Diaconato. As mulheres podem reingressar às fileiras?

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08 Junho 2016

"A igreja compreende os diáconos como servos, não sacerdotes, que ministram como intermediários entre o bispo e as pessoas. Na verdade, as diáconas mulheres da história eram as intermediárias entre o bispo e as mulheres. Como Francisco observou, entre outras funções, elas atestavam e traziam reclamações de abuso conjugal ao bispo, além de ajudar com batismos do sexo feminino".  

A opinião é da teóloga norte-americana Phyllis Zagano, da Universidade de Hofstra , autora de  livros e artigos sobre mulheres diaconisas, entre eles, Women Deacons?: Essays with Answers (Liturgical Press, 2016), em artigo publicado por National Catholic Reporter, 30-05-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis o artigo.

O mais recente bombardeio dos vitrais de vidro veio do Papa Francisco em 12 de maio, ao falar para os 900 membros da União Internacional das Superioras Gerais (UISG) na Sala Paulo VI, em sua reunião trienal em Roma. "Diáconas mulheres?", ele foi questionado. Sim, respondeu, pedirei informações à Congregação para a Doutrina da Fé e também para que uma comissão estude a questão.

O que será esperado da comissão? Havia mulheres ordenadas como diáconas nos primórdios da Igreja. Isto é uma verdade histórica. O que elas fizeram, onde fizeram, e como tornaram-se diáconas são temas já bem conhecidos. Os fatos da história não podem ser alterados.

Então, a verdadeira questão que a comissão papal estudará é se as mulheres podem ser sacramentalmente ordenadas ao diaconato hoje. Isto é, as mulheres poderiam reingressar à categoria dos "diáconos permanentes" de agora?

As principais objeções são duas: as diáconas mulheres da história somente desempenhavam suas funções em relação a outras mulheres e não faziam o que os homens diáconos faziam; e as mulheres não podem receber o sacramento das ordens porque o sexo feminino não pode ser imagem de Cristo.

O argumento histórico não é conclusivo em direção alguma. Como o diaconato é uma criação da igreja (Atos 6: 1-6), é um ministério maleável de serviço. A objeção teológica invalida o dogma de que todos são feitos à imagem e semelhança de Deus. Não é o humano Jesus do sexo masculino, mas o Senhor ressuscitado que é sinal e símbolo de cada sacramento.

Depois do Vaticano II

Mesmo que alguns bispos tenham comentado sobre a reintegração de mulheres ao diaconato na época, o Concílio Vaticano II recomendou apenas o estabelecimento do diaconato como uma vocação permanente para os homens.

Em 1967, uma carta apostólica do Papa Paulo VI Sacrum Diaconatus Ordinem, "Regras Gerais para a Restauração do Diaconato Permanente na Igreja latina", descrevia atribuições e deveres dos diáconos. O que intrigou a Igreja na época era que os homens casados seriam ordenados como "diáconos permanentes." No Ocidente, até o século 12, as mulheres serviam permanentemente como diáconas.

Em 1968, as regras para novos ritos de ordenação afirmaram que a matéria da ordenação diaconal era a imposição de mãos feita pelo bispo e a forma era a oração de consagração realizada pelo bispo, que deve incluir uma epiclese, uma invocação do Espírito Santo. As liturgias existentes usadas para as mulheres incluem uma epiclese.

Em 1972, o ministeria Quaedam de Paulo VI suprimia as ordenações menores de porteiro, exorcista, leitor e de acólito. Paulo VI suprimia, mas confirmava o fato histórico da maior ordem de subdiáconos, um ponto importante, pois alguns documentos antigos listam a "diaconisa" entre subdiácono e diácono, portanto, entre as principais ordenações. Distinções linguísticas fazem com que alguns argumentem que "diaconisa" significa uma ordem distinta, mas onde não são mencionadas "diaconisas", mas apenas diáconos, mulheres diáconas estão mais provavelmente incluídas. Evidências literárias e epigráficas apoiam este fato.

Também em 1972, a carta apostólica Ad Pascendum de Paulo VI delineava ainda mais o diaconato, especificando-o como uma "ordem intermediária" entre "os postos mais altos da hierarquia da Igreja e o resto do povo de Deus ... e como um sinal ou sacramento de Cristo, o próprio Senhor, que 'não veio para ser servido, mas para servir' ".

Assim, a igreja compreende os diáconos como servos, não sacerdotes, que ministram como intermediários entre o bispo e as pessoas. Na verdade, as diáconas mulheres da história eram as intermediárias entre o bispo e as mulheres. Como Francisco observou, entre outras funções, elas atestavam e traziam reclamações de abuso conjugal ao bispo, além de ajudar com batismos do sexo feminino.

O que o diácono faz

Hoje, os membros desta "ordem intermediária" dos diáconos servem a igreja através da palavra, da liturgia e da caridade. Os diáconos são catequistas e pregadores; eles anunciam o Evangelho e lideram liturgias não-eucarísticas. Diáconos são o rosto da caridade da Igreja: eles servem aos doentes e aos pobres.

Na missa, o diácono é a ponte simbólica entre o celebrante e as pessoas. Na missa, apenas o diácono se remete diretamente à congregação: o diácono anuncia o Evangelho, o diácono leva a oração dos fiéis, o diácono eleva o cálice, o diácono anuncia a bênção final, o diácono dispensa a congregação.

A maioria do que o diácono faz, exceto em funções que exijam o estado clerical, não está mais restrita aos homens. É bastante bem compreendido, por ora, que após o encerramento do Concílio Vaticano II, Paulo VI perguntou à toda a Comissão Teológica Internacional ou a um ou mais de seus membros proeminentes sobre as mulheres diáconas. O especialista em liturgia oriental Cipriano Vagaggini publicou um denso artigo acadêmico (veja em NCRonline.org/node/79671 ou NCR, 20 de junho - 3 de julho de 2014, publicação impressa), demonstrando que as diáconas mulheres na tradições grega e bizantina foram verdadeiramente ordenadas a um diaconato ministerial e tinham deveres sagrados.

Philippe Delhaye, quando no cargo de secretário-geral da Comissão Teológica Internacional, escreveu um artigo ainda mais forte apoiando a ordenação sacramental das mulheres como diáconas. Mas nada veio diretamente da comissão.

Durante os anos 1970, o debate teológico sobre as diáconas continuou. Os principais candidatos eram Roger Gryson (1938-), hoje professor emérito de Patrística na Universidade Católica de Louvain, e Aimé-Georges Martimort (1911-2000), na época professor de história litúrgica no Instituto Católico de Toulouse. Utilizando-se de fontes idênticas para suas pesquisas, eles chegaram a conclusões opostas: Gryson argumentou que as mulheres poderiam ser ordenadas diáconas; Martimort argumentou que elas não podiam. No entanto, Martimort disse que o caso não havia sido completamente fechado.

Enquanto isso, o debate acadêmico e público sobre as mulheres como sacerdotisas tomou o foco central. Em 1976, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou a sua Inter Insigniores, "Declaração", sobre a questão da admissão das mulheres ao sacerdócio ministerial. Enquanto uma "declaração" é um simples pronunciamento da lei, a congregação argumentou duas razões para descartar as mulheres como madres: a Igreja não tinha autoridade para ordenar mulheres como madres porque Jesus escolheu apenas apóstolos do sexo masculino (o argumento de autoridade); e as mulheres não podem ser a imagem de Cristo (o argumento icônico).

Depois, a carta apostólica do Papa João Paulo II, de 1994, Ordinatio Sacerdotalis, "sobre reservar a ordenação sacerdotal apenas para homens" descartou a ordenação de mulheres, e com esclarecimentos da congregação doutrinária, declarou que a proibição deveria ser realizada "definitivamente". De suma é importância é o fato de este segundo breve documento ter descartado o argumento icônico.

Subcomissão reconfigurada

As chamadas públicas para mulheres sacerdotes fizeram submergir a questão do restabelecimento de mulheres ao diaconato, mas por volta de 1992, a Comissão Teológica Internacional criou uma subcomissão de oito homens para estudar o assunto. Muitos relatórios indicam que, em 1997, a Comissão concluiu o seu trabalho e produziu um documento positivo de 17 ou 18 páginas, que foi impresso e numerado, mas o prefeito da congregação doutrinária na época, o cardeal Joseph Ratzinger, recusou-se a assiná-lo, e enviou o documento de volta para um subcomitê reconfigurado, encabeçado por um de seus ex-alunos de pós-graduação.

Ao final da década de 1990, alguns dirigentes da cúria notaram que alguns bispos de países de língua alemã estavam preparando mulheres para a ordenação diaconal. Em 2001, uma "notificação" assinada pelos então prefeitos das Congregações para a Doutrina da Fé, do Clero e de Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos, essencialmente disseram que os bispos não deveriam preparar as mulheres para a ordenação diaconal, pois eles não previam mulheres sendo ordenadas.

Coincidentemente, alguns toques finais estavam sendo dados no documento de estudo reformulado pela Comissão Teológica Internacional, que já não focava exclusivamente em diáconas mulheres. Em 2002, "O Diaconato: Evolução e Perspectivas" surgiu com uma nota preliminar de que a subcomissão original não poderia "produzir um texto."

O documento do estudo de 2002 – quatro vezes maior que o primeiro texto - concluiu:

• As "diaconisas" da história não são a mesma coisa que os diáconos;

• A distinção entre o sacerdócio e o diaconato é sublinhada pela constante tradição da Igreja;

• "Ela pertence ao ministério de discernimento que o Senhor estabeleceu em sua igreja para pronunciar com autoridade sobre esta questão", isto é, a readmissão de mulheres ao diaconato ordenado.

Originalmente publicado em francês e num passado recente também em Inglês, Alemão, Húngaro, Italiano, Polaco, Português, Russo e Espanhol nas páginas da Web do Vaticano, o estudo tem alguns lapsos curiosos na documentação histórica. Também inclui várias passagens não citadas e paráfrases de um livro antigo de Gerhard Müller, naquela época padre e professor universitário, hoje cardeal e prefeito da Congregação doutrinal.

É importante ressaltar que a última palavra de Roma é um documento de estudo. Não é uma carta apostólica, nem uma constituição apostólica, nem uma declaração, nem uma notificação. São as conclusões de um grupo de homens liderados por um dos ex-alunos de pós-graduação de Ratzinger que incluem seções de um livro pelo atual prefeito doutrinário que, não por acaso, é o editor das obras completas de Ratzinger.

Mesmo assim, o documento mais recente proveniente da Cúria diz que sobre a questão das mulheres no diaconato cabe ao "ministério de discernimento que o Senhor deixou à sua Igreja decidir".

O diaconato e o sacerdócio - já claramente separados no ensino – tornaram-se ainda mais distintos em 2009, quando o Papa Bento XVI modificou a lei canônica para: "Aqueles que são constituídos na ordem do episcopado ou do presbiterato recebem a missão e a capacidade de agir na pessoa de Cristo, nosso Senhor, enquanto que os diáconos são capacitados para servir ao Povo de Deus nos ministérios da liturgia, da palavra e da caridade".

Esses ministérios ancestrais foram levados adiante por uma igreja crente e podem facilmente voltar a incluir as mulheres.

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