Papa Francisco e as vítimas de abusos no Chile: uma autocrítica radical e pública, mas apenas um primeiro passo

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30 Abril 2018

O Papa Francisco dedicou este fim de semana para encontros separados com três vítimas de um notório padre-predador chileno: Fernando Karadima, carismático animador paroquial em Santiago do Chile, finalmente privado da túnica em 2011, após anos de encobrimentos vergonhosos.

A reportagem é de Marco Politi, publicada por Il Fatto Quotidiano, 29-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Para Francisco, o encontro com Juan Carlos Cruz, James Hamilton e José Andrés Murillo, hóspedes na sua residência de Santa Marta, é um momento muito particular do pontificado. Bento XVI também se encontrou nas suas viagens com vítimas de abusos clericais, mas já eram histórias concluídas, e o Papa Ratzinger, em alguns aspectos, se apresentava como super-partes, representando “de cima” a dor da Igreja pelos crimes perpetrados.

Ao contrário, quando se tratou de encontrar vítimas que podiam lhe lembrar de encobrimentos vaticanos dos quais, como ex-prefeito do Santo Ofício, tinha sido testemunha pessoalmente e contra os quais não tinha lutado – como no caso do inexistente processo eclesiástico contra os crimes de Marcial Maciel, líder dos Legionários de Cristo –, Ratzinger evitou o encontro.

Os três chilenos, chamados para conversas separadas por Francisco, por sua vez, são testemunhas de um caso ainda aberto e sobre o qual o Papa Bergoglio tinha negado pública e repetidamente que houvesse algo a condenar. É o caso da “corte” que o padre-predador Karadima tinha criado ao seu redor e dos “discípulos” entusiasmados que o flanqueavam. Quatro deles se tornaram bispos no Chile. E um, Dom Juan Barros, nomeado por Bergoglio como bispo de Osorno em 2015, foi diretamente posto em causa como testemunha ocular e silenciosa das lascívias de Karadima: um personagem, portanto, indigno de ocupar uma cátedra episcopal.

“Calúnias”, exclamou o Papa Francisco, quando, em 2015, eclodiram duras manifestações contra Barros na diocese de Osorno. Incidentes provocados por esquerdistas, continuou o pontífice. “Não há provas”, declarou ele ainda no início de sua visita ao Chile em janeiro passado.

Mas precisamente as fortes polêmicas que explodiram por ocasião daquela viagem levaram Francisco a abrir os olhos, enviando depois ao Chile o “investigador especial” Dom Scicluna (que cresceu no Santo Ofício e é atual arcebispo de Malta), que, em pouco tempo, levou ao pontífice um relatório sério e completo de 2.300 páginas, que traz à tona muitos detalhes e descreve as vítimas-testemunhas-acusadoras como pessoas totalmente credíveis.

Nasceu daí a uma carta de certo modo extraordinária que Francisco enviou aos bispos chilenos em 8 de abril, na qual os convoca para maio e, no que lhe diz respeito, admite sem meios termos: “Reconheço, e assim quero que o transmitam fielmente, que incorri em graves equívocos de avaliação e percepção da situação, especialmente pela falta de informação veraz e equilibrada. Já desde agora, peço perdão a todos aqueles aos que ofendi e espero poder fazer isso pessoalmente, nas próximas semanas, nas reuniões que terei com representantes das pessoas entrevistadas (vítimas e testemunhas)”. Uma autocrítica radical e pública, com expressões que jamais apareceram na boca de um pontífice.

O caso, porém, não se encerra com esse gesto, que, se por um lado demonstra a coragem espiritual de Francisco, por outro abre interrogações muito pesadas sobre a (não)vigilância no Vaticano e dentro da Conferência Episcopal do Chile sobre o caso Barros.

A primeira questão é estrutural. É possível que, todas as vezes, seja necessário o toque especial do “investigador” Scicluna para trazer à tona crimes e cumplicidades, que deveriam ser sinalizadas automaticamente tanto pelas hierarquias eclesiásticas locais, quanto pelos órgãos no Vaticano?

De 2015 a janeiro de 2018, nem a Congregação para os Bispos nem a Congregação para a Doutrina da Fé parecem ter encontrado algo a dizer sobre Barros. E nem sequer a cúpula da Conferência Episcopal do Chile alertou o pontífice de que podia ser imprudente definir como “calúnias sem provas” as acusações contra o bispo Barros (que, aliás, chegaram ao pontífice por meio de Juan Carlos Cruz, através de uma carta, que lhe foi entregue pelo cardeal de Boston, O’Malley, ainda em 2015).

Mas o aspecto mais grave do caso diz respeito ao cardeal Francisco Javier Errázuriz, ex-arcebispo de Santiago do Chile durante os anos do acobertamento do caso Karadima e atualmente membro do “conselho da coroa” de Francisco, o Conselho dos nove cardeais. Quando o papa denuncia que houve uma “falta de informação veraz e equilibrada”, que papel o cardeal Errázuriz desempenhou? Portanto, não bastará o encontro do pontífice para pôr fim ao caso. Ao contrário, a partir da próxima reunião entre Francisco e os bispos chilenos, deverão surgir escolhas operacionais e decisões precisas sobre as pessoas. No Chile, certamente, mas também na dimensão vaticana.

De fato, fica evidente que três chilenos que sobreviveram aos abusos não se apresentam em Santa Marta como vítimas à espera de consolo, mas como pessoas que pedem contas ao pontífice sobre as escolhas que fará. “Vou ouvi-lo”, disse Juan Carlos Cruz, assim que chegou a Roma. “Tive uma conversa respeitosa e franca com o papa”, disse José Andrés Murillo, o primeiro a tornar pública a sua conversa com Francisco, acrescentando que é preciso “assumir as responsabilidades” e que a Igreja “seja uma aliada” (das pessoas maltratadas) e “não abusadora”. Palavras claras.

Por outro lado, Murillo definiu a conversa que durou duas horas de “respeitosa e franca”. Como os diplomatas, quando registram convergências e desacordos.

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