Há 60 anos, o primeiro anúncio do Concílio Vaticano II. Uma inesperada primavera

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25 Janeiro 2019

Papa há apenas 90 dias, João XXIII anunciou no dia 25 de janeiro de 1959, festa da conversão de São Paulo Apóstolo, a decisão de celebrar um concílio ecumênico. Depois do solene pontifical na Basílica Ostiense, na conclusão do Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos, na Sala Capitular do mosteiro beneditino adjacente, o pontífice encontrou-se com os cardeais que participaram do rito, comunicando-lhes a vontade de convocar a cúpula conciliar e de realizar um sínodo diocesano para Roma, na perspectiva da “desejada e esperada” atualização do Código de Direito Canônico.

A reportagem é de L’Osservatore Romano, 24-01-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Haviam-se passado 90 anos desde do Concílio Ecumênico Vaticano I, interrompido e atualizado sine die por Pio IX no dia 20 de outubro de 1870, um mês após a tomada de Roma. A ideia de levá-lo a termo já havia sido acariciada por Pio XI e, em particular, por Pio XII.

Mas o propósito do Papa Roncalli ia muito além do de seus antecessores. Também por isso, o anúncio deixou os próprios purpurados surpresos e emudecidos, como o próprio João XXIII confidenciou alguns anos depois: “Humanamente, podia-se considerar que os cardeais se estreitaram em torno a nós para expressar aprovação e bons votos. Em vez disso, houve um silêncio impressionante e devoto”.

Hoje, quem relata o episódio é Guido Gusso, que estava ao lado do papa naquele dia, e Raniero La Valle, que depois acompanharia pontualmente os trabalhos do Concílio a partir das colunas do jornal L’Avvenire d’Italia, do qual foi diretor entre 1961 e 1967.

Através dos seus testemunhos – aos quais se somam os do secretário de Roncalli, Loris Capovilla (falecido em 2016, dois anos após ter sido criado cardeal pelo Papa Francisco), e Luigi Bettazzi, um dos Padres conciliares ainda vivos –, o L’Osservatore Romano recorda esse aniversário.

Ele faz isso junto com o Vatican News e a Rádio Vaticano: o primeiro dedica à data uma ampla página informativa, com um vídeo produzido pelo Vatican Media e assinado por Eugenio Bonanata, uma reflexão do diretor editorial do Dicastério para a Comunicação, Andrea Tornielli, e algumas entrevistas; a segunda transmite, na sexta-feira, 25, às 12h45 [hora de Roma], um programa especial apresentado por Luca Collodi, com Dom Dario Edoardo Viganò, assessor do Dicastério.

Através de imagens históricas e testemunhos diretos, revive, assim, o eco das expectativas e das esperanças suscitadas há 60 anos por aquela “inesperada primavera” da Igreja, como o próprio Papa João a definiria.

* * *

Na recordação de uma testemunha: “Hoje será um dia excepcional”

Uma das poucas testemunhas ainda vivas é Guido Gusso – na época, ele era “ajudante de quarto” do papa – que acompanhou João XXIII à Basílica de São Paulo e presenciou o histórico anúncio.

Pode nos contar o que aconteceu naquele dia?

Lembro-me muito bem daquele dia, 25 de janeiro de 1959. Dei uma mão ao Santo Padre para vestir os paramentos, isto é, o roquete e a mozeta. E ele me disse: “Guido, pegue o roquete mais bonito, porque hoje será um dia excepcional, em que terei que dar um grande anúncio”. Então, preparei tudo, o manto vermelho, o chapéu vermelho, e descemos para pegar o carro.

O senhor dirigia?

Quem dirigia era o cavalier Angelo Stoppa, que era o motorista do Papa Pacelli. Durante o percurso, o papa estava como que absorto, não falava. Normalmente, ele sempre falava... mas naquele dia, naquela manhã, tudo em silêncio. Chegamos em São Paulo, houve a cerimônia, e depois convidamos todos os cardeais para irem para a “saleta”, uma pequena sala. E eu também parei lá, porque tinha o chapéu, o manto e a bolsa. E ele anunciou que faria um sínodo, o Sínodo Romano, que o Sínodo seria para os padres. Ele já havia feito isso em Veneza, porque eu estava em Veneza com ele. Depois, após ter falado um pouco do Sínodo, ele disse: “Devo lhes fazer um grande anúncio: convocarei um Concílio”. Naquele momento, houve um “ohhhhh!” e, depois, um silêncio de túmulo. Ninguém mais falou. E depois houve um rumor geral... Ele explicou... e depois também disse que tinha que fazer outra coisa...

A reforma do Código.

A reforma do Código, sim. Ele explicou um pouco, e todos foram embora, cada um por conta própria. O papa entrou no carro, sério. E disse: “Eles não gostaram. Essa coisa do Concílio não agradava a ninguém”. E ponto final. Depois, voltamos para casa. Então, no quarto, enquanto tirava o roquete, a mozeta e todos os paramentos, eu lhe perguntei: “Santidade, eu sou ignorante, não sei o que é esse Concílio”. “Mas – disse - como você não sabe?” “Não” – eu disse –, “mas o que me consola é que aquele cardeal que estava ao meu lado perguntou ao seu colega: ‘Diga-me, o que é essa história de Concílio, que eu não sei o que é?”. Então, ele, com paciência, fez-me sentar no seu escritório e me explicou os concílios, começando pelos primeiros concílios que faziam na época – parece-me no segundo ou terceiro século – para chegar depois ao Concílio de Trento e ao último, o Concílio Vaticano I, que depois foi suspenso, porque houve a tomada de Roma com Pio IX.

Então, no fim, naquele dia, ele estava contente ou não?

Estava contente, mais do que contente! Foi uma inspiração, ele dizia: “É hora de a Igreja se modernizar, com os tempos modernos que temos. Porque nós ainda estamos ancorados no Concílio de Trento. Portanto, a Igreja deve se renovar, deve se adaptar aos tempos”. Era isso que ele queria.

E ele ficou impressionado com a reação dos cardeais?

Não... Ele sabia... Ele me disse: “Eles já estão começando a me atirar pedras. Tenha cuidado, você. Na vida pode acontecer com você aquilo que acontece comigo, que me atiram pedras. Não as pegue, hein?”. Ele era bom, era bom. E posso dizer, depois de 60 anos, que era preciso um argentino como Francisco para valorizar e dar impulso ao grande Concílio feito. Paulo VI foi grande ao levá-lo em frente, porque eu acho que qualquer outro teria deixado tudo de lado.

O que mais ele disse durante a viagem de volta ao Vaticano?

Ele não disse um “a”, não disse um “a”. Apenas algumas palavras com o Mons. Capovilla. Mas posso dizer que ele deu a vida pelo Concílio. Depois, o dia 11 de outubro foi grandioso: a abertura, ele estava contente! Ele esperava poder encerrá-lo também. Infelizmente, ele morreu, devido a uma doença horrível. Ele sofreu muito.

* * *

A imprensa também foi pega desprevenida: a surpresa do L’Osservatore Romano

Nem mesmo o jornal do papa e da Santa Sé deu um destaque especial ao anúncio do Concílio. Raniero La Valle enfatiza isso, lembrando que a decisão de João XXIII se inseriu no contexto histórico de uma Igreja chamada a “enfrentar o mundo que mudava”, mas que era incapaz de “entender as novidades que estavam chegando”.

E, mais do que simples novidades, La Valle fala de uma verdadeira “revolução”, da qual, no início, quase ninguém captou o porte histórico. Os cardeais presentes não o captaram, pois, diante das palavras do papa, “permaneceram em um silêncio tumular”. E a grande imprensa não o captou, incluindo o L’Osservatore Romano, que “aparentemente não se deu conta disso”, a ponto de não mencionar a palavra “Concílio” em nenhuma das manchetes da primeira página daquele dia, limitando-se a falar de “grandes eventos para a vida da Igreja”.

“A imprensa não entendeu, mas não podia entender”, comenta La Valle, observando que “a revolução é vivida pelos povos e depois contada pelos historiadores”. É por isso que “os jornalistas não entenderam”, ainda mais que “o Concílio Vaticano I não tinha sequer sido formalmente encerrado e tinha terminado um século antes, quando os bersaglieri haviam entrado em Porta Pia”. Aquele Concílio, recorda, “tinha proclamado a infalibilidade pontifícia, e, na época, acreditava-se que, tendo feito isso, o papa sozinho resolvia todas as coisas e que nunca mais haveria um Concílio”.

Assim, reitera La Valle, um evento desse tipo “não era imaginável, nem sequer teologicamente imaginável segundo a doutrina romana”. Mas, “se o Concílio não chegasse para pôr tudo em discussão, a própria imagem pregada de Deus não fazia sentido”.

É por isso que, com aquele anúncio, João XXIII lançava os fundamentos da “grande revolução da Igreja que chegou ao Papa Francisco”.

* * *

Em diálogo com o mundo

por Dom Luigi Bettazzi, bispo emérito de Ivrea e Padre conciliar

Quando o Papa João XXIII anunciou que queria fazer um Concílio, ele desconcertou os cardeais que o escutavam em São Paulo Fora dos Muros no dia 25 de janeiro de 1959.

Ele era papa há poucos meses, mas, desde o princípio, queria fazer um Concílio. Ele havia pensado nisso e havia dito ao seu secretário, que disse: “Mas, Vossa Santidade, um Concílio na sua idade?”.

Ele não contaria a mais ninguém. Só disse ao cardeal Tardini, secretário de Estado, três dias antes, sob segredo de confissão, para que não avisasse os outros. E depois disparou essa notícia. Desconcertou a todos.

Então, ele fez esse anúncio. Depois de feito o anúncio, era preciso fazer comissões preparatórias. Ele se informou com todos os bispos do mundo. Depois, dez comissões sobre dez assuntos, todas presididas por cardeais romanos.

Ele pensou no Concílio porque se via que a Igreja tinha dificuldade em dialogar com o mundo moderno. Parece que Pio XII já pensava em um concílio e só o dissuadiam. E é por isso que ele [João XXIII] guardou o segredo: para que não o dissuadissem, mas ele entendia precisamente por que o papa deve confirmar a fé das pessoas.

* * *

Um grande ato de humildade

por Loris Capovilla, secretário de João XXIII

Quando ele mencionou, pela primeira vez, informalmente, o Concílio, e o seu pequeno secretário, que sou eu, ficou em silêncio, sem qualquer comentário, ele entendeu. De fato, eu obedecia a uma norma que ele me dera em Veneza. Eu podia expressar a minha opinião positiva, mas, em caso de qualquer reserva, devia me calar, e ele mesmo me pediria uma explicação.

Diante da perspectiva de um Concílio, portanto, fiz silêncio. Fomos a Castel Gandolfo. O Papa João costumava dizer que não é importante implementar um projeto ou uma inspiração. O importante é aceitá-la. Se, depois, Deus dispõe que a sua vida seja truncada, outro a continuará. Nada se perde.

Quando ele me falou da ideia do Concílio pela terceira vez, diante do meu silêncio, ele se convenceu de que eu tinha reservas. Eu me sentia confuso. Então ele me respondeu: “Eu sei como é, você pensou que eu sou velho. Sim, você pensou isso. Meses de preparação, consultas, levará anos. Eu também disse isso a mim mesmo, sozinho: mas eu sou muito preguiçoso para poder me aplicar aos muitos problemas que são derramados sobre a minha mesa, também sou velho. Depois, pensei que tenho colaboradores”.

Ele nunca fez críticas sobre os seus colaboradores, todos eles, fossem de uma ou de outra tendência, de uma ou de outra abertura pastoral. Mas ressaltava que a ideia do Concílio tinha partido de um grande ato de humildade.

Só podia ser uma inspiração de Deus. A Igreja precisava de um encontro universal. E o Concílio representou, pela primeira vez em 20 séculos, um encontro de bispos nunca tão variados em línguas, raças, culturas, tradições. Em tantas diversidades, todos juntos rezaram, cantaram, prometeram, obedeceram.

* * *

João XXIII aos cardeais reunidos em São Paulo Fora dos Muros (25 de janeiro de 1959)

“Pronunciamos diante de vós, certamente tremendo um pouco de comoção, mas, ao mesmo tempo, com humilde deliberação de propósito, o nome e a proposta da dupla celebração: de um Sínodo Diocesano para a Urbe e de um Concílio Ecumênico para a Igreja universal. Para vós, Veneráveis Irmãos e Diletos Filhos Nossos, não são necessárias ilustrações copiosas acerca do significado histórico e jurídico dessas duas propostas. Elas conduzirão felizmente à desejada e esperada atualização do Código de Direito Canônico, que deveria acompanhar e coroar esses dois ensaios de aplicação prática dos procedimentos da disciplina eclesiástica, que o Espírito do Senhor irá Nos sugerindo ao longo do caminho. A próxima promulgação do Código de Direito Oriental nos dá o prenúncio desses eventos. Para o dia de hoje, basta esta comunicação feita a todo o Sagrado Colégio aqui reunido, reservando-Nos a transmiti-la aos outros Senhores Cardeais que retornaram às várias sedes episcopais a eles confiadas, espalhadas pelo mundo inteiro. Apreciaremos, da parte de cada um dos presentes e daqueles que estão longe, uma palavra íntima e confiante que Nos assegure acerca das disposições dos indivíduos e Nos ofereça, amavelmente, todas aquelas sugestões acerca da implementação desse tríplice desígnio.”

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