O segundo tempo do Concílio. Entrevista com Achille Silvestrini

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28 Outubro 2013

De Federico Fellini, do qual ele ainda se lembra da "grande e infinita ternura", aos anos do seminário Faenza ou daqueles como empregado da Secretaria de Estado durante o Concílio Vaticano II, sob a sábia orientação dos cardeais Domenico Tardini e Amleto Cicognani, ou ainda às suas missões em roupas civis efetuadas com o então monsenhor Agostino Casaroli ("homem rigoroso e com uma fé muito sólida"), em Moscou no período da Ostpolitik: essas são algumas das muitas imagens que voltam à mente do cardeal Achille Silvestrini, que completa 90 anos nessa sexta-feira, em sua casa, no Vaticano, nestes quentes dias romanos.

A reportagem é de Filippo Rizzi, publicada no jornal Avvenire, 25-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um marco que é vivido no temperamento do prefeito emérito da Congregação para as Igrejas Orientais e ainda hoje presidente da Fundação Villa Nazareth (pensionato e comunidade de estudantes merecedores que estudam em Roma) com o estilo de sempre: de olhar com confiança, e sem a carga das nostalgias, para o futuro da Igreja: "Eu acho que é preciso recomeçar do Concílio Vaticano II, de tudo aquilo que ainda não foi implementado e ainda deve ser feito", é a reflexão do cardeal da Emília Romana.

"Com o meu querido e fraterno amigo, o cardeal Carlo Maria Martini, durante estes anos, nos interrogamos, muitas vezes, sobre como era necessário e urgente buscar uma nova linguagem para falar à humanidade de hoje e em particular às novas gerações e dar respostas adequadas à modernidade. O desafio que espera a Igreja é justamente o de sair dos âmbitos restritos das sacristias, em um certo sentido 'desclericarizar-se', também com o próprio laicato e viver autenticamente o Evangelho. Eu considero que a Europa já não pode mais marcar os limites da eclesiologia. Um exemplo? A eleição do Papa Francisco não significou apenas a novidade da proveniência do sucessor de Pedro de um país distante. O seu estilo de bispo de Roma nos sugere não só que é preciso recuperar a universalidade da missão da Igreja Católica, mas também convida a todos nós, cristãos, a renovar a linguagem do anúncio da fé (como até agora pensamos a teologia). A eleição de Bergoglio, que se vincula idealmente ao magistério dos seus antecessores diretos João Paulo II e Bento XVI, nos solicita talvez agora mais do que nunca a retomar as temáticas que estavam no centro de muitas discussões conciliares, a redescobrir, valorizando as lições de homens proféticos como Lercaro e Dossetti, algumas prioridades constitutivas da identidade eclesial, impressa pelo Vaticano II, como a opção preferencial pelos pobres, a continuidade da paz entre os povos e o diálogo com os distantes e os não crentes. No fundo, a difícil implementação do Concílio, nas intenções de João XXIII, era e ainda é hoje uma tarefa em aberto: tornar acessível o Evangelho ao coração de todos".

Eis a entrevista.

O senhor tem alguma recordação em particular dos turbulentos anos do Concílio?

Foram anos muito intensos que me permitiram aprender, como redator de atas da Secretaria de Estado, com o meu então superior, o cardeal Domenico Tardini, não só a importância da diplomacia, mas também da escuta dos interlocutores, em um verdadeiro primado da caridade. Como posso não esquecer o que significou para  Pietro Pavan a aprovação definitiva da declaração conciliar sobre a liberdade religiosa Dignitatis Humanae. Muitas vezes vêm à minha mente a amargura e o pranto de Pavan quando ele foi informado de que aquele decreto não seria aprovado e como, ao invés, poucas horas depois, no dia 21 de setembro de 1965, esse mesmo documento obteve o consentimento da aula conciliar. O mesmo pranto se transformou para Pavan em uma inesperada expressão de alegria.

Eminência, poucos sabem que a famosa entrevista, a primeira de um pontífice, concedida por Paulo VI no dia 4 de outubro de 1965 ao jornalista do Corriere della Sera Alberto Cavallari teve o senhor como mediador. Pode nos explicar, a tantos anos de distância, como nasceu esse encontro?

Eu lembro que Cavallari, que depois se tornou um grande amigo meu, foi-me apresentado pelo secretário de Paulo VI, Dom Pasquale Macchi. O jornalista de Piacenza fez uma investigação sobre a atividade dos vários departamentos da Cúria vaticana e escreveu o famoso livro Il Vaticano che cambia. Nesse contexto, nasceu a ideia de uma conversa entre Cavallari e o grande papa da Bréscia. Lembro que o editor do Corriere, Alfio Russo, enviou Alberto a Roma para acompanhar o Concílio, "para entender o que estava acontecendo na Igreja". Eu acredito que dali nasceu a sua investigação que culminou, às vésperas da visita de Paulo VI às Nações Unidas, na entrevista com o pontífice, a primeira concedida por um papa depois da guerra. E Cavallari a escreveu de um golpe, de memória, na mesa de um bar na Via della Conciliazione.

O seu século XX foi cadenciado principalmente por encontros com grandes personagens, pela assinatura de tratados importantes, mas especialmente de uma vida gasta na veste de diplomata da Santa Sé e pastor. O que o senhor lembra daqueles anos e quando realmente começou o degelo entre a URSS e o Vaticano?

O próprio Concílio, mas também a encíclica Pacem in Terris, ajudou naqueles anos a mudar o clima com a União Soviética e a abrir brechas de diálogo. Certamente, uma figura carismática e de grande refinamento intelectual como o futuro cardeal Casaroli foi um dos arquitetos desse "degelo", conduzido com uma diplomacia de pequenos passos, mas também com a esperança das coisas possíveis, como o foi  em certo sentido a Ostpolitik. Eu penso, por exemplo, na sua viagem em 1963 de Viena a Budapeste, ou na prudência e paciência que ele teve nas situações difíceis. Se quisermos captar o sentido da diplomacia vaticana, o encontramos naqueles anos, sem os quais não teríamos chegado, no dia 16 de outubro de 1978, à eleição de João Paulo II. No carisma de Karol Wojtyla anunciava-se a unidade espiritual da Europa. Ele tinha a fé e a força do profeta. O seu corpo e os seus gestos, junto com as palavras, de repente, uniam aquilo que tinha sido separado com a prepotência da ideologia. Certamente, outra experiência importante da minha vida foi ter feito parte da delegação vaticana que assinou a revisão da Concordata em 1984, e naquele momento eu pude experimentar a obra-prima da diplomacia, construída nos anos anteriores.

Que mensagem o senhor gostaria de dar aos jovens e à Igreja de amanhã?

Eu acredito que, como já mencionado, é o de retomar nas mãos a agenda incompleta do Vaticano II. Muitas coisas deixadas em suspenso por Paulo VI ainda estão lá. Mas não só. Um desafio aberto à cultura de hoje, talvez, poderia ser o de levar novamente a teologia às faculdades laicas para favorecer uma busca alimentada pelo debate das diferenças. E depois eu acredito que é importante saber captar os sinais dos tempos e de esperança que hoje as jovens Igrejas da Ásia e latino-americanas sabem suscitar. Daí, talvez, pode renascer e refermentar também no nosso velho e cansado Ocidente o futuro do cristianismo. Como eu disse, há muitos anos, interrogado por um jornalista, seria bom, em um dia não distante, poder celebrar justamente na China a Jornada Mundial da Juventude... Um sonho que esperamos que se torne realidade.

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