No pontificado de Francisco, o vento de Aparecida, 10 anos depois

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31 Maio 2017

Aparecida foi um verdadeiro acontecimento eclesial. E dizemos isso para realçar a experiência de que, em Aparecida, a realidade foi ‘superior à ideia’: a realidade do acontecimento foi superior às ideias que foram discutidas, votadas, escritas e corrigidas durante a Conferência e, mais tarde, na versão final aprovada pela Santa Sé.”

Dez anos depois. Um evento eclesial que se revelou determinante não só para a vida do subcontinente, mas também para a da Igreja universal. É assim que, a dez anos da sua celebração (11 a 31 de maio de 2007), é recordada a Quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, que ocorreu na cidade brasileira de Aparecida. Uma continuidade ideal com o magistério de Francisco.

A opinião é do jesuíta argentino Diego Fares, membro do Colégio de Escritores da revista La Civiltà Cattolica, em artigo publicado por L’Osservatore Romano, 24-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No mundo, dissolveu-se aquela atmosfera otimista, que se desenvolveu no pós-guerra, que dava ao “centro” a segurança de alcançar o futuro e, à “periferia”, a impaciência diante das dificuldades de alcançá-lo. Hoje, encontramo-nos diante de um mundo mais duro (basta pensar nos muros construídos para manter longe os imigrantes) e mais cético em relação aos projetos inclusivos e de longo prazo.

No entanto, na Igreja, sopra um vento diferente, respira-se um ar fresco e novo. É importante notar que esse ar fresco trazido pelo Papa Francisco não é algo improvisado ou exclusivamente dele. Teve um precedente em Aparecida, onde o modo de trabalho sinodal, encorajado pelo cardeal Bergoglio, então presidente da Comissão de Redação do documento final, suscitou na assembleia a maturidade humilde de um consenso compacto.

Aparecida foi um verdadeiro acontecimento eclesial. E dizemos isso para realçar a experiência de que, em Aparecida, a realidade foi “superior à ideia”: a realidade do acontecimento foi superior às ideias que foram discutidas, votadas, escritas e corrigidas durante a Conferência e, mais tarde, na versão final aprovada pela Santa Sé.

Embora permaneça em aberto o tema do valor teológico e jurídico das Conferências Episcopais, é inegável que, na América Latina, elas sempre tiveram aquela que poderíamos definir como uma “autoridade pastoral”. Fiéis, sacerdotes e bispos têm trabalhado sobre os documentos assim que são publicados. Desde meados do século passado, as Conferências marcaram etapas de consciência e novos passos à frente no caminho do povo de Deus na América Latina e no Caribe.

Com a eleição do Papa Francisco, a Quinta Conferência de Aparecida adquiriu, além disso, uma dimensão não só continental, mas também universal. O Papa Francisco, na exortação apostólica Evangelii gaudium, deu um novo impulso às Conferências, retomando a visão do Vaticano II e desejando que seja “explicitado um estatuto das conferências episcopais que as considere como sujeitos de atribuições concretas, incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal” (n. 32).

Se pensarmos em que grande evento foi o Concílio Vaticano II, constatamos que, 50 anos depois, ainda estamos tentando colocar em prática muitas das inspirações que o Espírito deu aos Padres conciliares. Os frutos de Aparecida – uma Conferência subcontinental importante, mas relativamente pequena – foram estendidos à Igreja universal, e muito além das suas fronteiras, graças ao impulso que o Papa Francisco deu a uma evangelização que torna o povo de Deus, no seu conjunto, em “discípulo missionário”, como queria o Vaticano II. Essa evangelização se realiza “em um eflúvio de gratidão e de alegria”, com um olhar espiritual que sabe discernir uma única crise – ecológica e social: a boa notícia da destinação universal dos bens e da ecologia – e uma cristologia encarnada que sabe ver Cristo nos pobres.

Durante a Conferência, todas as manhãs, o dia começava com uma Eucaristia concelebrada, da qual participavam as multidões de fiéis que iam ao santuário. Na quarta-feira 16 de maio, quando o cardeal Bergoglio concluiu a sua homilia em espanhol, ele foi aplaudido por toda a assembleia. O aplauso – que nunca tinha sido verificado antes e que não se repetiu nas homilias posteriores – despertou em muitos a consciência de que tinha sido dito algo importante e que o povo fiel de Deus tinha entendido.

O que disse de especial aquele cardeal argentino, eleito no dia anterior para presidir a Comissão de Redação, que teria a difícil tarefa de traduzir em um documento tudo o que se discutiria e decidiria em Aparecida? Naquela “homilia aplaudida”, que o cardeal Bergoglio escreveu de madrugada, podemos descobrir, de modo surpreendente, a fonte remota do seu pontificado.

O que despertou o aplauso foi uma passagem que, porém, permaneceu em suspenso, porque o cardeal se deteve para descrever a mansa imagem de São Turíbio de Mogrovejo, que, em 1606, morreu depois de 22 anos de episcopado, dos quais 18 foram transcorridos percorrendo a sua imensa diocese, enquanto um índio tocava a sua flauta tradicional, para que a alma do seu pastor repousasse em paz.

A passagem em questão dizia assim: “Não queremos ser uma Igreja autorreferencial, mas missionária; não queremos ser uma Igreja gnóstica, mas adoradora e orante. Povo e pastores, constituindo esse santo povo fiel de Deus, que goza da infalibilitas in credendo, todos juntos com o papa, povo e pastores, dialogamos segundo o Espírito nos inspira, e rezamos juntos e construímos a Igreja juntos, ou, melhor, somos instrumentos do Espírito que a constrói”.

Podemos imaginar uma ponte que une idealmente essa homilia com a concepção do Vaticano II sobre o povo fiel de Deus e com a primeira saudação do Papa Francisco, quando, inclinando a cabeça, pediu a sua bênção ao povo fiel, depois de dizer: “E, agora, começamos esse caminho: bispo e povo”. Essa ponte estende-se à sua primeira missa com os cardeais, na qual ele falou de “caminhar” e “edificar”, e continua se estendendo todas as vezes em que o Espírito impulsiona o Papa Francisco – como, no seu tempo, impulsionou São Turíbio – a sair para as periferias e dialogar com todos.

Alguns dias antes da missa inaugural, o Papa Bento XVI também recordara o Espírito com uma expressão original dos Atos dos Apóstolos: “O Espírito Santo e nós” (Atos dos Apóstolos 15,28 - Nota de IHU On-Line). Bento XVI afirmou que cada cultura autêntica é aberta e não fechada; que o Evangelho – por mais que possa ser ofuscado por instrumentalizações de vários tipos – nunca aliena; e que os povos originários que sobreviveram tiveram a sabedoria e a grandeza de conseguir inculturar o Evangelho no mesmo momento em que rejeitavam – e continuam rejeitando – tudo o que significou imposição de estruturas antievangélicas. São afirmações que permitem pensar na realidade histórica e atual do subcontinente sem cair nas ideologias.

Bento XVI também afirmara – no contexto da pergunta sobre a realidade que inclui Deus e sobre a cultura do encontro – que “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com a sua pobreza (cfr. 2Co 8, 9)”. O Documento de Aparecida desenvolveu o ponto 8.3 precisamente com base nesta frase de Bento XVI: “Essa opção nasce de nossa fé em Jesus Cristo, o Deus feito homem, que se fez nosso irmão (cf. Hb 2,11-12). Opção, no entanto, não exclusiva, nem excludente. Se essa opção está implícita na fé cristológica, os cristãos, como discípulos e missionários, são chamados a contemplar, nos rostos sofredores de nossos irmãos, o rosto de Cristo que nos chama a servi-lo neles: ‘Os rostos sofredores dos pobres são rostos sofredores de Cristo’” (nn. 392-393).

Não é preciso trazer muitos exemplos para mostrar a clara opção preferencial pelos pobres defendida pelo Papa Francisco. Mas é bom lembrar que essa opção é cristológica, como afirmou Bento XVI. Todas as vezes que o Papa Francisco fala dos pobres, ele está fazendo cristologia. Uma cristologia do tipo mais elevado e encarnado, porque quem não confessa Cristo que veio na carne não é do Espírito. O sentido do pobre é a essência do cristianismo, como afirmava São Alberto Hurtado.

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