A grandeza de Paulo VI está na sua condução da Igreja pós-Vaticano II

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15 Dezembro 2016

"Não gosto de acrescentar o dizer 'o Grande' a um papa até que se passem 500 anos, mas apostarei que quando a história der o seu veredito, Montini será visto como o maior pontífice do século XX". 

O comentário é de Michael Sean Winters, colunista do National Catholic Reporter e pesquisador visitante do Instituto para Pesquisa em Políticas Públicas e Estudos Católicos da Universidade Católica da América, em Washington, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 13-12-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Nota: Esta é a parte 2 de uma série de três artigos que discutem as teologias dos papados do Papa Francisco e do Papa Paulo VI. As partes 1 e 3 intitulam-se respectivamente: “Críticas a Francisco têm origem em incompreensão do Vaticano II” e "Papas diferentes, personalidades diferentes – e uma continuidade subjacente".

Eis o artigo.

O Papa Paulo VI nunca teve os créditos que merece receber por ter concluído com êxito o Concílio Vaticano II e por manter praticamente todos a bordo nos tempos tumultuados que então se seguiram. Logo depois da eleição do Papa Francisco, ficou claro que o novo papa tinha uma afinidade com Paulo. Por que ele foi tão grande? E por que suas realizações foram tão facilmente ignoradas?

A primeira pergunta é mais fácil de responder. Giovanni Battista Montini elegeu-se papa em 1963, assumindo o nome de Paulo VI, após a morte do Papa João XXIII, que havia convocado o Vaticano II em 1946. Paulo orientaria o Concílio até o seu encerramento em 1965 e a Igreja até sua morte em 1978. A direita católica considerava que Paulo era insuficientemente rigoroso para apontar aqueles que eles achavam que estavam levando as liberdades junto com a implementação das reformas conciliares. A mentalidade legalista, tão evidente na oposição a Francisco, criticava Montini por sua capacidade de reconhecer a ambivalência de muitos dos problemas que a Igreja enfrentava. Se quisermos clareza antes de tudo, o compromisso de Montini com o diálogo e a aceitação da complexidade não serão os melhores elementos. Se pensarmos que a descentralização da tomada de decisão era uma tarefa boba, o compromisso de Paulo com a sinodalidade e com o empoderamento das conferências episcopais nos faz concluir que ele era um tolo. Os impacientes muitas vezes veem a paciência como um fracasso.

A esquerda desistiu de Paulo VI depois da encíclica de 1968, Humanae Vitae (“sobre a vida humana”), e sua continuação da proibição de controle de natalidade por métodos artificiais: eles nunca o perdoaram. E tal foi um erro. Para começar, eles ignoraram a afirmação de Paulo segundo a qual a “paternidade responsável comporta ainda, e principalmente, uma relação mais profunda com a ordem moral objetiva, estabelecida por Deus, de que a consciência reta é intérprete fiel”. Certamente a consciência, naquela época assim como hoje, deve estar ligada ao ensino da Igreja e à ordem moral objetiva, mas Paulo nunca disse que a consciência não tinha papel algum a desempenhar. E não podemos duvidar que os seus temores tinham base na agenda neomalthusiana dos especialistas em controle populacional como uma ameaça à dignidade humana?

Também é verdade que a ênfase desproporcional em Humanae Vitae ao avaliar o pontificado de Paulo é um tanto peculiar nos EUA.

“A importância da consciência se perdeu, mas tenho de dizer que isso não ocorre em todos os lugares. O contexto católico americano me parece um caso particular (neste tema como em outros)”, explica Massimo Faggioli, da Villanova University, por e-mail quando lhe perguntei sobre o legado de Paulo VI. “Na Igreja Católica americana, uma interpretação autoritária da Humanae Vitae deixou uma pegada que é muito mais profunda do que em qualquer outro lugar do mundo. Isso significa que, nos EUA, a recepção de Paulo VI é muito mais influenciada pela Humanae Vitae do que por todo o restante do seu magistério. Para a maioria dos católicos, Paulo VI é também o papa da Populorum Progressio (justiça social e econômica), de Evangelii Nuntiandi (evangelização em um contexto moderno), de Octogesima Adveniens (pluralidade legítima de opções de políticas para os católicos)”.

Essa resposta de Faggioli aponta para a segunda pergunta que fiz inicialmente, a saber: Por que Montini foi um grande papa? Desde a sua primeira encíclica até a última exortação apostólica, os ensinamentos de Paulo não só modelaram grande parte do que o Papa João Paulo II veio a dizer, mas também são claramente uma inspiração para os ensinos magisteriais de Francisco. As conexões entre a Evangelii Nuntiandi de 1975 e Evangelii Gaudium de 2013 são óbvias, especialmente a centralidade da preocupação com os pobres para a integridade das iniciativas cristãs em evangelizar e a ideia de uma Igreja em missão.

Além disso, Paulo teve de tentar reformar as estruturas da Igreja para alinhá-las com o claro chamado do Concílio Vaticano II a uma maior colegialidade nas tomadas de decisão. É preciso dizer: ele, Paulo VI, nem sempre teve sucesso.

Pensemos no Sínodo dos Bispos, que foi a primeira tentativa institucional para introduzir uma tomada de decisão colegiada após o Concílio. A primeira edição, realizada em 1967, tentou abordar cinco tópicos em quatro semanas. Somente na segunda edição, em 1969, que os padres sinodais se dividiram em pequenos grupos de discussão por idioma. O sínodo seguinte, em 1971, tentou abordar dois grandes temas, e o texto resultante ficou um pouco confuso. Em 1974, os padres sinodais rejeitaram o esboço da declaração final preparada para eles. (Nota histórica: o rascunho era obra do então Cardeal Karol Wojtyla, que, quatro anos mais tarde, se tornaria o Papa João Paulo II.)

Alguns, inclusive na época, consideraram a situação como uma prova de que o sínodo havia fracassado, mas Dom Jean Guy Rakotondravahatra, de Madagascar, que participou do sínodo, via-o de forma diferente, dizendo: “Era primeira vez que tivemos a oportunidade de falar sobre os nossos problemas, os nossos desejos, as nossas esperanças e os nossos eventuais desacordos. Vimos que a maioria dos nossos colegas concorda conosco. O Santo Padre ouviu o tempo inteiro. Qual a validade de reduzir a grande riqueza de nossas discussões a algumas pobres proposições?”

Assim, em 10 anos de processo era compreensível alguns pensarem que o sínodo estava morto. Mas, vendo em retrospectiva, fica claro que o que Paulo estava fazendo era experimentar, tentando maneiras diferentes de fazer os sínodos serem mais bem-sucedidos. E o impasse no sínodo de 1974 levou ao seu próprio e grande documento magisterial, Evangelii Nuntiandi, emitido no ano seguinte.

“Um dos motivos pelos quais eles não alcançaram um pleno gozo durante o tempo de Montini”, diz Faggioli, “é a quantidade de resistência contra aquela mudança que é uma mudança provocada pelo Vaticano II: sete meses depois da conclusão do Vaticano II, em 24-07-1966, o Cardeall Alfredo Ottaviani (prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé) envia uma carta confidencial às conferências episcopais sobre os ‘erros’ na interpretação do Vaticano II”.

Faggioli também aponta para um desenvolvimento paralelo que afetou a maneira como a sinodalidade iria tomar forma: o empoderamento das conferências dos bispos.

“Os primeiros sínodos acontecem em uma década, a primeira década depois do Vaticano II, quando as conferências episcopais têm um poder novo, substancial para tomar decisões para as suas próprias igrejas locais (pensemos na reforma litúrgica) e a esperança é que o papel da Cúria Romana e do Vaticano venha a ser diferente do que o foi no passado”, explica Faggioli.

Aqui nos Estados Unidos, tivemos a experiência de uma conferência episcopal que começou durante a Primeira Guerra Mundial e, antes disso, os conselhos plenários de Baltimore. Mas, na maioria dos países, a colegialidade era inteiramente nova e o foco nas conferências locais ganhou mais atenção e interesse do que os sínodos em Roma. Na América Latina, o desenvolvimento da sinodalidade por meio das assembleias do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM seria a encarnação mais fecunda da sinodalidade da Igreja pós-conciliar, e prestando atenção a isso estava um jesuíta argentino, Jorge Bergoglio, que se juntaria ao CELAM quando se tornou bispo auxiliar (1992) e, depois, arcebispo de Buenos Aires (1997).

Paulo queria que as conversas iniciadas no Concílio Vaticano II continuassem. Os sínodos sob João Paulo II tiveram assuntos, em grande parte, tristes. Bento XVI, papa de 2005 a 2013, introduziria uma hora de tempo livre ao microfone no final de cada sessão sinodal para promover uma discussão e um diálogo genuínos, mas os sínodos do Papa Francisco foram os mais abertos até onde se sabe. Os críticos de Paulo também precisam lembrar que na época em que se tornou papa, ele ainda achava que precisava usar o “plural majestático” ao falar de si mesmo, e ele ainda era conduzido na sedia gestatória [trono portátil usado para se carregar os papas]. A atmosfera de “corte” não havia sido ainda interrompida”.

A lista das “primeiras coisas” que Montini realizou é impressionante: ele foi o primeiro papa a se encontrar com o Patriarca Ecumênico em mil anos; o primeiro papa a visitar o hemisfério ocidental; o primeiro papa a discursar às Nações Unidas; o primeiro papa a visitar a Índia, as Filipinas e África.

Mas a sua grandeza reside nos primeiros passos após o Conselho. Numa série de questões, desde a colegialidade até o ecumenismo, passando pelo engajamento com o mundo, pelo apoio ao desenvolvimento de novas perspectivas teológicas adequadas ao mundo atual, pela reforma litúrgica e outros temas como estes, Paulo teve que escolher qual caminho começar na sequência do Concílio. E, em cada caso, ele estabeleceu orientações que dariam fruto em seu próprio pontificado e além. Ele pode ter errado aqui ou ali, mas não escolheu nenhum beco sem saída. Os seus passos foram pensados, e os católicos mais animados da esquerda e da direita o consideram incrivelmente moderado. Porém ele não só manteve a Igreja unida durante tempos tumultuados; ele iniciou a implementação do Vaticano II com inteligência e sabedoria. Não gosto de acrescentar o dizer “o Grande” a um papa até que se passem 500 anos, mas apostarei que quando a história der o seu veredito, Montini será visto como o maior pontífice do século XX.

Amanhã, 14 de dezembro, devo concluir essa série observando os elementos de continuidade e descontinuidade que têm caracterizado a era pós-conciliar, e como eles ajudam a explicar a direção que Francisco está tomando e a oposição a ele.

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