anunciou “Habemus Papam!” (“Temos um Papa!”), houve ali o prenúncio de uma mudança de tempos. Pela primeira vez um sul-americano havia sido escolhido o bispo de Roma. Ainda é viva na memória a recusa de Bergoglio a usar vestimentas e acessórios solenes, desde a primeira vez que apareceu em público como pontífice. Mas esses foram apenas os primeiros movimentos de um pontificado que tem como característica a dessacralização do cargo, mas que também incomoda quem teme transformações nas tradições milenares da Igreja Católica Apostólica Romana.

 

Ao longo de quase sete anos, as disputas entre aliados e opositores de Francisco oscilou entre quem defende a abertura de uma Igreja em saída, tal como o próprio Papa, e aqueles temerosos de que essa abertura desfaleça a tradição da Igreja Romana. Ao longo de 2019, nesse último ano de pontificado, Francisco deu sinais claros de que está ciente das disputas em jogo e, ainda assim, insiste que é preciso encarar “uma mudança epocal”. Não se trata, apenas, da vinda de novos tempos e da emergência da Igreja em sintonizar com essa realidade. Trata-se de compreender no que consiste essa transição, que paradigmas humanos e sociais estão em jogo. Como destacou em seu pronunciamento à cúria romana no final de 2019: “Estamos a viver não simplesmente uma época de mudanças, mas uma mudança de época”, descreveu o Papa. “As mudanças já não são lineares, mas epocais; constituem opções que transformam rapidamente o modo de viver, de se relacionar, de comunicar e elaborar o pensamento, de comunicar entre as gerações humanas e de compreender e viver a fé e a ciência”, complementa.

 

Na vida prática da Igreja, o que significa essa mudança? E quais os sinais dessas transformações no próprio pontificado? Como no primeiro dia que foi anunciado como pontífice, Francisco tem colecionado ações que revelam qual sua concepção de Igreja. São ações que tentam materializar os conceitos que emprega, como o de “uma Igreja em saída” ou, ainda, “uma Igreja como um hospital de campanha”, que acolhe todos e todas e promove aberturas. Na primeira quinzena de janeiro, Francisco materializou mais uma dessas ações com a nomeação da advogada italiana Francesca Di Giovanni, de 66 anos, como nova subsecretária da seção de relações multilaterais da Secretaria de Estado do Vaticano. Terceira na hierarquia vaticana, é a primeira mulher a ocupar um cargo de gerência nessa Secretaria, que governa o Vaticano e coordena as relações com outros países.

 

Mulheres na Igreja

Mais do que uma novidade, a nomeação revela o espaço que Francisco entende que as mulheres devem assumir dentro da alta cúpula da Igreja. O jornalista e vaticanista Luis Badilla, diretor editorial do Il Sismografo, um dos principais blogs de notícias católicas relacionadas ao Vaticano, observa que, no caso de Di Giovanni, há um dado significante. “Nas cúpulas da Secretaria de Estado, se necessário, ela terá autoridade sobre os bispos (em particular os núncios apostólicos), pois o ente liderado pelo secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin e, no caso específico de dom Paul Gallagher, secretário para as Relações com os Estados, é uma estrutura do governo central da Igreja Universal a serviço direto e imediato do Papa” .

Em julho de 2016, a edição 489 da IHU On-Line abordou uma perspectiva de Teologia feminina desde a experiência de Maria Madalena

Quando se suscita o debate sobre a emergência de repensar o papel da mulher na Igreja, de imediato associa-se à ideia de ordenação de diáconas, ou de mulheres sacerdotes. De fato, ele delegou que se estudasse essa possibilidade recentemente. E as reações não foram sutis. Alas mais conservadoras insurgiram-se quase na mesma proporção de teólogas críticas ao pontificado, que alegam que o Papa muito fala, mas, de prático, pouco faz sobre o reconhecimento da mulher na Igreja. Diante do fogo cruzado, Francisco em sua primeira homilia do ano, defendeu que “se queremos um mundo melhor, que seja casa de paz e não palco de guerra, tenhamos a peito a dignidade de cada mulher”  . Na mesma homilia, o Papa ainda destacou que “quando é dada às mulheres a possibilidade de transmitir os seus dons, o mundo encontra-se mais unido e mais em paz”.

 

Em 2019, o IHU reuniu uma série de materiais sobre a história, trabalho e atuação das mulheres na Igreja. Acesse o material aqui

  

Colégio cardinalício e reforma da cúria

A reforma da cúria é outro tema que tem gerado controvérsias e reações. Para o historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos, diante das reações, seja de liberais, seja de conservadores, Francisco demonstra que não governa por decreto. Ou seja, uma concepção diferente do que se imagina quando se considera a reforma da Cúria Romana como um “canetaço”. “Aspectos importantes de seu pontificado podem ser mais bem compreendidos observando o que ele está fazendo (e não fazendo) em relação à Cúria Romana” , avalia. “Muitos católicos esperavam que Francisco já tivesse implementado uma reforma institucional visível da Cúria depois de cinco anos no cargo. Mas o Papa não acredita na revisão burocrática”, salienta.

 

Saiba mais sobre a visão de "Igreja no mundo" segundo Massimo Faggioli, em artigo publicado no Cadernos Teologia Pública

 

É por isso que Faggioli e outros vaticanistas chamam atenção para pequenos movimentos, mas com grandes significados. Um exemplo são as nomeações de novos cardeais e de nomes para posições importantes na Cúria. Não significa que Bergoglio esteja diretamente, através da reconfiguração do Colégio Cardinalício e da Cúria, inserindo um possível sucessor seu, mas sim reconfigurando o colegiado com a entrada de bispos que parecem compreender no que consiste a transição epocal que testemunhamos e a emergência de uma Igreja em saída. Além disso, atualmente, o número de cardeais eleitores nomeados por Francisco supera, matematicamente, o de indicados por seus antecessores . Assim, há mais probabilidade de o resultado consequente de eleição de um novo papa ser alinhado às mudanças capitaneadas por Francisco.

 

 

 O exemplo mais recente desses movimentos é a nomeação do cardeal Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, 62 anos, ocorrida em dezembro passado , à Congregação para a Evangelização dos Povos. O escritório, fundado em 1622 como Propaganda Fide, é um dos departamentos mais importantes e poderosos do Vaticano. Supervisiona cerca de 1.100 jurisdições eclesiásticas (cerca de um quarto de todas as dioceses do mundo) e controla vastos recursos financeiros e imóveis. Os vaticanistas chamam atenção de que essa não é só a entrada de um filipino alinhado com Bergoglio, mas alguém que substitui o cardeal italiano Fernando Filoni, 73 anos, diplomata de carreira da Santa Sé que está no cargo desde 2011. Por isso, há analistas que veem a nomeação de Tagle como uma espécie de “estágio” que Francisco teria concedido a um possível sucessor do bispado de Roma.

 

 

 Em setembro de 2019, Francisco nomeou outros 13 novos cardeais. Uma das principais características é o caráter multifacetado da escolha dos clérigos, ultrapassando os limites do continente europeu, com pessoas de origem também nos continentes americano, asiático, africano, até mesmo na Oceania, o que denota a presença da Igreja no mundo, com todas as suas realidades e complexidades. Entre esses nomes, chama atenção a nomeação do jesuíta Michael Czerny, que vai de padre a cardeal, embora já ocupasse o cargo de secretário da Seção de Migrantes e Refugiados, do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Aliás, departamento que revela a importância que Francisco tem dado para o tema ao longo de todo o pontificado.

 

 O tcheco Michael Czerny também foi figura importante no Sínodo Pan-Amazônico, realizado em outubro de 2019, outro ponto importante nesse ano do pontificado. Em artigo, assinado conjuntamente com o novo cardeal e com David Martínez de Aguirre Guinea, frade dominicano, bispo de Puerto Maldonado, no Peru, que exerceu com Czerny o cargo de secretário especial do Sínodo, destaca que o “Papa Francisco reconhece que ‘a Igreja pode ser tentada a permanecer fechada em si mesma, renunciando à sua missão de anunciar o Evangelho e de tornar presente o Reino de Deus. Pelo contrário, uma Igreja em saída é uma Igreja que se confronta com o pecado [não apenas pessoal, mas também social e estrutural] deste mundo, ao qual ela mesma não é alheia’”. Por isso, justifica-se um sínodo especial para tratar das questões da região amazônica.

  

Questões de fundo do Sínodo já estavam presentes na Encíclica Laudato Si'. Em 2015, a edição 469 da IHU On-Line tratou do documento

 

Sínodo Pan-Amazônico

O Sínodo Pan-Amazônico também pode ser compreendido como mais um elemento que revela a sensibilidade de Francisco em perceber, justamente, esta mudança epocal. Desde a Encíclica Laudato Si’, publicada em 2015, o pontífice chama a atenção para a necessidade da concepção de um novo paradigma ecológico, dada a catastrófica relação hegemônica da espécie humana com os demais seres e o planeta. Preocupar-se com a Terra e todas as suas formas de vida, para Francisco, é, sim, algo que deve estar na pauta de discussões da Igreja. Pensar outras formas de consumo, outra economia – diferente dessa lastreada no capital – e formas de preservação ambiental estavam na pauta do Sínodo. Mas não só isso, pois os bispos se colocaram a pensar sobre as necessidades dos povos amazônicos e a presença da Igreja nesses espaços.

O IHU preparou uma página especial reunindo diversos materiais e discussões sobre o Sínodo Pan-Amazônico

 É nesse quesito que se insere um dos temas mais polêmicos que emergiu do Sínodo: a ordenação de homens casados. Embora Francisco não tenha convocado os bispos para discutirem isso em específico, o assunto ganhou manchetes no mundo todo. A ordenação de casados viria para suprir a carência de religiosos na região amazônica para dar conta da amplitude que compreende viver o cristianismo em comunidade, pois, inclusive, muitas comunidades amazônicas têm o acesso a sacramentos restrito em razão da falta de padres. O documento final do Sínodo Pan-Amazônico ainda não foi divulgado, mas especialistas projetam que será mais um ato de Bergoglio pondo a Igreja em movimento, em sintonia com o tempo em que vivemos e com as culturas locais.

 

 

 

Celibato e os padres casados

No início de fevereiro de 2020, a polêmica sobre o celibato veio à tona novamente depois que o cardeal Robert Sarah, integrante de alas mais conservadoras, anunciou a publicação do livro, em francês, Des profondeurs de nos coeurs (Da profundeza do nosso coração, em tradução livre – (Paris, França: Fayard, 2020). No volume, há uma defesa do celibato. Segundo o jornal francês Le Figaro, citando uma passagem da introdução, o livro surgiu “nestes últimos meses, enquanto o mundo ecoava o barulho criado por um estranho sínodo da mídia de massa que tomava o lugar do sínodo real”. O “estranho sínodo” é, na verdade, o Sínodo Pan-Amazônico que, além de não ter sido bem recebido pelos conservadores, choca-se diretamente com a ideia de enculturação de ritos segundo as populações locais e a ordenação de homens casados. Não por acaso o livro é anunciado ainda antes da publicação do documento do Sínodo, em que Francisco, especula-se, tenderia a acatar a recomendação dos bispos quanto à ordenação de diáconos casados como padres.

 

Capa do livro, que levou Bento XVI a pedir que retirem sua imagem e referência (Foto: reprodução Fayard)

 

E essa não é a única polêmica em torno do livro. Na ocasião do lançamento, o cardeal Sarah anuncia a obra como escrita a quatro mãos com o papa emérito Bento XVI. Vaticanistas, como Sandro Magister, chegaram a considerar o livro como uma bomba, justo no momento em que a Igreja ensaiava uma das mais emblemáticas aberturas. Estaria o papa emérito quebrando o seu silêncio para se perfilar junto aos setores contrários a Francisco?

 

Pouco depois de publicar a notícia do lançamento da obra, Georg Gänswein, secretário pessoal de Bento XVI, disse que o papa emérito não foi consultado sobre a publicação e que tampouco autorizou o uso de sua imagem junto à do cardeal Sarah. No entanto, o cardeal argumenta que as questões de fundo que embasam o livro são do próprio Joseph Ratzinger. Ainda antes da manifestação de Gänswein, o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, emitiu uma nota em que reafirmou a posição do papa Francisco sobre o caso, destacando uma frase de São Paulo VI, repetida por Francisco no voo de regresso do Panamá: “Prefiro dar a vida antes que mudar a lei do celibato’” . O texto da nota, que ainda relembra as discussões do Concílio Vaticano II sobre o tema, foi interpretado como um “jogo de cintura” da Santa Sé para tirar Francisco e Bento XVI de uma possível rota de colisão.

 

Dois Papas, duas visões?

A diferença de concepções entre Bento XVI e Francisco é um dos elementos centrais do filme “Dois Papas” (2019), de Fernando Meirelles. Na trama ficcional, o então cardeal Jorge Bergoglio busca Bento XVI para uma conversa, que visa a um pedido de aposentadoria. Do suposto encontro e das longas conversas, emerge a possibilidade de renúncia de Bento XVI e a eleição de Francisco no conclave seguinte. Porém, o mais interessante é apreender como, dos diálogos, surgem elementos para que se compreenda tanto a figura de Francisco como a de Bento XVI. O diretor, em entrevista à Deutsche Welle, reconhece que o filme vai muito além da ideia de um papa progressista e aberto aos sinais dos tempos e outro conservador e preso à teologia e à tradição Católica Apostólica Romana. “Ao ver o roteiro pela primeira vez, li o Bento XVI como o vilão num filme sobre o papa Francisco. O filme se chamava O Papa. Depois de montado, [...] Bento XVI ganhou muitos tons de cinza: surgiu um personagem bem mais complexo e mais rico [...], e o filme passou a se chamar Os Dois Papas” , declara Meirelles.

 

 

 

O diretor se diz um católico que deixou de ir à missa aos oito anos de idade e que quase não deu bola para a renúncia de Bento XVI, mas que se sentiu tentado a conhecer melhor Francisco. Para ele, “uma das vozes mais lúcidas e equilibradas do mundo hoje”. “Ele compreende que somos uma só humanidade, num único planeta, e que pensar o mundo a partir das nossas nacionalidades ou muros é o melhor caminho para a construção de um mundo distópico que, aliás, já está em construção”, detalha. Ao que parece, Meireles teria sido despertado por essa sensibilidade que Francisco tem diante da transição epocal. “Enquanto 100% dos líderes dos Estados têm compromissos com seu crescimento econômico, ele é a voz do compromisso com todos os que ficam de fora desta equação, os que mais sofrerão as consequências da insanidade do sistema”, pontua.

 

 

 

E Bento XVI? O próprio diretor vai percebendo que Joseph Ratzinger está longe da imagem vulgar de um vilão inquisidor. Com a ajuda de Anthony Hopkins, que vive o papa emérito no filme, vai passando a ver Bento como um dos grandes intelectuais do século XX. Mais “linha dura”, como diz, mas ainda assim uma figura muito interessante. “Até onde entendo, a ideia dos tradicionalistas é que a Igreja se mantenha voltada para as questões do espírito, que não mergulhe tão fundo na vida secular”, observa o diretor. Essa seria uma diferença entre Bento XVI e Francisco, pois o segundo tensiona a ver a Igreja no mundo, na busca por uma conexão com as questões seculares e pelo entendimento dessa mudança epocal.

 

 

No entanto, isso não significa – ainda mais reforçado com as caricaturas que são feitas dos papas no filme – que Francisco queira pôr abaixo toda a tradição da Igreja em nome de uma atualização ou de uma reforma. A questão é muito mais sutil, pois há pontos em que ele defende a necessidade de abertura, mas sabe que é preciso manter a unidade e respeitar a tradição. No filme de Meireles isso fica muito marcado pela expressão “uma Igreja que se casa com o espírito de sua época vai ficar viúva na próxima época”. Francisco parece compreender isso, quase na mesma proporção de que é emergente a mudança para acompanhar os tempos. “Entendo esta perspectiva, e hoje já nem acho que os dois papas sejam tão diferentes assim. As diferenças me parecem mais uma questão de forma do que no conteúdo profundo. Mas não sou teólogo”, acrescenta o diretor.

 

Mais do que uma reforma, uma mudança epocal

Nessa perspectiva, voltamos à fala de Francisco à Cúria Romana, pois é nela que ele dá elementos para que se compreenda não só uma necessidade de reformar a Igreja, a sua cúria, mas de colocá-la diante das inúmeras transformações que marcam essa transição epocal. Embora muito próximo à teoria da complexidade de Edgar Morin, a referência mais próxima de Francisco para pensar essa mudança é o Documento de Aparecida, de 2007, resultado de encontros do episcopado latino-americano e caribenho em que, entre a equipe de redatores, estava Jorge Bergoglio.

 

No número 114 do Cadernos Teologia Pública, Fumarco identifica Morin em Laudato 'Si

 

Há analistas que inclusive creditam muitas das diretrizes do pontificado a esse documento de Aparecida. Fato é que no “capítulo III – Olhar dos discípulos missionários sobre a realidade”, do Documento de Aparecida, essa ideia aparece numa perspectiva de diagnóstico dos tempos atuais, abordando desde a situação de refugiados, corrupção e crise política até o esgotamento ambiental do planeta por uma economia de expropriação e exploração de recursos humanos e ambientais. Mais adiante, nos capítulos finais, parágrafos 173, 396, 397 e 451, o tema volta ao documento, mas com propostas frente a esta mudança epocal. “Hoje queremos ratificar e potencializar a opção preferencial pelos pobres feita nas Conferências anteriores. Que seja preferencial implica que deva atravessar todas as nossas estruturas e prioridades pastorais. A Igreja latino-americana é chamada a ser sacramento de amor, solidariedade e justiça entre nossos povos” (Documento de Aparecida 396).

 

Assim, atualizando o que fazem os documentos das Conferências de Medellín (1968) e Puebla (1979), o Documento de Aparecida vai tensionando a Igreja na América Latina e no Caribe a se colocar em missão, com ações concretas no mundo, a partir da opção preferencial pelos pobres. “Particularmente no mundo urbano, é urgente a criação de novas estruturas pastorais, visto que muitas delas nasceram em outras épocas para responder às necessidades do âmbito rural” (Documento de Aparecida 173). Num olhar mais atento à fala de Francisco para a Cúria, veremos que ele retoma não só esse diagnóstico, mas também essa provação de resposta diante dessa realidade em transformação. “Nas grandes cidades, precisamos de outros ‘mapas’, outros paradigmas, que nos ajudem a situar novamente os nossos modos de pensar e as nossas atitudes. Irmãos e irmãs, já não estamos na cristandade”, destaca o pontífice.

 

 

 

Fim da cristandade

Durante grande parte do medievo e até no início da Modernidade, a unidade e a presença da Igreja se fazia através do conceito da cristandade. Era uma possibilidade de todos serem cristãos e exercerem as práticas do cristianismo em qualquer parte do globo, dentro de qualquer nação. Se, por um lado, tal perspectiva dava essa unidade, ao mesmo tempo, ignorava as particularidades locais, as características específicas de culturas de povos e nações. “Hoje, já não somos os únicos que produzem cultura, nem os primeiros nem os mais ouvidos. Por isso precisamos duma mudança de mentalidade pastoral, o que não significa passar para uma pastoral relativista. Já não estamos num regime de cristandade, porque a fé – especialmente na Europa, mas também em grande parte do Ocidente – já não constitui um pressuposto óbvio da vida habitual; na verdade, muitas vezes é negada, depreciada, marginalizada e ridicularizada”, sustenta o papa Francisco.

É por isso, defende o pontífice, que a Igreja precisa não impor sua presença no mundo, mas estar com o mundo. Daí a importância de estar atento às transformações deste mundo. Isso conecta à outra expressão muito usual de Francisco, “de que a Igreja precisa ser um hospital de campanha”. Pense na metáfora de um hospital de campanha em cenário de guerra. É ele que vai acolher os que ficam para trás, os feridos, desgarrados e abandonados. É como se abrir para aqueles, para realidades a que outros todos já não se abrem.

 

Volta ao Evangelho

Se Francisco não é assim tão diferente de Bento XVI no que diz respeito à preservação da tradição na Igreja – veja, ele diz que “não significa passar para uma pastoral relativista” –, por que a tese de que cada um representa visões de mundo distintas? Porque há diferença nessa semelhança, o que tem relação com a própria formação de ambos os pontífices. Ratzinger é bávaro, devotado aos estudos e mergulhos teológicos em grande profundidade. Viveu a experiência de Maio de 1968 e todas as suas consequências do “é proibido proibir”, o que o tornou mais intelectual do que um professor que a peito conduz classes. Bergoglio é latino, nascido e formado no contexto argentino, o que imprime a ele a emergência das ações concretas num mundo desigual e carente de recursos, de amparo e também de liberdade. Não à toa, é em Aparecida, mergulhado na realidade do continente sul-americano, que Bergoglio encontra as inspirações para o pontificado.

 

 

São estas experiências que fazem o atual pontífice ter a pastoralidade mais acentuada. O que, mais uma vez, não significa que ignora a teologia. “O teólogo deve seguir em frente”, disse o Papa aos membros da Comissão Teológica Internacional, em dezembro de 2019 . “Deve também enfrentar as coisas que não são claras e arriscar na discussão. Porém, isso entre os teólogos”, acrescenta. Isso porque Francisco teme que discussões teóricas compliquem a compreensão dos fiéis leigos e ainda os façam considerar que as explicações da Igreja sobre as coisas do mundo pareçam ainda mais distantes da realidade concreta. Por isso, em vez de empapuçar os fiéis com teologia crua, propõe interpretações e adaptações de conceitos abstratos e gerais a realidades locais concretas. Posição que é institucionalizada no documento apostólico promulgado em 2018 para as universidades eclesiásticas, Veritatis Gaudium (Alegria da verdade, em tradução livre), em que Francisco se apresenta como “um papa que, com base em uma teologia plenamente conciliar, pede uma nova e estrutural ‘abertura’ à Igreja”, caracteriza o teólogo italiano Andrea Grillo.

 

 

 

É também nesse espaço que Francisco incentiva algo muito presente em seu pontificado, a sinodalidade. O conceito serve para compreender por que bispos são chamados a discutir questões referentes à família, a jovens e à própria Amazônia. Trata-se de uma espécie de preparação para uma ação do pontífice que deve ser concebida a partir da experiência do relato das realidades dos locais de onde vêm os clérigos. Mas também serve para compreender a abertura pastoral que Francisco propõe. “A sinodalidade é um estilo, é caminhar juntos e é aquilo que o Senhor espera da Igreja do terceiro milênio”, afirmou, no mesmo discurso do final de 2019 à Cúria.

Na mesma proporção em que Francisco condena a prática de uma pastoral vazia, ele tensiona para que se busque a base para ação na raiz do cristianismo, na narrativa do Cristo por excelência, ou seja, no Evangelho. “O Evangelho não cessa de trazer a Igreja à lógica da encarnação, a Cristo que assumiu a nossa história, a história de cada um de nós. Isto lembra-nos o Natal. Em suma, a humanidade é a chave com que ler a reforma. A humanidade chama, interpela e provoca, isto é, chama a sair para fora e não temer a mudança”, reforça, na fala à Cúria.

 

 

 

Abusos sexuais

Uma Igreja feito um hospital de campanha que tem suas bases de ação no Evangelho. Esse é o caminho que Francisco indica para trilhar diante de uma transição de época. A afirmação parece ser fácil de ser seguida, mas ela também indica o olhar para si mesmo, para seus processos, seus erros e desvios. E falando na realidade da Igreja, é coerente que tais tensionamentos do pontífice cheguem aos casos de abusos sexuais cometidos por clérigos e, muitas vezes, encobertos pela instituição. O Papa vem há muito provocando a Igreja a rever estas páginas sombrias de sua história, o que tem provocado reações e resistências. Em fevereiro de 2019, a instituição da cúpula para discutir os abusos foi uma das respostas a estas provações. Foi quando Francisco chegou a declarar que, dada essa realidade, “não acho que os nossos tempos sejam melhores do que os do dilúvio” . Por isso, Francisco também incita a se buscar a atenção às vítimas, e não apenas salvaguardas da instituição.

 

Para Gianni Valente, jornalista italiano, “se o desejo de conter os encobrimentos dos abusos tiver como horizonte o de salvaguardar a ‘empresa-Igreja’, o seu bom nome de benemérita organização social, e não coincidir com a dor por ter ferido a carne de Cristo, com a mendicância do Seu perdão e com o pedido de que seja o próprio Cristo que salve as vidas – até as mais destruídas – de vítimas e carnífices” , os resultados não serão bons. Mas, como o próprio vaticanista reconhece, o desafio não é fácil e as respostas são duras. No entanto, nesse último ano, Francisco parece estar cada vez mais disposto a enfrentar essas reações. O indício mais claro disso é a decisão do Papa que, em decreto de dezembro de 2019, aboliu o segredo pontifício nos casos de violência sexual e de abuso de menores cometidos por clérigos. A decisão, lida por muitos como fruto do encontro de fevereiro, para John L. Allen Jr, que acompanha assuntos vaticanos para o portal católico Crux, “significa que uma forte cooperação com as autoridades civis é agora uma pedra angular não apenas da prática da Igreja, mas também da lei da Igreja” (acesse reportagem completa aqui).

 

 

Em 2020, o tema será abordado em Colóquio Internacional no IHU. Saiba mais

 

 “Loucos anos 20” da Igreja?

Diante de um ano tão intenso para a Igreja, com disputas, críticas, avanços e retrocessos, o que se pode esperar dos próximos anos do pontificado? Se é bem verdade que Bergoglio está envelhecendo (neste ano, em dezembro, completará 84 anos), os fatos também revelam que ele não parece cansado dos enfrentamentos e não tem demonstrado intenção de recuar.

 

Para Massimo Faggioli, a Igreja chega a essa segunda década dos anos 2000 com uma perspectiva de mudança gestada na década anterior. “Este momento atual de transição pode ser distinguido por um novo imaginário católico da modernidade semelhante aos anos 1920. Há um século, o catolicismo estava lidando com os desafios ideológicos e políticos pós-Primeira Guerra Mundial, com uma transição do dualismo para a dialética. Estamos entrando nos ‘Loucos Anos Vinte’, mais uma vez, no século XXI” , observa, em referência aos anos da década de 1920, período de pós-guerra e efervescência cultural no mundo, numa época de prosperidade econômica.

 

Faggioli, como muitos analistas, acredita que o cenário será de avanços. Nem que isso custe mais desgastes e oposição ao pontificado. Ao final das contas, o próprio Francisco encerra sua fala aos bispos afirmando que “a Cúria Romana não é um corpo separado da realidade – embora o risco esteja sempre presente –, mas deve ser concebida e vivida no hoje, do caminho percorrido pelos homens e as mulheres, na lógica da mudança de época. A Cúria Romana não é um palácio ou um armário cheio de roupas que se hão de vestir para justificar uma mudança. A Cúria Romana é um corpo vivo, e sê-lo-á tanto mais quanto mais viver a integralidade do Evangelho”.

 

 

 

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