O amigo modernista do Papa João XXIII

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Por: André | 30 Agosto 2013

A manchete do Corriere de la Sera, de 28 de agosto, poderia parecer clamoroso: “Roncalli ensinou com os apontamentos do modernista Buonaiuti”. Marco Rizzi conta (mas na realidade a história já é conhecida há décadas) que “o futuro Papa usou as lições de seu amigo com cheiro de heresia”. O que talvez nem todos saibam é que Angelo Giuseppe Roncalli foi (até a morte) um apaixonado estudioso da história e que quando era um jovem sacerdote ensinou História da Igreja. Entre seus amigos e colegas de estudos, em Roma, estava o Ernesto Buonaiuti, que depois se tornou famoso porque foi acusado de ser um teólogo modernista, e como se não bastasse, o mais modernista de todos os italianos. No caso de muitos intelectuais, as acusações foram muito duras, os quais, na maioria das vezes, não tinham outra culpa senão a de se terem antecipado ao seu tempo. Buonaiuti foi expulso por este motivo da educação eclesiástica, ex-comungado e, depois da Concordata de 1929, suspenso (pelo regime mussoliniano) da cátedra da Universidade de Roma.

A reportagem é de Gianni Gennari e publicada no sítio Vatican Insider, 29-08-2013. A tradução é de André Langer.

Na realidade, sua “teologia” em muitos pontos havia se distanciado de algumas verdades fundamentais da doutrina da Igreja Católica: a divindade real de Cristo e a própria natureza da Igreja como mistério do Senhor.

Buonaiuti era um sacerdote contemporâneo de Roncalli e viveu com ele como estudante no Pontifício Seminário Romano de Estudos Jurídicos de S. Apollinare, em Roma, um instituto que durante séculos formou a nata dos homens ilustres da Igreja (e por cujos corredores passaram, entre outros, Pio XII e Giovanni Battista Montini). Nos anos 1970, por uma decisão da Santa Sé que surpreendeu a todos, foi fechado e o que aconteceu com o prédio e a basílica anexa constitui até nossos dias argumento para crônicas dolorosas e problemáticas.

Voltando a Buonaiuti, sua história, entre acusações e condenações (dramática em muitos aspectos), é bem conhecida. É certo que algumas de suas posturas doutrinais chegaram com o passar do tempo às fronteiras da fé cristã e católica, mas também seria correto perguntar-se até que ponto a hostilidade de certa “Cúria” da época o impulsionou a chegar aos extremos de algumas de suas teses sobre a divindade de Cristo e sobre a verdadeira natureza das Sagradas Escrituras como fonte da fé cristã e da própria Igreja...

Roncalli e Buonaiuti eram amigos e companheiros de estudo. O vínculo de amizade cordial nunca foi desmentido por nenhum dos dois. Pelo contrário. E posso contar um detalhe que vivi em primeira pessoa. No dia 12 de setembro de 1960, João XXIII quis visitar a vila de verão do Pontifício Seminário Romano Maior, em Roccantica, na província de Rieti, na Sabina. Ali, em companhia de seu séquito (com o cardeal Marcello Mimmi, que era arcebispo titular de Sabina, e Poggio Mirteto), foi recebido pelo Reitor do Seminário, mons. Plinio Pascoli, e por todos os estudantes no pátio da vila. Depois houve um cordial colóquio que durou bastante tempo. O Papa estava contentíssimo por se encontrar ali, em Roccantica, e o disse com tranquilidade. Feliz! Ao seu lado estava Mons. Pericle Felici, que havia deixado de ser Diretor Espiritual do Seminário porque se encontrava preparando o Concílio, do qual havia sido secretário-geral, até dezembro de 1965.

Roncalli falou muito, estava contente e sereno, diante de uma assembleia de jovens alunos (nas fotos do encontro é possível reconhecer, encantados por suas palavras, muitos que hoje são bispos e cardeais). A certa altura, quis explicar seu apreço por aquele lugar. Pouco depois da sua ordenação, um dia depois da sua primeira missa em Roma, na Igreja de Santa Maria em Montesanto (na Praça do Povo) foi celebrar justamente ali sua segunda missa, em Roccantica. Foi um relato pormenorizado: o trem de Roma que chegou à estação de Stimigliano, depois a viagem de cerca de 20 quilômetros em uma carreta puxada por dois bois, poeira e pedras...

Era o verão de 1904. O Papa contou com um enorme sorriso que a batina preta havia ficado branca de poeira e depois recordou a capela da vila na qual todos haviam rezado juntos pouco tempo antes. “Aqui eu disse a minha segunda Missa... Me assistia o pobre Ernesto!”. Era normal então que um sacerdote com mais experiência acompanhasse como “assistente” as primeiras celebrações dos “novatos”... O Papa João sorria ao recordar o evento e sorriu durante toda essa tardinha serena no seminário. Depois que tinha ido, houve alguns que, cheios de curiosidade, perguntaram ao Reitor, quem era esse “pobre Ernesto”. E mons. Pascoli se mostrou surpreso com a pergunta e riu. Mas respondeu: “Era Ernesto Buonaiuti”.

A amizade e a camaradagem do Papa com o mais famoso dos “hereges” do modernismo da primeira metade do século XX! Formavam um grupo de jovens sacerdotes e amigos: Roncalli, Buonaiuti, De Luca, Canovai, Belvederi e Sandri. Cada um deles teria uma vida muito diferente pela frente...

Voltando a Buonaiuti, pois, é certo que quando Roncalli foi chamado para ensinar História da Igreja em Bérgamo pediu ao seu amigo Ernesto seus apontamentos para as aulas. Mas os que leram os textos saberão que neles não há nenhum erro doutrinal. Quando este detalhe veio à tona não teve nenhum peso para frear o curso da longa “carreira” (vocábulo deselegante, mas útil) que teria levado Roncalli à Cátedra de Pedro no dia 28 de outubro de 1958.

A amizade e a cordialidade duraram toda a vida, para além das dolorosas questões que marcaram a vida do “pobre Ernesto”, que, na realidade, justamente devido à ímpia caça que empreenderam contra ele alguns censores da Igreja e depois o regime fascista que o suspendeu na Universidade de Roma. No artigo publicado pelo Corriere de la Sera se pode ler uma anotação de Paulo VI sobre as diferenças entre ambos: Roncalli e Buonaiuti: “Aumenta o apreço pelo Papa João e a piedade por Buonaiuti”. Piedade, “montinianamente”, no sentido forte da palavra, que não implica superioridade, nem soberba ou juízos hostis, mas que vai além das questões históricas vendo-as à luz de algo supremo: a misericórdia divina.

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