No documento de Aparecida já estão muitos dos temas da próxima encíclica

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Por: André | 18 Junho 2015

Na América Latina e no Caribe está havendo uma tomada de consciência de que a natureza é um bem gratuito recebido como herança e que deve ser protegida enquanto espaço precioso para a convivência humana. “Esta herança muitas vezes se manifesta frágil e indefesa diante dos poderes econômicos e tecnológicos. Por isso, como profetas da vida, queremos insistir que, nas intervenções sobre os recursos naturais, não predominem os interesses de grupos econômicos que arrasam irracionalmente as fontes de vida, em prejuízo de nações inteiras e da própria humanidade” (n. 471). Esta é uma das passagens dedicadas à questão ambiental do Documento de Aparecida, de 2007.

A reportagem é de Francesco Peloso e publicada por Vatican Insider, 16-06-2015. A tradução é de André Langer.

O texto é fruto dos trabalhos da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe que aconteceu por ocasião da viagem de Bento XVI ao Brasil. E teve um papel determinante na redação do documento justamente o cardeal Jorge Mario Bergoglio, então arcebispo de Buenos Aires, que conseguiu ser um intermediário entre as diferentes sensibilidades eclesiais da região e ao mesmo tempo deu uma grande contribuição pessoal a um texto que muitas vezes é citado para desentranhar as prioridades pastorais e o pensamento do atual Pontífice.

Entre os diferentes aspectos enfrentados está o do meio ambiente, uma questão que assume particular significado nestes dias, pois está por ser publicada a Encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco. Na primeira parte do documento destaca-se que a preservação da natureza é, com frequência, subordinada ao desenvolvimento econômico, uma decisão que provoca danos à biodiversidade, facilita a extinção das reservas de água e de outros recursos naturais, além de aumentar a contaminação e a mudança climática.

Uma série de parágrafos do capítulo 9 do Documento de Aparecida é dedicada ao “cuidado com o meio ambiente”. Em suas páginas, pois, pode-se encontrar diferentes temas, preocupações e diretrizes pastorais relacionadas com as questões ecológicas, inclusive a “ecologia humana”, sobre a qual se falou nas últimas semanas e que é um dos pontos fundamentais do magistério de Bergoglio. “As gerações que nos sucederão têm direito a receber um mundo habitável e não um planeta com ar contaminado. Felizmente, em algumas escolas católicas, começou-se a introduzir entre as disciplinas uma educação para a responsabilidade ecológica” (n. 471).

“A Igreja – lê-se na sequência – agradece a todos os que se ocupam com a defesa da vida e do ambiente. É necessário dar especial importância à mais grave destruição em curso da ecologia humana. A Igreja está próxima aos camponeses que, com amor generoso, trabalham duramente a terra para tirar, às vezes em condições sumamente difíceis, o sustento para suas famílias e levar os frutos da terra a todos” (n. 472).

“No desígnio maravilhoso de Deus – explica-se em relação com a tradição cristã –, o homem e a mulher são chamados a viver em comunhão com Ele, em comunhão entre si e com toda a criação” (n. 470). O documento também enfrenta alguns temas fortes da questão ambiental, a partir da realidade da América Latina e do Caribe, onde as mutações dos fenômenos climáticos e a exploração indiscriminada dos recursos representam um problema central para o desenvolvimento e o futuro da região.

Neste sentido, do documento surge de maneira significativa o peso que teve a experiência latino-americana do Papa e de muitos bispos em relação ao desenvolvimento de uma reflexão sobre a defesa da Criação, como, por exemplo, a difícil luta pela preservação da floresta tropical amazônica. O texto, depois, descreve um percurso no qual se pode observar a origem de uma sensibilidade na qual a natureza, o ambiente humano, as decisões políticas e o anúncio evangélico se entrelaçam.

“A riqueza natural da América Latina e do Caribe – lê-se no Documento de Aparecida – experimenta hoje uma exploração irracional que vai deixando um rastro de dilapidação, inclusive de morte, por toda a nossa região. Em todo esse processo, tem enorme responsabilidade o atual modelo econômico, que privilegia o desmedido afã pela riqueza, acima da vida das pessoas e dos povos e do respeito racional pela natureza” (n. 473).

“A devastação – continua o texto – de nossas florestas e da biodiversidade mediante uma atitude depredadora e egoísta, envolve a responsabilidade moral dos que a promovem, porque coloca em perigo a vida de milhões de pessoas e em especial o habitat dos camponeses e indígenas, que são expulsos para as terras improdutivas e as grandes cidades para viverem amontoados nos cinturões de miséria” (n. 473).

Por isso, é necessário um desenvolvimento agro-industrial para dar valor às riquezas da terra oferecendo as próprias capacidades humanas a serviço do bem comum. No entanto, escreveram os bispos latino-americanos, “não podemos deixar de mencionar os problemas de uma industrialização selvagem e descontrolada de nossas cidades e do campo, que vai contaminando o ambiente com todo tipo de dejetos orgânicos e químicos” (n. 473).

O documento também alerta para os danos provocados pela indústria de extração que muitas vezes tem efeitos prejudiciais para o meio ambiente e constitui a causa do desaparecimento de florestas e da contaminação da água, enquanto transforma as zonas exploradas em imensos desertos.

Diante deste marco dramático da exploração ambiental, o documento trata de oferecer algumas respostas a partir da evangelização de “nossos povos para que descubram o dom da criação, sabendo contemplá-la e cuidá-la como casa de todos os seres vivos e matriz da vida do planeta, a fim de exercitar responsavelmente o senhorio humano sobre a terra e os recursos, para que possa render todos os frutos em sua destinação universal, educando para um estilo de vida de sobriedade e austeridade solidárias” (n. 474 a).

Destaca-se, além disso, que uma presença pastoral incisiva entre as populações mais frágeis e ameaçadas por “um desenvolvimento predatório” (n. 474 b) serve de apoio no objetivo de uma distribuição justa da terra, da água e dos espaços urbanos. Por isso, é necessário “um modelo de desenvolvimento alternativo, integral e solidário, baseado numa ética que inclua a responsabilidade por uma autêntica ecologia natural e humana, que se fundamenta no evangelho da justiça, da solidariedade e do destino universal dos bens, e que supere a lógica utilitarista e individualista, que não submete os poderes econômicos e tecnológicos a critérios éticos. Portanto, estimular os nossos camponeses para a se organizarem de tal maneira que possam conseguir sua justa reivindicação” (n. 474 c).

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