Unidade, liberdade e paz: a teologia pastoral de João XXIII. Artigo de Loris Capovilla

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16 Abril 2014

Unidade, liberdade e paz são o Leitmotiv da teologia pastoral, do serviço papal e das intuições apostólicas de João XXIII, transparentes na primeira encíclica, Ad Petri cathedram (29 de junho de 1959), e na última, Pacem in Terris (11 de abril de 1963). Filho da campanha, ruminador da palavra, servo de Deus e da Igreja, amada além das palavras, indagador de histórias dos homens, recolhedor de espigas, para que nada fosse perdido, ele volta a alimentar a lâmpada da esperança.

A análise é do cardeal italiano Loris Capovilla (foto abaixo), ex-secretário particular do Papa João XXIII e arcebispo emérito de Loreto, em artigo publicado no jornal L'Osservatore Romano, 11-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Somos devedores a João XXIII também se, na confusão de eventos calamitosos, mantivemos levantada sobre as nossas cabeças a lâmpada da esperança, "a pequena menina que parece arrastada pela fé e pela caridade, suas irmãs mais velhas, enquanto é ela, a pequenina, que as alimenta e as impulsiona" (Charles Péguy); também graças a ele se nos foi permitido pressagiar a reconciliação dos povos e operar com decisão para que sejam reconhecidos e tutelados os direitos inalienáveis da pessoa; se aprendemos a ler mais atentamente os sinais dos tempos.

Também devemos a ele o dom de caminhar com a Igreja não desconsolados, quase diante de uma estela funerária, nem apenas deslumbrados diante dos prodígios sedutores da ciência e da técnica, não sendo simplesmente cultores do bem-estar obtido.

Somos "cultivadores de um jardim destinado a uma perene florescência", ansiosos por nos saciar na antiga fonte do vilarejo fonte que "dá água às gerações de hoje, assim como deu às do passado" (Discorsi messaggi colloqui del Santo Padre Giovanni XXIII, Poliglotta Vaticana, volume III, p. 9).

Remontemos ao alvorecer do século XX. No dia 11 de agosto de 1904, o jovem Angelo Giuseppe Roncalli, ordenado padre em Roma no dia anterior, desce até as Grutas Vaticanas, acompanhado pelo vice-reitor do seminário romano e por alguns condiscípulos e celebra a primeira missa na Capela Clementina, a mais próxima ao sepulcro do Príncipe dos Apóstolos. Depõe sobre a mesa o memorial da sua ordenação, com o qual pede " para si, fervor apostólico; para os seus parentes e amigos, dons celestes; para a Igreja universal, unidade, liberdade e paz".

Ele tem 22 anos e oito meses. Bergamasco, filho de lavradores da terra, quarto de 13 filhos, despontou ao sol durante o pontificado de Leão XIII; educado pelos familiares in fide et gratia, tendo crescido no ventre da "pobreza contente e abençoada", iniciado nos caminhos do timor Domini, da honestidade, da obediência, do trabalho; desde rapaz, apesar dos acesos conflitos ideológicos e das condições impostas pelos governos de então à Igreja e aos católicos, ele é leal cidadão da Itália, conhecida e amada através do Bel Paese de Antonio Stoppani.

É doutor em Sacra Teologia. Nenhum dos parentes está ao seu lado, porque as condições econômicas da família não permitiram a compra do bilhete ferroviário Bérgamo-Roma e a volta.

Quem o encontro fica conquistado pelo seu aspecto de jovem inteligente, reservado, tranquilo. Dir-se-á dele: dois olhos e um sorriso. Assim aparecia aos romanos e ao mundo: às 18h20min do dia 28 de outubro de 1958, na loggia central de São Pedro. Sim: dois olhos e um sorriso.

Na verdade, isso não bastava para tomar nas mãos o leme da barca na era dos voos espaciais, do mundo dividido em dois em Yalta, da luta frenética contra o sagrado, do retorno dos ídolos, da cruel indiferença diante dos dramas da miséria econômica, do analfabetismo, das doenças endêmicas, das injustiças estruturais, dos mercados de drogas e de armas. Sabemos, não bastava. Mas dois olhos límpidos e o sorriso inocente no rosto de um homem velho e não abatido eram sinais preanunciadores de novidade evangélica.

Na noite de 28 de outubro de 1958, esse homem, esse padre, aparecendo nas telas de televisão, poderia declamar a crônica nitidamente desenhada 54 anos antes, subindo novamente das Grutas Vaticanas, com o coração cheio de comoção, com uma mente aberta sobre os vastos horizontes missionários e ecumênicos: "Entre os sentimentos de que o coração transbordava, este dominava sobre todos, de um grande amor pela Igreja, pela causa de Cristo, pelo papa; de uma dedicação total do meu ser a serviço de Jesus e da Igreja; de um propósito, de um sacro juramento de fidelidade à Cátedra de Pedro, de trabalho incansável pelas almas. Mas esse juramento que recebia uma consagração própria pelo lugar onde eu estava, pelo ato que eu realizava, pelas circunstâncias que o acompanhavam, eu o mantenho aqui ainda vivo e palpitante no coração, mais do que a pena permite descrever. Como eu disse ao Senhor no túmulo de São Pedro: 'Senhor, tu sabes tudo: tu sabes que eu te amo' (Jo 21, 17). Saí de lá como que de um sonho. Os pontífices de mármore e de bronze dispostos ao longo da basílica pareciam me olhar dos seus sepulcros com uma significação nova naquele dia, como que me infundindo coragem e grande confiança" (Diário da alma, § 446).

Pontífices de mármore e de bronze! Agora, entre eles, está também ele. No altar de São Jerônimo, da Basílica Vaticana, repousam os seus restos mortais; no templo augusto resplandecem três imagens dele, duas de Giacomo Manzù, uma de Emilio Greco: na primeira, no quarto painel menor da Porta da Morte (batente esquerdo externo), ele aparece em oração: "Homem de Deus" (1Timóteo 6, 11); na segunda, na face interna da mesma porta, sentado em um pequeno assento: "Vigário de Cristo", presidente do Concílio Vaticano II; na terceira, no lado direito da Capela da Apresentação, ao lado do altar de Pio X, no ato de acorrer, com os bispos, às fronteiras da caridade: samaritano compassivo (Lucas 10, 33).

Repasso um por um os dias do seu serviço petrino, carregados de novidades e surpresas: momentos de estupor, de ansiedade, de preocupações, de esperanças. Revejo o evento do primeiro encontro com o Povo Romano. O abraço comovedor se repete a cada eleição. A acolhida dos romanos a Giuseppe Sarto no início do século XX não é diferente daquela reservada a Jorge Mario Bergoglio no dia 13 de março de 2013.

No anúncio do Habemus Papam do dia 28 de outubro de 1958, muitos evocaram o quarto Evangelho: "Veio um homem enviado por Deus, e o seu nome era João "(João 1, 6): veio e os seus o receberam, talvez não todos, não de imediato.

À pergunta de então e de agora sobre quem era João XXIII e o que tinha em mente, respondem o seu Diário da Alma e os textos completos da sua atividade de estudioso, de pastor solícito, de pai universal, enquanto no livro do Eclesiástico descobrimos a sua ficha de registro com a característica do seu destino, ao lado da de Samuel, o ingênuo menino à escuta de Deus, o sacerdote atento às iluminações que vêm do alto: "Samuel foi amado pelo seu Senhor, do qual era profeta. Por sua fidelidade, mostrou que era profeta, e por suas palavras foi reconhecido como verdadeiro vidente. Quando os inimigos o comprimiam de todos os lados, ele invocou o Senhor Todo-poderoso. Antes da hora de repousar para sempre, deu testemunho diante do Senhor e do seu ungido: 'Nem dinheiro, nem sandálias eu tomei de quem quer que seja'. E ninguém ousou acusá-lo. Mesmo depois de sua morte, ele profetizou, predizendo ao rei o seu fim. Mesmo do sepulcro, ele levantou a voz, numa profecia, para apagar a injustiça do povo" (46, 16-23).

Walter Lippman, comentarista norte-americano, comenta liricamente o trecho bíblico: "O reinado do Papa João foi uma maravilha, ainda mais surpreendente quando se pensa como ele conseguiu ser tão profundamente amado em meio às acres inimizades do nosso tempo. É um milagre moderno que uma pessoa tenha conseguido superar todas as barreiras de classe, de casta, de cor, de raça para tocar os corações de todos os povos. Nada de semelhante jamais ocorrera, ao menos na era moderna" (New York Herald, 7 de junho de 1963).

Ainda não nos damos conta de que, nos cinco anos de João, quase inadvertidamente, algo se colocou em movimento e inspirou uma revolução positiva ad intra e ad extra de notáveis proporções, no sentido de dilatação da respiração contemplativa e de dimensão apostólica da Igreja de Cristo.

"Nós dizemos, com grandes palavras, coisas pequenas; ele disse, com pobres palavras, coisas grandes e traçou com os seus gestos de antigo ancião, apaixonado pelo passado, as linhas mestras do futuro" (Ernesto Balducci, Papa Giovanni, Vallecchi, 1964, p. 129).

Ouço novamente a voz de autoridade do cardeal Montini no dia seguinte à morte do Papa João: "Difícil arte a da profecia, mas neste momento ela parece se tornar mais fácil e quase obrigatória na evidência de algumas premissas postas pelo papa do qual choramos a morte. João marcou algumas trajetórias no nosso caminho, que será de sabedoria não só lembrar, mas também seguir" (7 de junho 1963).

"Entendemos – continua Balducci – que aquele progressismo do qual ele estava infectado tirava a paz de nós e dos outros, não porque fosse realmente conhecimento das leis do progresso, mas porque tentava os caminhos do futuro sem ter as suas chaves. Em comparação com eles, todos nos sentimos um pouco velhos e desajeitados: as mesmas coisas que nós tínhamos pensado com orgulho, ele as fez com simplicidade e com superabundância de coragem" (Ibid.).

Isso pôde acontecer porque aquele homem, sacerdote e pastor, vivia e agia dentro da luz de Deus, plenamente abandonado nele, felizmente revestido com a dalmática da tradição.

Das ruelas poeirentas de Sotto il Monte, Angelo Giuseppe Roncalli desembarcou nas margens do Tibre, para retomar e dilatar os princípios e os valores da unidade e da liberdade, premissas necessárias para iniciar o diálogo sobre a paz: " A paz do papa não é simples augúrio cortês, não é nem um ensinamento doutrinal preciso e documentário; é uma concepção da vida e da civilização; é para nós um mandamento e um compromisso, que podemos traduzir assim: a paz não se desfruta, mas se constrói, se cria" ( Giovanni Battista Montini, 1º de junho de 1963).

João XXIII não se identifica unicamente com um ou outro dos seus atos pontifícios e dos seus documentos magisteriais, derivados da doutrina revelada e da bimilenar sabedoria da Igreja, uma vez que ele quis ser e foi todo inteiro uma "carta de Cristo [à humanidade] escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas na tábua de carne do coração de vocês" (2Coríntios 3, 2-3).

Ele levou a infância espiritual, dois olhos e um sorriso, ao sólio de Pedro. Disse de si mesmo: "A minha pessoa não conta nada. É um irmão que fala a vocês; um irmão que se tornou padre por vontade de Nosso Senhor. Mas tudo junto, paternidade e fraternidade, é graça de Deus: tudo, tudo" (11 de outubro de 1962).

Unidade, liberdade e paz são o Leitmotiv da sua teologia pastoral e do serviço papal, das suas intuições apostólicas, transparentes na primeira encíclica, Ad Petri cathedram (29 de junho de 1959), e na última, Pacem in Terris (11 de abril de 1963), com ênfases que exigem reconsideração: "O errante é sempre e acima de tudo um ser humano e conserva, em todo caso, a sua dignidade de pessoa e sempre deve ser considerado e tratado como se convém a tal dignidade. Além disso, em cada ser humano nunca se apaga a exigência, congênita à sua natureza, de despedaçar os esquemas do erro para se abrir ao conhecimento da verdade. E a ação de Deus nele nunca falha"  (§ 159).

Fonte da sua mansidão foram os textos bíblicos e patrísticos, a teologia da misericórdia, a tradição dos concílios (todos, como afirmou na abertura do Vaticano II), de Niceia ao Vaticano I. Filho da campanha, ruminador da palavra, servo de Deus e da Igreja, amada além das palavras, indagador de histórias dos homens, recolhedor de espigas, para que nada fosse perdido, ele volta a alimentar a lâmpada da esperança.

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