Diaconisas: "É preciso trazer o rosto feminino para a comunidade eclesial de maneira incisiva". Entrevista com Gianfranco Ravasi

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16 Maio 2016

Nos meios de comunicação, fez muito barulho a ideia, acolhida por Francisco, a pedido de algumas freiras recebidas em audiência, de instituir uma comissão de estudo sobre as funções diaconais que as mulheres desempenhavam na Igreja dos primeiros séculos.

A reportagem é de Aldo Maria Valli, publicada no seu blog Duc in altum, 13-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na realidade, a Comissão Teológica Internacional já elaborou um estudo no quinquênio de 1992 a 1997 e, depois, em 2003, publicou um texto específico, O diaconato: evolução e perspectivas.

Em todo o caso, as palavras de Francisco (que o Centro Televisivo Vaticano, curiosamente, não disponibilizou aos jornalistas) relançam um tema interessante sob muitos aspectos.

Falamos a respeito com o cardeal Gianfranco Ravasi, teólogo e biblista, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura.

Eis a entrevista.

Eminência, qual é a situação atual sobre o diaconato feminino?

Eu acredito que a constituição de uma nova comissão é necessária para conseguir estudar o que aconteceu nas origens do cristianismo. Nós sabemos que, no Novo Testamento, há duas passagens significativas, de São Paulo, que, escrevendo aos cristãos de Roma, saúda uma diaconisa chamada Febe (em grego Phoebe, isto é, luminosa, pura), pertencente à Igreja de Corinto, e, depois, quando fala dos diáconos, ocupa-se justamente das mulheres, explicando que elas devem possuir algumas qualidades humanas e morais de destaque, como ser sóbrias e não maldizentes. Isso significa claramente que, naquelas comunidades das origens, havia uma presença feminina que tinha algum encargo. Mas devemos acrescentar que a palavra diácono (do grego diakonos, servidor) é bastante genérica: de fato, indica um ministério, um serviço, que pode ser de diversos tipos. Pode envolver, por exemplo, o sustento aos pobres, mas não sabemos se também tinha funções estritamente litúrgicas, ligadas ao culto. É nessa frente que seria necessário aprofundar a pesquisa.

Portanto, do que se ocuparia a eventual comissão?

Ela deveria se ocupar, acima de tudo, do estudo da tradição, considerando que, a esse respeito, os testemunhos não param apenas no Novo Testamento, mas continuam. Por exemplo, temos um Padre da Igreja, Epifânio de Salamina (cerca de 315-403 d.C.) que fala explicitamente de uma função atribuída às mulheres, isto é, de prestar assistência durante o batismo administrado às catecúmenas. Na época, o batismo ocorria por imersão, e era uma diaconisa que se ocupava da mulher a ser batizada. Depois, temos as Constituições Apostólicas (uma espécie de manual sobre a disciplina, a doutrina e o culto, que remonta ao século IV) que fornecem indicações concretas no que diz respeito a essa função feminina. Portanto, deveremos estudar para ver como a Igreja viveu e interpretou tais experiências. Naturalmente, tudo isso não significa, como alguns defendem, dar um primeiro passo para o ingresso da mulher no sacerdócio, porque mesmo nesses textos antigos a função da mulher continua sendo bastante circunscrita.

Segundo o senhor, há o risco de que, mesmo na Igreja Católica, um pouco como aconteceu entre os anglicanos sobre essas questões – papel da mulher, sacerdócio feminino –, pode haver divisões?

Nós sabemos, por um lado, que João Paulo II e o próprio Papa Francisco reiteraram a grande tradição eclesial que afirmou a tipicidade do sacerdócio católico como sacerdócio masculino. Por outro lado, porém, é preciso dizer que nunca houve declarações relativas a outros ministérios mais específicos e circunscritos. Portanto, uma reflexão também poderia servir para dar valor a alguma função eclesial, litúrgica e social que poderia ser desempenhada pelas mulheres. E tudo isso, na minha opinião, não deveria criar dificuldades. Ao contrário, deveria ser um belo sinal da presença feminina dentro da Igreja, que é uma presença decisiva para a comunidade cristã, e não deve ser lida necessariamente sempre em chave clerical, com base no dilema "sacerdócio sim, sacerdócio não".

Mas, se realmente fosse para se chegar à figura da diaconisa, o que essa mulher faria a mais em relação ao que muitas mulheres já fazem nas paróquias e nas comunidades?

Definir a função de maneira mais institucional significaria, por um lado, chegar a atribuir às mulheres encargos no que diz respeito ao batismo, à celebração do matrimônio e ao anúncio da palavra de Deus dentro de contextos litúrgicos particulares (não necessariamente o da eucaristia), e, por outro, significaria dar um destaque formal oficial à mulher dentro das estruturas eclesiais, com funções bem precisas, bem delineadas. Seria um modo para trazer novamente o rosto feminino para a comunidade eclesial de maneira incisiva, como, aparentemente, ocorria nas comunidades cristãs dos primeiros séculos.

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