A profecia do Papa Roncalli

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16 Outubro 2012

O pontífice, o futuro Beato Roncalli olhou longe, muito longe. O Vaticano II tinha que voltar às raízes evangélicas e remover as incrustações de séculos que haviam afastado a Igreja do seu Mestre.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no sítio Vatican Insider, 15-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Nunca haverá um Pio XIII": para compreender o significado da frase de Jean Guitton é preciso aprofundar o radical "aggiornamento" provocado na Igreja pelo Concílio Vaticano II, assim como faz Il segreto dei papi, de Bernard Lecomte, atual editor-chefe da Figaro Magazine e ex-responsável de relações exteriores do jornal La Croix (Ed. San Paolo, 250 páginas).

Um episódio comovente ilumina a gênese da cúpula. No dia 23 de setembro de 1962, João XXIII estava concluindo o seu retiro espiritual no oratório da torre de San Giovanni, perto do Palácio Apostólico, quando o seu médico pessoal pediu para vê-lo. No máximo segredo, naqueles últimos dias, o velho pontífice se submeteu a exames médicos. O resultado desses testes não deixava esperanças e confirmava a sua intuição: está condenado. Certamente não verá o fim do Concílio. Não tem mais nada a perder.

O Papa Roncalli, então, se senta à sua escrivaninha, no terceiro andar do Palácio Apostólico, e começa a redigir o discurso que irá pronunciar no dia 11 de outubro, dia da inauguração do Concílio Vaticano II, na Basílica de São Pedro. Ininterruptamente, sem notas. E sem colaboradores, com a exceção de um abade que assegurou a tradução do texto ao latim.

Foi "com a farinha do seu saco", como ele diz, que João XXIII explicou que o Concílio devia permitir que a Igreja se "dedicasse resolutamente e sem medo à obra que a nossa época exige". Ele critica os "profetas da desgraça" que o rodeiam e afirma que a Igreja "prefere usar o remédio da misericórdia ao invés de abraçar as armas do rigor". O Papa Roncalli escreve sem medo. Deliberadamente, cheio de confiança, o "papa bom" projeta os católicos ao futuro.

"É a história da Igreja que oscila", observa Bernard Lecomte. "Naquele dia, Pio XII morreu pela segunda vez". Na noite do dia 11 de outubro de 1962, dia inaugural do Concílio Vaticano II, "João XXIII estava muito cansado, quase se arrastava", conta o arcebispo Loris Capovilla, então secretário do papa. Essa circunstância explica a resistência inicial do pontífice bergamasco diante do pedido de cumprimentar a multidão que havia se reunido espontaneamente na Praça de São Pedro, e à qual dirigiu depois as palavras mais memoráveis, partindo da presença da Lua e terminando com o envio de uma carícia às crianças que haviam ficado em casa.

Depois do famoso discurso improvisado, revela o prelado, "ele me perguntou como havia sido, se eu estava satisfeito. Eu lhe tranquilizei: ninguém esperaria uma meditação tão densa, tão significativa. Da praça, ainda vinha o eco dos aplausos, dos cantos, da oração. Mas o pontífice não escutava nada. Ele se contraiu e só sussurrou: 'dor'. Não se sentia bem. Estava sofrendo. Eu me preocupei, porque naquela noite havia um vento forte. Ele havia se exposto por muito tempo. Ele observou a minha expressão e sorriu. Depois me disse: 'Tudo é graça. A dor é graça de Deus, por isso você não deve se preocupar'. E me lembrou os últimos instantes de Santa Teresa de Lisieux, quando tranquilizou a sua enfermeira que, tendo-a visto cuspir sangue, começava a se agitar, porque era de noite e nunca poderia encontrar o socorro de um médico. 'Irmã – disse –, não te preocupes: tudo é graça de Deus'. O papa foi para a sua cama repetindo: 'Tudo é graça de Deus'".

Antes do Vaticano II, a missa era celebrada em latim, que ninguém entendia além dos sacerdotes, e com o padre de costas para as pessoas. A Bíblia era um objeto praticamente desconhecido para os fiéis, praticamente ninguém a tinha em casa ou era capaz de lê-la. Os não católicos e as outras religiões eram vistas com desconfiança, e os judeus, vistos com hostilidade e suspeita, embora, por vontade de João XXIII, já não eram mais definidos como "pérfidos" em uma oração litúrgica.

O olhar de esperança do Papa Roncalli sobre o mundo não havia conformado em profundidade a Igreja, e a discussão teológica e cultural não estava em voga entre clero e fiéis. As Igrejas do terceiro mundo e os pobres não eram o centro das atenções da Igreja de Roma. Foi um concílio ecumênico, todos os bispos do mundo católico no Vaticano, os "Estados gerais" da Igreja diante do mundo moderno. Ele moldou a Igreja como a conhecemos hoje e como a vivem um bilhão de fiéis em todo o mundo.

E, mesmo que não tenha nascido do nada, afundou as suas raízes nos movimentos bíblico, litúrgico e ecumênico que já no início do século XX haviam dado passos significativos. O Concílio produziu uma profunda renovação na liturgia, nos estudos bíblicos, no diálogo com as outras Igrejas. Reafirmou os direitos e, entre estes, o direito à liberdade religiosa. Investiu os leigos de um papel novo e mais participativo na Igreja. Seria equivocado reduzir o Vaticano II aos documentos aprovados, embora em alguns casos foram absolutamente inovadores no plano eclesial e cultural.

A nova missa, com o uso das línguas faladas, o protagonismo dos fiéis na assembleia litúrgica, a adoção de meios musicais e linguagens musicais às vezes de ruptura, transformou profundamente a vida dos católicos de todo o mundo. Com a aprovação, em dezembro de 1963, da Constituição Sacrosanctum Concilium que reformou a liturgia, começou uma nova época. A Igreja não podia mais ser a mesma. Em suma, o Vaticano II é o divisor de águas que mudou o rosto da Igreja.

Foi um evento grandioso: 3 mil bispos (2.090 da Europa e da América, 408 da Ásia, 351 da África, e 74 da Oceania) reunidos em São Pedro para dialogar com a modernidade. Anunciada no dia 25 de janeiro de 1959, a maior cúpula que a cristandade já conheceu foi inaugurado no dia 11 de outubro de 1962. O Vaticano II, o 21º concílio da história da Igreja, terminou três anos depois, no di 8 de dezembro de 1965. Desejado por João XXIII, seria guiado e concluído por Paulo VI. Dos quase 3 mil participantes, ainda estão vivos 96. Ratzinger era assistente do arcebispo de Colônia, Frings, antagonista do cardeal Ottaviani, prefeito do Santo Ofício e presidente da comissão teológica, que tentava frear as reformas.

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