Bastidores da renúncia de Bento XVI. Entrevista com Tarcisio Bertone

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22 Março 2018

Uma entrevista com o cardeal Tarcisio Bertone, por ocasião da apresentação do seu livro I miei Papi [Os meus papas] (Ed. Elledici). As polêmicas sobre o apartamento, a renúncia de Bento XVI: “Ele falou a respeito em abril de 2012”.

A reportagem é de Domenico Agasso Jr., publicada no sítio Vatican Insider, 20-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Eminência, na noite de 11 de outubro de 1962, na Praça de São Pedro, depois do célebre “discurso da lua”, quais eram as suas sensações como estudante em Roma? E como descreve a Igreja hoje à luz daquela noite?

João XXIII tocou o coração de todos com aquele “façam uma carícia nos seus filhos”. Naquela noite, vibrávamos com as palavras do Papa Roncalli. Hoje, 56 anos depois, parece-me que a Igreja do Papa Francisco, que tenta ser “em saída”, que se empenha em estar perto das pessoas, se vincula novamente, se conecta diretamente com o coração palpitante, com o estilo do Papa João XXIII. A Igreja de Francisco tem um senso de compaixão, de misericórdia – pensemos na famosa expressão “hospital de campanha” – por essa humanidade de hoje que tanto precisa de compreensão, além de diretrizes e orientações de vida.

Para além dos milagres, por que, em sua opinião, Paulo VI é santo?

O Papa Montini merece ser proclamado santo porque, naquele momento tão complexo da história do mundo e da Igreja, ele sempre expressou seu amor por cada ser humano. Basta pensar na sua carta às Brigadas Vermelhas, ou no seu discurso comovente e muito humano nas exéquias de Moro em 1978. Certamente, não é por acaso que o Papa Francisco também se inspira nele. Ele era um homem particular. Desde criança, quando, nos bancos da escola fundamental, escreveu em uma folha “Eu amo”. Desde então, nunca deixou de “amar” a humanidade toda.

O segredo de Fátima foi revelado ou não? Por que, no prefácio de seu livro I miei Papo, o cardeal Gianfranco Ravasi fala de fake news?

Absolutamente sim, foi revelado. Há quem diga que existia um “envelope Capovilla” que revelava a presença de outro texto da terceira parte do Segredo, ou de uma parte escondida por mim, sabe-se lá por quais objetivos inconfessáveis. Mas o próprio cardeal Loris Capovilla me “inocentou” várias vezes, em particular escrevendo uma carta para esclarecer que não havia nenhuma contradição na minha exposição.

O pontificado polonês: o que o senhor escolhe como elemento, momento, acontecimento-símbolo dos 27 anos do Papa Wojtyla?

Primeiro de tudo, gosto de definir João Paulo II como combatente. Ele o foi desde sua juventude, desde suas batalhas ao lado dos operários de Cracóvia. E, com suas viagens, foi um grande comunicador do Evangelho, além de estar ao lado dos últimos. Além disso, ele transmitiu grandes emoções, mesmo quando não conseguia mais falar. E o seu maior presente para a Igreja foi inventar a Jornada Mundial da Juventude, que continua suscitando o entusiasmo de milhões de jovens. É um tesouro que ele nos deixou e que continua germinando.

Qual a importância que São João Bosco teve para o senhor, salesiano, nos anos em que ocupou cargos de responsabilidade na Igreja? Às vezes, o senhor não o “esqueceu” ou ignorou?

Eu nunca ignorei Dom Bosco! Eu sempre invoquei sua ajuda. E rezar as três Ave-Marias à noite ao pé da cama, como Dom Bosco recomendava, me pacificava e me fazia dormir mesmo nos momentos mais difíceis.

A renúncia ao pontificado de Bento XVI: como e quando o senhor soube da decisão de Ratzinger?

Ele fez uma menção fugaz a uma eventual possibilidade ainda em 30 de abril de 2012. Depois, falou novamente sobre isso em uma conversa confidencial no mês de agosto, enquanto estávamos em Castel Gandolfo.

E como o senhor reagiu? Qual foi o seu estado de ânimo naqueles meses que levaram ao 11 de fevereiro de 2013?

Eu estava incrédulo e inquieto. Posteriormente, apresentei-lhe uma série de raciocínios que eu considerava que eram fundamentados para o bem da Igreja e para impedir uma depressão geral do povo de Deus. Estávamos em pleno “Ano da Fé ”. Bento XVI estava escrevendo o terceiro volume sobre Jesus de Nazaré e prometera dar à Igreja uma encíclica sobre a fé, que completaria a trilogia das virtudes teologais, depois daquela sobre a caridade e a esperança. Comecei a minha resistência para obter pelo menos uma postergação na data do anúncio dessa decisão, que eu considerava tremenda e que eu carregava com grande sofrimento. Com o passar do tempo, o Santo Padre não só não recuava, mas se confirmava na decisão tomada com toda a consciência diante do Senhor. Primeiro, ele tinha a intenção de publicar a declaração de renúncia antes do Natal, mas eu lhe dizia que, para o Natal, ele devia nos dar o presente do seu livro sobre a infância de Jesus de Nazaré, e esse anúncio abalaria a opinião pública, perturbaria o clima natalício. Adiada a decisão para o Ano Novo, eu ainda tentava prorrogá-la de semana em semana. Mas em vão.

O senhor é amigo de Joseph Ratzinger e também foi secretário de Estado vaticano de Jorge Mario Bergoglio, além do próprio Bento XVI: como comenta as comparações que são feitas entre os pontificados, culminando com as polêmicas sobre a carta do Papa Emérito que veio à tona nos últimos dias?

Entre Bento XVI e Francisco, há continuidade na diversidade dos estilos e dos caráteres. É absurdo pô-los em contraposição, como se fossem, o primeiro, um intelectual abstrato que não entende os problemas das pessoas, e o outro, “apenas” o papa concreto, prático, amado por todos. Não corresponde à verdade. O impacto de Francisco com as pessoas é mais imediato, empático, enquanto o Papa Bento simplesmente tem outro caráter. Bergoglio tem uma enorme bagagem de estudos como jesuíta, uma formação intelectual robusta com um temperamento particular; Ratzinger sempre teve uma ótima comunicação com seus fiéis, basta pensar como ele falava com as crianças e nas suas visitas às prisões. Repito: entre eles, há continuidade na diversidade. Como é normal e bonito que seja. Não há mais nada a acrescentar. E as comparações não servem para nada. Ao contrário, são contraproducentes.

Como o senhor descreve os cinco anos do Papa Francisco?

Sobretudo, com o seu dom de si mesmo sem repouso! É incansável. É um pontífice que se doa totalmente aos outros, dos mais “altos” colaboradores a todas as crianças e os doentes que encontra nas audiências. Mesmo depois de algumas centenas de abraços e carícias, ele sempre sabe se doar e sorrir com intensidade. Para todos. É um milagre que ele resista a esses ritmos aos 81 anos de idade. Penso que o Papa Francisco, com esse espírito que estende a mão a quem tem necessidade, é um exemplo para toda a Igreja, particularmente para os eclesiásticos. Por isso, não tenho nenhum medo do futuro da Igreja. E, a propósito das reformas e dos desafios em curso, em particular a luta contra os abusos sexuais e o âmbito econômico, sublinho que Francisco os tomou nas mãos e os está levando adiante. E isso não é pouco. Ao contrário. Obviamente, existem dificuldades. Mas, na Cúria Romana – e eu a conheço bem –, não há uma hostilidade, uma oposição surda às iniciativas de Francisco, apenas problemas fisiológicos de uma estrutura tão complexa. Mas estou convencido de que Francisco seguirá bem em frente nas reformas. Digo isto: rezemos ao Senhor para que o conserve, o Papa Francisco. Rezemos por isso todos os dias!

O senhor não acha que exagerou ao atribuir a Francisco as decisões sobre seu apartamento?

No livro, eu considerei que devia citar o Papa Francisco para dar a entender que o pontífice não estava às escuras, mas sabia o que estava acontecendo. A verdade é essa. Mesmo que, especifico, o responsável pelos detalhes era o Governatorado. Aliás, há quem chame a minha residência de “cobertura”, enquanto é um apartamento com um grande terraço condominial. Foi o Papa Bergoglio quem me pediu para ficar no Vaticano e continuar cuidando do arquivo, e, naquele ponto, foi preciso procurar um apartamento. O papa acompanhou de perto todo esse processo. Os pagamentos são outra questão, sobre a qual não quero dizer nada, há um processo em curso no Vaticano, não cabe a mim dizer outra coisa agora. Como confirmação da minha boa-fé, sublinho que, até 2 de dezembro de 2018, quando vou completar 84 anos, continuarei trabalhando no Vaticano, também por um pedido expresso do Papa Francisco. E vou continuar com alegria e com grande proximidade com esse extraordinário papa. E, depois, pretendo permanecer no Vaticano: fiz tantas transferências na minha vida, espero estar em paz na minha velhice.

Por que muitos o definem, sobretudo, como “homem de poder e de intrigas”?

Eu sofri muitos ataques. A obstinação com que fui tornado alvo me parece impiedosa, exagerada. Nunca organizei intrigas ou complôs. Estou convencido de ter sido apenas um bode expiatório. Sempre me ative às indicações dos papas com quem colaborei. Sempre tentei desempenhar bem as minhas tarefas. Então, acho que o motivo é que, se tivessem atacado um cardeal desconhecido, isso talvez não teria virado notícia. Mas agora eu guardo esse rótulo, é como se estivesse expiando os pecados aqui na terra.

Qual é seu principal arrependimento ou remorso? E um mérito que o senhor atribui a si mesmo no governo da Igreja?

O maior erro é ter aceitado cargos demais. Se eu pudesse voltar atrás, não faria isso mais. Mas, agora, é tarde demais. Por exemplo, eu não aceitaria mais a presidência da Comissão Cardinalícia do IOR. Em vez disso, tenho orgulho de ter tentado ouvir e ajudar a todos, dedicar tempo a cada pessoa que pedia uma audiência. Muitos se lembram disso e me são gratos.

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