Como em Jerusalém. Artigo de Raniero La Valle

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17 Maio 2018

Caros amigos, o cerco em torno do Papa Francisco vai se estreitando, enquanto sua mensagem acima dos muros e postos de bloqueio continua a correr solta nesse mundo de fogo. Desta vez, a contestação que lhe é imputada por um cardeal holandês e alguns bispos alemães é mais séria do que aquela apresentada pela assembleia romana de 7 de abril do Cardeal Burke. A atual contestação, de fato, diz respeito a um ponto focal do programa cristão, que é a unidade dos cristãos, pedida e realizada por Jesus com a doação de si mesmo na noite em que foi traído, e depois perdida pela Igreja.

O comentário é de Raniero La Valle, jornalista e senador italiano, publicado por Chiesa di tutti Chiesa dei poveri, 15-05-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

A questão é aquela da comunhão que protestantes e católicos podem realizar e viverem juntos. Que isso possa acontecer no serviço recíproco e no "lava-pés" é tranquilo e já amplamente praticado em todas as igrejas, que do Concílio em diante muito avançaram no ecumenismo, tanto nas bases como nos vértices. Mesmo nos vértices, onde muitas diferenças dogmáticas caíram; onde foi "apagado da memória" o caso das excomunhões, de acordo com a fórmula utilizada pelo Concílio; onde foi reconhecido, pelos líderes do Oriente e do Ocidente, que a divisão havia acontecido porque as Igrejas tinham colocado em sua cabeça que eram o sol, que brilha com luz própria, enquanto eram apenas a lua que a reflete, e então olhavam para si mesmas, em vez de olhar para o Senhor; e onde, quinhentos anos após a Reforma, elas reconheceram o bem trazido pela Reforma e pela Contrarreforma, mas o prejuízo arrecadado pelo seu ser "contra".

O que restou como limite intransponível, mais nos vértices do que nas bases, foi a comunhão que acontece quando se parte o pão da Eucaristia, embora por todas as Igrejas seja afirmado que é justamente essa a meta, porque será apenas na participação da mesa comum que a unidade dos cristãos realmente será realizada.

O Papa Francisco discretamente começou a desmanchar esse tabu. Para uma mulher protestante, que o questionava na igreja luterana de Roma, disse que ela respondesse, com o marido católico, sobre fazer a comunhão juntos; e falando na paróquia anglicana de Roma (onde ele tinha sido convidado como bispo de todos os cristãos da cidade), ele disse que as Igrejas jovens têm mais vitalidade, mais coragem no diálogo ecumênico, que é feito "no caminho" (também "as coisas teológicas" são discutidas no caminho).

Ele deu como exemplo o que acontece no coração da Argentina: "Existem as missões anglicanas com os aborígines e as missões católicas com os aborígines, e o bispo anglicano e o bispo católico trabalham em conjunto, e ensinam. Quando as pessoas não podem ir no domingo para a celebração católica, vão para a anglicana, e os anglicanos frequentam a católica, porque não querem passar o domingo sem uma celebração; e trabalham juntos. E aqui (e entendia aqui, em Roma) a Congregação para a Doutrina da Fé sabe disso".

Agora o que acontece é que Conferência Episcopal Alemã decidiu emitir uma diretiva pastoral que contempla sob certas condições, oferecer a comunhão aos protestantes casados com um cônjuge católico (casamentos mistos são numerosos na Alemanha). Sete bispos alemães, que não estavam de acordo, perguntaram se não seria melhor ir discutir o assunto em Roma, com o Papa: uma questão de tal magnitude, que diz respeito à fé e à prática de toda a Igreja, não pode ser decidida por uma única Conferência Episcopal, eles escreveram, de modo que queriam uma decisão de autoridade. Uma missão da Igreja alemã foi para Roma, em 3 de maio, mas o papa não decidiu: o prefeito para a Doutrina da Fé, o arcebispo Ladaria, em um encontro "cordial e fraterno" comunicou que o papa, apreciando o empenho ecumênico dos bispos alemães, pedia "a eles encontrar, num espírito de comunhão eclesial, um resultado possivelmente unânime". Dessa forma, o papa, enquanto não colocava preclusões no mérito, mantinha firme uma das principais inovações do seu pontificado em relação ao Concílio, a sinodalidade, como dimensão constitutiva da Igreja, a decisão em conjunto e não a partir do vértice de uma pirâmide (no máximo, como ele afirmou uma vez, seria uma pirâmide invertida onde "o vértice está localizado abaixo da base").

Pois bem, em uma Igreja sinodal, como foi dito naquela retomada do Concílio Vaticano II que é constituída pela exortação "Evangelii Gaudium", as conferências episcopais devem ser concebidas "como sujeitos de atribuições concretas, incluindo até mesmo algumas autênticas autoridades doutrinais."

De acordo com dois cardeais, o arcebispo holandês de Utrecht, Willem Jacobus Eijk, e o ex-prefeito do ex-Santo Ofício, o cardeal alemão Muller, isso colocaria em perigo a unidade e a fé da Igreja; segundo Müller até mesmo poderia resultar na "destruição da Igreja Católica" e caberia à Congregação para a Doutrina da Fé tornar-se "guia do magistério do papa", o que significaria que o papa não seria mais papa, o que é, isso sim, uma inversão completa da doutrina católica e romana.

Em vez disso, é fácil julgar o que aconteceu. Quando no cristianismo das origens ocorreu um dissídio na Igreja local da Antioquia sobre um ponto capital da fé (que para a salvação deveria ser necessária a circuncisão) decidiu-se enviar uma delegação, com Paulo e Barnabé a Jerusalém, para que a coisa fosse decidida por autoridade por Pedro e pelos outros apóstolos e anciãos. Mas eles não decidiram por todas as Igrejas, e enviaram de volta a delegação para a Antioquia com o acompanhamento de Judas e Silas, para que a decisão fosse tomada por aquela assembleia, não de acordo com a pretensão estrita dos crentes que vinham da seita dos fariseus, não abalizada por Jerusalém, mas de acordo a visão de Pedro para quem não se devia impor o jugo de um sobre o outro, não tendo Deus "que conhece os corações, feito nenhuma discriminação entre nós e eles." Então o Papa Francisco devolveu a decisão para a Igreja alemã, sabendo, como havia dito Pedro que "nós pela graça do Senhor Jesus somos salvos, exatamente como eles."

Então precisamos fazer como em Jerusalém. Como na Jerusalém de então, porque da Jerusalém de hoje vem tudo menos paz, mas, também graças à instigação de Trump, vem opressão, conflito e morte.

Sobre a questão alemã pode ser lida entrevista esclarecedora do cardeal Kasper concedida a Andrea Tornielli.

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