Religiosas rompem o silêncio sobre abusos sexuais por parte do clero

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25 Janeiro 2019

Motivadas pelo movimento #MeToo e pela crise dos abusos sexuais que chama a atenção do Vaticano, religiosas estão agora discutindo abertamente um assunto que já foi tabu – o assédio sexual, o abuso e o estupro de irmãs por parte do clero – em casas de congregações e em escritórios de conferências nacionais.

A reportagem é de Gail DeGeorge, publicada em Global Sisters Report, 21-01-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Lentamente, termina uma era em que as religiosas católicas eram vítimas silenciosas do abuso sexual de padres e bispos. Considerem-se estes desdobramentos do ano passado:

- No Chile, o Vaticano está investigando denúncias por parte de membros de uma congregação de abuso sexual por padres e maus tratos por parte de seus superiores;

- Na Índia, Dom Franco Mulakkal, bispo de Jalandhar, enfrenta acusações de múltiplos estupros de uma ex-superiora de uma congregação. Ele é o primeiro bispo da Índia a ser preso por abuso sexual de uma freira. Ele negou as acusações. Mais de 80 irmãs estavam entre os 167 signatários de uma carta em julho pedindo que ele fosse dispensado de seus deveres pastorais. Cinco irmãs da congregação e outros apoiadores participaram de uma manifestação pública altamente incomum de apoio ao ex-superior e de protesto contra a inação inicial das autoridades da Igreja e do Estado;

- Declarações encorajando as irmãs a denunciarem o abuso e os membros e superiores de congregações a acreditarem nas denúncias e a apoiarem as vítimas foram emitidas pela União Internacional das Superioras Gerais (UISG), a maior representação mundial de lideranças de religiosas, e pela Leadership Conference of Women Religious (LCWR), nos Estados Unidos.

- A Associated Press publicou uma reportagem em julho sobre o abuso sexual de irmãs, com base em um artigo do National Catholic Reporter de 2001. Em janeiro, ela publicou uma reportagem separada com foco na Índia. Outros relatos midiáticos surgiram sobre abusos em Mianmar.

Em mais de uma dezena de entrevistas para esta reportagem, surgiram alguns padrões entre países e continentes sobre como ajudar a prevenir os abusos e a apoiar as vítimas, caso isso ocorra.

“As irmãs, individualmente, têm que se arriscar a dizer a verdade se isso acontecer com elas”, disse a Ir. Esther Fangman, priora das Irmãs Beneditinas de Mount St. Scholastica, em Atchison, Kansas, que fez um discurso no ano 2000 sobre o abuso sexual de irmãs em um congresso em Roma de 250 abades beneditinos. “Outras pessoas em torno delas têm que ouvir e acreditar nelas, e não descartar isso como se elas estivessem inventando – esse é o mesmo problema que tivemos em toda a sociedade em relação ao abuso sexual de mulheres –, como se, de algum modo, isso fosse culpa da mulher”, disse Fangman, que é doutora em aconselhamento e trabalhou com vítimas de abuso sexual. “Se a relação de poder for desigual, preste atenção na pessoa que conta a história, porque ela está em desvantagem e provavelmente está dizendo a verdade.”

Sem um protocolo de denúncia ou outra ação do Vaticano, as congregações e as conferências nacionais elaboram discretamente suas próprias respostas. Está sendo incorporado mais treinamento sobre conscientização nos programas de formação e liderança. Medidas pragmáticas estão sendo implementadas, como a assinatura de contratos por escrito para as irmãs que trabalham em paróquias, explicando seus deveres e horários, para minimizar situações de vulnerabilidade em que estiverem trabalhando sozinhas.

Tais proteções, disseram algumas lideranças de congregações, incluem até mesmo detalhes para assegurar que as irmãs tenham dinheiro para o transporte, a fim de evitar caronas de padres ou bispos sozinhos.

Mudanças necessárias

Uma maior independência financeira para as congregações é vital para evitar a excessiva dependência em relação aos bispos diocesanos ou aos párocos, disseram vários. Os doadores devem ser encorajados a enviar dinheiro diretamente para as congregações, em vez de fazer isso mediante escritórios diocesanos. Revisões na lei canônica deveriam limitar ou impedir que os bispos criem congregações diocesanas, que estão sujeitas a um maior controle local e a abusos em potencial, disseram algumas irmãs.

Outras mudanças são extremamente necessárias, disseram os entrevistados. Protocolos de dioceses e do Vaticano devem ser estabelecidos, divulgados e seguidos em relação a acusações de abuso por parte de religiosas.

Mas a mudança real em relação ao abuso de irmãs, segundo muitos, requer uma mudança fundamental na hierarquia e na atitude da Igreja em relação às mulheres. Embora não minimizando a dor do abuso sexual, a teóloga feminista Mary Hunt disse que o problema é sintomático de um “abuso espiritual” mais profundo e generalizado, perpetrado contra as mulheres por uma Igreja dominada por homens. “Disseram-nos coisas que não são verdadeiras”, disse ela. “As mulheres foram relegadas a cidadãs de segunda categoria” na Igreja.

O desmantelamento do clericalismo e a elevação das mulheres e das religiosas a cargos de liderança também são questões cruciais, de acordo com os entrevistados. Isso enviaria uma mensagem aos bispos em todo o mundo sobre o status das mulheres, particularmente nos países em desenvolvimento.

“Se a Igreja puder aceitar as mulheres como mulheres – e não como instrumentos ou ferramentas a serem usados – essa seria a minha alegria”, disse a Ir. Eneless Chimbali, das Servas da Abençoada Virgem Maria, secretária geral da Associação das Mulheres Consagradas na África Oriental e Central (ACWECA, na sigla em inglês), desde 2015. “Veja a cúria no Vaticano”, disse ela em relação a uma Igreja dominada por homens. “As mulheres e os leigos estão sempre do lado receptor – eles não são incluídos nos fóruns de tomada de decisão.”

As congregações estão fazendo mudanças como podem. Em programas de formação e seminários para superioras, as atitudes estão mudando para treinar melhor as irmãs, especialmente as noviças e as postulantes, para evitarem situações vulneráveis e para denunciarem casos de comportamento inadequado.

A Ir. Rose Pacatte, diretora fundadora do Pauline Center for Media Studies e colaboradora do National Catholic Reporter, preparou recentemente uma apresentação sobre o combate ao abuso sexual para lideranças e diretores de formação, incluindo seções sobre prevenção, para a Conferência de Superioras Maiores do Paquistão.

A apresentação, que é aplicável para comunidades e congregações em outros países, inclui seções sobre o “aliciamento” de vítimas e encenações para que as irmãs praticassem a rejeição de ataques e a denúncia de casos a suas superioras.

A apresentação foi criada com a ajuda da Ir. Kathleen Bryant, das Irmãs da Caridade, que atuou como diretora vocacional da Arquidiocese de Los Angeles durante 21 anos e tem sido uma liderança no combate ao tráfico de pessoas há 18 anos, e da Ir. Suzanne Mayer, das Irmãs do Imaculado Coração, diretora de aconselhamento em saúde mental pastoral da Neumann University, em Aston, Pensilvânia.

Slide de uma apresentação de Ir. Rose Pacatte, “Abuso sexual do clero católico: escândalo e crise, prevenção e cura” (Fonte: Global Sisters Report)

“Cada comunidade tem que descobrir como apresentar essa informação a suas irmãs mais jovens, sem tirá-las do convívio com homens ou com o clero, tornando-as sábias, mas não medrosas”, disse Pacatte. “Temos que reconhecer que o abuso sexual de irmãs é real e criar um protocolo caso algo ocorra.”

Educação e formação

A educação de irmãs está ajudando a mudar a dinâmica no Quênia, Malawi, Nigéria e em outros países da África, disseram as irmãs nesses países. “Há muita conscientização. As irmãs estão sendo formadas, e o seu nível de conhecimento está aumentando, a ponto de permitir que elas se defendam e estejam cientes de seus limites”, disse Chimbali.

A ACWECA realiza oficinas sobre a vida religiosa com lideranças de congregações, que incluem questões sobre a proteção de crianças e de adultos vulneráveis, disse ela. O foco não é apenas nas irmãs que estão sendo abusadas pelo clero, mas também em situações em que as irmãs podem estar abusando de jovens ou daqueles a quem elas servem; não necessariamente abusando sexual, mas outras formas de abuso físico, mental ou emocional, afirmou ela. “A questão da proteção infantil ou do abuso sexual está incorporada na formação e na vida religiosa em curso na África”, disse.

Por causa da educação e de um maior empoderamento das religiosas, a questão do combate ao abuso de irmãs pelo clero “melhorou muito nos últimos 15 anos”, disse Chimbali.

Oficinas para mulheres e homens consagrados sobre o acompanhamento de vítimas de violência sexual durante conflitos foram realizadas em 2017 e 2018 na República Democrática do Congo e em Uganda, promovidos por parcerias de conferências religiosas e a UISG, em conjunto com a Embaixada do Reino Unido junto à Santa Sé.

Durante a oficina em Uganda, Dom John Baptist Odama, arcebispo de Gulu, se ajoelhou e pediu desculpas em nome do clero masculino que possa ter abusado de mulheres agentes de pastoral.

O artigo do NCR em 2001 citava várias reportagens, algumas datando de meados dos anos 1990, sobre o abuso de irmãs pelo clero. Embora tenham sido encontrados casos em 23 países nos cinco continentes, uma reportagem dizia que o problema na época era particularmente agudo na África, por causa da crise da Aids. As irmãs eram vistas por padres e bispos como parceiras sexuais seguras.

Slide de uma apresentação de Ir. Rose Pacatte, “Abuso sexual do clero católico: escândalo e crise, prevenção e cura” (Fonte: Global Sisters Report)

Não está claro qual foi a resposta do Vaticano às reportagens ou ao artigo do NCR, ou às revelações atuais de abuso sexual de religiosas. A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica não respondeu a várias investigações feitas desde setembro sobre a resposta às reportagens de 2001 ou aos casos de abuso mais recentes. A Sala de Imprensa do Vaticano não respondeu a perguntas feitas em janeiro.

Anos depois de seu discurso se tornar público, citado no artigo do NCR e em outros artigos e fóruns mais recentes, Fangman lamenta que “ainda não haja soluções – as pessoas estão falando daquilo que está acontecendo hoje”.

Se ela tivesse que escrever a reportagem hoje, Fangman disse, ela usaria uma linguagem ainda mais forte. Em seu trabalho de aconselhamento às vítimas, tornou-se muito mais claro o quão profundas são as feridas do abuso sexual, particularmente do abuso pelo clero. “Isso não agride apenas o espírito delas”, disse. “Isso também agride a alma delas, porque é a imagem de Cristo através do padre que está fazendo isso com elas.”

Ela e outras irmãs entrevistadas para este artigo enfatizaram que o abuso sexual de irmãs não se limita a uma geografia em particular. “Não é um problema africano, é um problema da Igreja”, disse Fangman. “É uma questão de poder – a diferença entre homens e mulheres e aqueles que têm o poder na Igreja.”

Poder e autoridade

A interação entre poder e autoridade da Igreja tem se desdobrado no caso da Índia. A ex-superiora da congregação das Missionárias de Jesus abriu um processo em junho contra Mulakkal, de Jalandhar, em Punjab, um Estado do norte da Índia que faz fronteira com o Paquistão, pelo fato de ele ter abusado sexualmente dela múltiplas vezes em seu convento em Kerala, um Estado ao sul. Ela disse que entrou com o processo depois que as denúncias às autoridades da Igreja não provocaram nenhuma reação.

Passaram-se meses sem nenhuma ação por parte das autoridades civis e das autoridades da Igreja. Cinco membros da congregação e outros apoiadores da freira se engajaram em um protesto público em setembro. Mulakkal foi preso em 21 de setembro, interrogado e liberado. Ele negou as acusações e caracterizou o caso como uma retaliação da freira por suas ações disciplinares contra ela.

O atraso na ação contra Mulakkal deixou as pessoas céticas sobre a alegação de tolerância zero da Igreja em relação ao abuso do clero, disse a Ir. Jesser Kurian, advogada da Suprema Corte na Índia, antes da prisão do bispo. Ela estava entre os 167 signatários da carta enviada em julho ao cardeal Oswald Gracias, de Mumbai, e ao arcebispo Giambattista Diquattro, núncio apostólico na Índia, para aconselhar o Papa Francisco a dispensar Mulakkal de seus deveres pastorais.

“A menos que Mulakkal seja dispensado de seus deveres pastorais, nenhuma investigação imparcial poderá ocorrer”, disse Kurian, membro das Irmãs de Santa Ana da Providência, de Secunderabad, que realiza cursos de formação sobre direitos humanos e leis indianas para vários grupos da Índia, incluindo freiras.

O abuso de freiras pelo clero na Índia veio à tona na reunião de 22 de fevereiro de 2016 do Fórum de Religiosos pela Justiça e Paz, um grupo de defesa das religiosas.

Os participantes, então, escreveram aos bispos e aos superiores religiosos que a violência sexual de religiosas não foi enfrentada, enquanto seus perpetradores escaparam da punição. “Isso não pode mais ser tolerado”, afirmaram.

Pouco parece ter mudado mesmo depois de dois anos, embora a Conferência dos Bispos da Índia tenha promulgado em 2017 as “Diretrizes para lidar com o assédio sexual no local de trabalho” [disponíveis aqui, em inglês], como parte de seus esforços para implementar a tolerância zero.

“Infelizmente, elas não foram divulgadas, e suas cópias não foram distribuídas nem mesmo entre os membros das congregações católicas da Índia”, lamenta a Ir. Noella de Souza, coordenadora nacional do Movimento de Mulheres Cristãs da Índia, de inspiração ecumênica.

Quando contatados, as autoridades da Conferência se recusaram a explicar como a Igreja implementou as diretrizes.

No entanto, Dom Leo Cornelio, arcebispo de Bhopal, prelado há muitos anos, disse ter informado seus padres e freiras sobre as diretrizes e ter criado mecanismos em sua arquidiocese para verificar os abusos do clero.

Outro prelado, Dom Clement Tirkey, bispo de Jalpaiguri e ex-membro da Comissão para as Mulheres da Conferência dos Bispos de Rito Latino da Índia, também disse que implementou as diretrizes em sua diocese no Estado de Bengala Ocidental.

Resistência aos abusos

Casos de abuso começaram a surgir depois que mais freiras começaram a se pronunciar contra a exploração, disse a Ir. Hazel D’Lima, das Filhas do Coração de Maria, ex-presidente da Seção Mulheres da Conferência dos Religiosos da Índia. Mas a tendência da Igreja a ignorar ou a silenciar esse caso irá prejudicá-la, adverte ela.

Ela diz que equívocos sobre o voto de obediência impedem que as freiras digam “não” quando isso é necessário. Ela deseja que as religiosas em formação sejam ensinadas a resistir aos abusos de qualquer um, incluindo de padres e bispos.

Astrid Lobo Gajiwala, teóloga leiga feminista, diz ter sabido de casos de abuso há 25 anos, quando foi convidada para falar com as superioras maiores.

“Naquela época, a preocupação dos participantes era explorar modos pelos quais eles poderiam apoiar essas vítimas, em vez de pedir-lhes para deixar o convento e, às vezes, dar à luz os seus bebês nas sombras”, lembra. Ela disse que notou muita raiva entre as freiras contra os padres que continuavam seu ministério e seu “comportamento desviante” mesmo depois de abusarem de freiras e mulheres.

As religiosas sabem agora que têm uma alternativa se a Igreja ignorar suas queixas, pois a Índia tem um ato de prevenção, proibição e correção do assédio sexual das mulheres no local de trabalho.

“Para a maioria dessas mulheres, ir à polícia não é a primeira opção. O abuso geralmente é trazido à tona apenas porque as vítimas não estão felizes com o modo como a Igreja lida com o assunto.”

No entanto, vir à público pode abrir outra forma de abuso, pois as acusadoras são criticadas por serem desleais com a Igreja. O caso envolvendo Mulakkal dividiu a comunidade católica na Índia entre aqueles que apoiam o bispo ou a freira. Os defensores da freira foram criticados por prejudicarem a reputação da Igreja. Uma religiosa pertencente a outra congregação que participou do protesto foi ameaçada de demissão.

Até mesmo a pesquisa de casos de abuso sexual traz riscos. Essa foi a dolorosa descoberta da Ir. Esperanza Principio, nas Filipinas. Ela foi coautora de um relatório sobre abusos sexuais por parte do clero nas Filipinas, apresentado em 2002 ao Conselho dos Bispos nas Filipinas. A pesquisa foi realizada pelo comitê de pesquisa da Comissão de Mulheres e Gênero da Associação dos Superiores Maiores de Mulheres nas Filipinas (AMRSWP, na sigla em inglês), depois que os bispos pediram fatos referentes às denúncias de abuso.

Os 29 casos de violência e má conduta por parte dos padres presentes no relatório incluíam alguns casos de tentativa de estupro e de assédio sexual de religiosas. O jornal Philippine Daily Inquirer escreveu sobre o relatório e a apresentação aos bispos em duas reportagens de primeira página em novembro de 2002.

A Ir. Principio, que tem mestrado em pesquisa aplicada, disse em uma entrevista ao Global Sisters Report que ela e sua coautora, a Ir. Leonila Bermisa, das Irmãs de Maryknoll, tomaram um grande cuidado com a pesquisa e apresentaram as descobertas aos bispos antes que se fizesse qualquer relatório público. No entanto, após a cobertura midiática sobre o relatório, a Ir. Principio disse ter sido criticada por um bispo de alto escalão, que mais tarde se tornou cardeal, em uma carta enviada a todas as congregações.

Atingida pela crítica e pela falta de apoio da sua congregação, ela foi instigada em poucos anos a mudar de congregação e a se tornar Maryknoll. Ela deixou as Filipinas em 2005 e agora atua no Peru, como parte da Rede Global de Religiões pelas Crianças, concentrando-se em responder ao abuso sexual de crianças e adolescentes.

Trazer casos de abuso à tona é “uma energia que pode ser transformada em um movimento positivo, pois agora as mulheres falam”, disse ela. “O movimento #MeToo envolve uma camada mais alta da sociedade – mas, a partir dos pueblos e das cidades, cada um deve ver que o abuso não é permissível em nenhuma camada e em nenhum lugar do mundo.”

Depois que o relatório de 2002 foi publicado, disse a Ir. Principio, as mulheres leigas das Filipinas tornaram-se mais corajosas para se pronunciar contra o abuso do clero. Um segundo estudo da Ir. Bermisa foi publicado pela Comissão de Mulheres e Gênero em 2011 no livro“ That She May Dance Again: Rising from Pain of Violence Against Women in the Philippine Catholic Church” [Que ela possa dançar de novo: levantar-se da dor da violência contra as mulheres na Igreja Católica filipina].

Chamar o abuso pelo nome

A Conferência dos Bispos das Filipinas, em 2003, publicou um protocolo e orientações pastorais sobre o abuso sexual, focadas principalmente no abuso de menores, mas também incluindo casos de padres que são pais de crianças. O documento não abordou especificamente o abuso de religiosas. Em setembro de 2018, a Conferência Episcopal emitiu outra declaração pedindo desculpas pelos abusos e prometendo não acobertar os casos. A Conferência não respondeu a um pedido por e-mail para comentar o caso ou oferecer informações sobre os protocolos, especificamente para os casos envolvendo religiosas.

“É uma realidade que pode ocorrer em qualquer congregação religiosa”, disse a Ir. Principio. “Elas devem ensinar suas irmãs a definirem o que é abuso, qual é o momento em que você está sendo usada – algumas irmãs são muito ingênuas, outras não”, acrescentou. “É importante que as congregações religiosas femininas se pronunciem e denunciem os abusadores, mesmo que sejam padres.”

Não há nenhuma formação uniforme sobre o abuso ou o assédio sexual – cada congregação tem o seu próprio programa de formação, disse a irmã beneditina Mary John Mananzan, copresidente do Escritório de Mulheres e Questões de Gênero da Associação dos Superiores Maiores das Filipinas. Sua congregação, as Irmãs Beneditinas Missionárias, “inclui um treinamento em conscientização de gênero que inclui especificamente as questões do assédio sexual, do estupro e todas as formas de violência de gênero”, disse ela por e-mail, afirmando que esse treinamento já remonta aos anos 1990.

O Escritório de Mulheres e Questões de Gênero oferece seminários de conscientização e empoderamento para as mulheres, que incluem todas as questões de gênero, em que as religiosas são as principais participantes, e cursos para os envolvidos na formação, para que possam incluir a conscientização de gênero em seus programas, disse ela.

Uma chave para evitar o abuso está nas próprias congregações, na criação de uma atmosfera de confiança e de apoio para que as irmãs sintam confiantes em relação aos superiores ou mentores sobre problemas de assédio ou diante dos primeiros sinais de abuso, disse a Ir. Florence Nwaonuma, ex-superiora geral das Irmãs do Sagrado Coração de Jesus e ex-presidente da Conferência das Religiosas da Nigéria.

Seminários e oficinas que tratam de temas como sexualidade, votos de celibato e castidade, e conscientização sobre questões do abuso fazem parte da formação inicial e também da formação permanente de irmãs com votos temporários e professas, disse ela.

As congregações precisam estar dispostas a chamar a atenção da hierarquia sobre os casos de abuso e a trabalhar para a sua resolução, disse ela. Ela encontrou mais casos de irmãs que sofrem abusos de poder por parte de padres e bispos, do que exploração sexual. Cerca de seis anos atrás, houve um caso em que um padre atacou sexualmente de uma irmã que trabalhava em uma paróquia. Quando ela resistiu, o padre reclamou ao bispo que ela era desobediente. A irmã foi ao encontro da Ir. Nwaonuma e contou o que havia acontecido.

A Ir. Nwaonuma queixou-se ao bispo sobre o comportamento do padre, defendeu a irmã, permitiu que ela continuasse sua formação e fizesse seus votos, e transferiu-a para outro ministério. Apesar da queixa, nenhuma sanção foi tomada contra o padre, que foi transferido para outra paróquia.

“Os homens negam o abuso, e é importante que as mulheres tenham igualdade de condições e sejam ouvidas”, disse ela. “As irmãs devem ser encorajadas a se pronunciar e a falar sobre o assédio ou o abuso, mas as superioras devem fazer com que a irmã confie nelas.”

O encorajamento de lideranças religiosas e de organizações de liderança para que as irmãs se pronunciem sobre casos de abuso, incluindo a denúncia às autoridades civis, é um sinal importante, disse a Ir. Bryant, que ajudou a criar o módulo de treinamento e está profundamente envolvida no ministério antitráfico de seres humanos. “O que me dá alguma esperança é que estamos ouvindo isso de mulheres na liderança”, disse ela. As declarações, ela disse, são “fortes e claras e não se retraem. A Igreja nunca se pronunciou com uma linguagem tão clara quanto essa”.

Muitas religiosas trabalham em ministérios que se concentram na capacitação de meninas e mulheres, incluindo o combate ao tráfico e à violência doméstica, observou ela. Essas lições devem ser aplicadas às próprias irmãs, para que reconheçam os processos de aliciamento usados pelos abusadores, muitas vezes através de uma atenção extra e de pequenos presentes.

O mais fundamental é a necessidade de mudar as dinâmicas que reforçam a ideia de que padres e bispos são especiais, que a sua autoridade não pode ser questionada, acrescentou. “Nós, irmãs, temos que parar de alimentar o clericalismo”, afirmou. “Este é o nosso tempo para empoderar os outros e para ajudar as vítimas.”

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