Diálogo inter-religioso: a importância do cardeal Jean-Louis Tauran

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28 Outubro 2011

Aos 68 anos, Jean-Louis Tauran é um homem frágil, de voz arruinada pela doença. Padre originário da região de Bordeaux, fez uma bela carreira na nunciatura (República Dominicana, Líbano, OSCEOrganização para a Segurança e Cooperação na Europa) e chegou a ocupar um dos postos mais importantes no Vaticano entre 1991 e 2003: secretário para as relações da Santa Sé com os Estados, na Secretaria de Estado. O que, em outras palavras, significa: ministro das Relações Exteriores. Sob esse título, ele tem estado na vanguarda com relação aos conflitos mundiais.

A reportagem é de Philippe Clanché, publicada na revista Témoignage Chrétien, n° 3463, 20-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Depois de alguns meses de retiro – o tempo para combater a doença –, o cardeal Tauran foi chamado por Bento XVI, perdido na sua estratégia inter-religiosa. O dicastério (ministério) para o diálogo inter-religioso, por algum tempo, foi unido ao da cultura do vivaz Paul Poupard. Ele recuperou sua autonomia em 2007, sob a responsabilidade do diplomata da Gironde (Tauran).

Tauran reconhece os anos dedicados do início do pontificado, e a "gafe" de Regensburg (1) lhe inspira um comentário duplo: "Um jornalista errou a tradução, e a Santa Sé preparou mal a comunicação". "Bento XVI se deu conta de que esse diálogo era uma necessidade. Sendo uma pessoa inteligente, ele teve uma evolução", diz ele, sorrindo e com uma franqueza rara em um alto prelado.

Depois da sua chegada, como verdadeiro conhecedor do mundo muçulmano, as gafes acabaram. "O fato de me chamar queria dizer alguma coisa. O meu cartão de visita era a minha experiência durante a guerra no Iraque".

Ele não tem medo de surpreender, de ir contra a corrente. Há quem diga que Deus desapareceu do Ocidente. "Jamais se falou tanto sobre Deus", rebate o cardeal, que continua com uma pergunta maliciosa. "E como Deus voltou ao centro da nossa sociedade? Graças aos muçulmanos! Na Europa, eles têm um ou várias comunidades importantes, que pedem um espaço para Deus na sociedade". Uma linha que não é unânime na galáxia cristã. "Desde então, eles são o alvo dos católicos tradicionalistas", admite, sem medo nem remorso.

Atento para evitar o equívoco. Não se pode acusar o cardeal Tauran de angelismo, já que às vezes ele é muito duro com os fiéis muçulmanos. "Na França, eu fico impressionado com a sua arrogância, o seu modo de afirmar que são o bastião em defesa da moralidade contra o Ocidente decadente, e que sabem transmitir os seus valores religiosos aos seus jovens. Entendo que é uma coisa que irrita".

Nem mesmo fora do Velho Continente o prelado é mais terno quando fala dos ataques anticristãos e do assassinato de um ministro no Paquistão. "É bom pensar que não é o Islã, mas o fato ocorreu. Os muçulmanos não distinguem entre temporal e espiritual. Não se pode negar que, nos países de maioria islâmica, exceto no Líbano, os não muçulmanos são cidadãos de segunda categoria. Fundamentalmente, o Islã é uma conquista".

Quando lhe dizemos que Joseph Ratzinger jamais havia falado com um muçulmano de qualquer tendência antes da sua eleição, o cardeal respondeu sem pestanejar: "Há pouquíssimos deles do nível de Ratzinger". Acrescentando, para não se deter no aspecto crítico: "É preciso ajudá-los a formar elites." Jamais minimizar os problemas e jamais entrar em desespero. Mesmo enfrentando um ponto muito difícil dos diálogos entre as religiões – o Oriente Médio –, Jean-Louis Tauran evita falar diplomaticamente. "A comunidade internacional tem a sua responsabilidade. Enquanto deixarmos os palestinos contra Israel e os Estados Unidos, não teremos saída. É preciso que todos os países se comprometam. Os Estados Unidos não podem ser mediadores, porque eles fazem parte do problema (e da solução), unindo-se a Israel". Quanto a Obama: "Ele tem ideias, mas não uma estratégia. Esse é o problema".

Tudo isso não basta para desencorajar o nosso homem que se define como "absolutamente a favor do diálogo". Não por bondade, mas por necessidade. "Estamos condenados ao diálogo. Quanto mais complicado, mais é preciso dialogar". Ele transforma essa necessidade em oportunidade. "Se somos verdadeiros cristãos, não devemos temer o Islã. O diálogo inter-religioso nos incentiva a aprofundar a nossa fé e a testemunhá-la mais. Se eu interrogo o muçulmano sobre a sua fé, ele me faz a mesma pergunta e me obriga a responder". E esse é o problema para o cardeal. Para conseguir dialogar, é preciso que a nossa fé seja clara para nós. E, nesse campo, os cristãos estão em mais dificuldade.

A prioridade, em sua opinião, deve ser dada à educação. "Não podemos aceitar que, em alguns países árabes, os livros de história chamem cristãos de "os infiéis"". No lado católico, as coisas vão um pouco melhor, mesmo que o cardeal nos conte o silêncio eloquente que teve como resposta quando, um dia, perguntou aos seminaristas espanhóis quem dentre eles já havia aberto o Alcorão. Ele é muito lúcido sobre o compromisso dos católicos no diálogo. "Refere-se a uma pequena minoria, pessoas comprometidas politicamente. Em Roma, não se entende esse aspecto político, que não deve ser ignorado", indica de passagem esse antigo frequentador dos corredores do Vaticano que gostaria que houvesse mais diálogo... entre os vários departamentos da Santa Sé.

Hoje, o cardeal gira pelo mundo e convida a um diálogo que ele define com fórmulas eficazes. "Não é nem uma tentativa de conversão entre amigos, nem uma negociação diplomática, nem a busca de uma religião universal. Ao contrário, é uma peregrinação, uma busca para compreender com a ajuda da razão". Jean-Louis Tauran propõe que se viva o percurso do diálogo em três tempos: "Afirmar o que eu sou e em que creio. Ver o que eu tenho em comum com o outro. Colocar esse algo comum à disposição da sociedade e para o seu próprio bem".

Em Roma, aquele que o jornalista do La Croix Frédéric Mounier chama de "o último grande francês da Curia" é um personagem "muito respeitado". O seu "fio de voz" não impediu que Bento XVI o nomeasse, em fevereiro passado, cardeal protodiácono, com o encargo de pronunciar, quando chegar o momento, o famoso "habemus papam" para anunciar o novo pontífice.

Anita Bourdin, da agência Zenit, aprecia nele "um homem ao mesmo tempo doce e enérgico, de uma inteligência excepcional, que não se faz pesar aos interlocutores". "Profundamente evangélico", confirma Frédéric Mounier.

Notas:

1) Em um discurso em Regensburg, em setembro de 2006, o papa havia citado um texto do século XIV, repetindo uma afirmação equívoca de um dirigente cristão sobre o Islã. Uma onda de protestos e de violência ocorreu depois dessa conferência e depois das suas interpretações às vezes incorretas.

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