Papa Francisco recebeu carta de vítima de abuso sexual que contradiz negação

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07 Fevereiro 2018

Em 2015, o Papa Francisco recebeu uma carta de uma vítima detalhando graficamente como um padre abusou sexualmente dele e outros clérigos chilenos ignoraram, o que contradiz a insistência recente do Papa de que nenhuma vítima denunciou o encobrimento, disseram autor da carta e membros da comissão de abusos sexuais criada pelo próprio Francisco à Associated Press.

A reportagem foi publicada por National Catholic Reporter, 05-02-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O fato de Francisco ter recebido a carta de oito páginas, que chegou à AP, desafia seu discurso de ter "tolerância zero" a encobrimentos e abuso sexual. E também coloca em causa a empatia que declara ter às vítimas de abuso, compondo a crise mais grave de seus cinco anos de papado.

O escândalo explodiu no mês passado, quando a viagem de Francisco para a América do Sul foi marcada por protestos frente à defesa vigorosa do bispo Juan Barros, que é acusado por vítimas de encobrir abusos cometidos pelo padre Fernando Karadima.

Durante a viagem, Francisco insensivelmente rejeitou as acusações contra Barros, considerando-as "calúnia". Aparentemente, não sabia que as vítimas tinham-no colocado na cena dos crimes de Karadima.

No avião, voltando para casa, ao ser confrontado por um repórter da AP, o Papa disse: “Você, com toda a boa vontade, diz que existem vítimas, mas eu não vi nada, porque elas não se apresentaram."

Mas membros da Comissão do Papa para a Proteção de Menores dizem que em abril de 2015 enviaram uma delegação a Roma especificamente para entregar uma carta sobre Barros ao Papa, em mãos. A carta de Juan Carlos Cruz detalhava o abuso, os beijos e carícias que sofreu nas mãos de Karadima, que, segundo ele, Barros e outros testemunharam e ignoraram.

Quatro membros da comissão reuniram-se com o principal conselheiro sobre abuso de Francisco, o cardeal Sean O'Malley, explicaram suas objeções sobre a recente nomeação de Barros para bispo no sul do Chile por Francisco e deram-lhe a carta para que entregasse a Francisco.

"Quando demos a carta [a O'Malley] para entregar ao Papa, ele nos garantiu que daria ao Papa e falaria sobre as preocupações", disse Marie Collins, que na época fazia parte da comissão, à AP. "E depois nos garantiu que tinha entregado”.

Cruz, que agora mora e trabalha na Filadélfia, ouviu a mesma coisa mais tarde naquele ano.

"O cardeal O'Malley me ligou depois da visita do Papa aqui na Filadélfia e me disse, entre outras coisas, que tinha entregado a carta ao Papa — em mãos", disse, em uma entrevista em sua casa no domingo.

Nem o Vaticano nem O'Malley respondeu a vários pedidos para comentar sobre o caso.

Embora o encontro de 2015 da comissão de Francisco tenha sido divulgado na época, o conteúdo da carta de Cruz — e uma fotografia de Collins entregando-a para O'Malley — não foram revelados pelos membros. Cruz mostrou a carta, e Collins mostrou a foto, depois de ler um artigo da AP relatando que Francisco havia afirmado que nunca tinha ouvido nada sobre o comportamento de Barros de nenhuma vítima de Karadima.

O primeiro choque causado pelo caso de Barros aconteceu em janeiro de 2015, quando Francisco o nomeou bispo de Osorno, no Chile, apesar das objeções da liderança da Conferência dos Bispos do Chile e de muitos sacerdotes e leigos locais. Eles consideraram credível o testemunho contra Karadima, um importante clérigo chileno que foi punido pelo Vaticano em 2011 por abuso de menores. Barros era um dos protegidos de Karadima e, de acordo com Cruz e outras vítimas, testemunhou o abuso e não fez nada.

"Santo Padre, escrevo esta carta porque estou cansado de lutar, chorar e sofrer", relatou Cruz em espanhol, língua nativa de Francisco. "Nossa história é bem conhecida, e não há necessidade de repeti-la, exceto para contar o horror de ter vivido este abuso e da vontade que eu tinha de me matar".

Cruz e outras vítimas denunciaram o encobrimento dos crimes de Karadima durante anos, mas foram considerados mentirosos pela hierarquia da Igreja chilena e pelo próprio embaixador do Vaticano em Santiago, que recusou seus reiterados pedidos de se encontrar com eles antes e depois da nomeação de Barros.

Após os comentários de Francisco apoiando a hierarquia chilena terem causado tantos protestos no Chile, ele teve que fazer uma reviravolta na semana passada: o Vaticano anunciou que estava enviando seu mais respeitado investigador de crimes sexuais para ouvir o testemunho de Cruz e de outros sobre Barros.

Na carta ao Papa, Cruz implora para que ele o escute e cumpra sua promessa de "tolerância zero".

"Santo Padre, já é suficientemente ruim termos sofrido uma enorme dor e angústia pelo abuso sexual e psicológico, mas a forma terrível com que fomos tratados pelos nossos pastores é quase pior", escreveu ele.

Cruz detalha explicitamente a natureza homoerotizada do círculo de sacerdotes e rapazes em torno de Karadima, o carismático pregador cuja comunidade de El Bosque, no bairro próspero de Providencia, em Santiago, produziu dezenas de vocações sacerdotais e cinco bispos, incluindo Barros.

Ele descreveu como Karadima beijava Barros e acariciava seus órgãos genitais, o que depois também fazia com os sacerdotes mais jovens e os adolescentes, e que os jovens sacerdotes e seminaristas brigavam para sentar ao lado de Karadima à mesa para receber suas carícias.

"Mais duro e mais difícil era quando estávamos no quarto de Karadima e Juan Barros — se não estivesse beijando Karadima — ficava assistindo enquanto ele nos tocava — os menores — e nos forçava a beijá-lo, dizendo: 'Coloque sua boca perto da minha e coloque a língua para fora.' Ele colocava a língua para fora e nos dava um beijo de língua", disse Cruz ao Papa. "Juan Barros foi testemunha inúmeras vezes, não só comigo, mas também com outros."

"Juan Barros encobriu tudo o que vos contei", acrescentou.

Barros negou ter testemunhado qualquer tipo de abuso ou de tê-los encoberto diversas vezes. "Eu nunca soube nem nunca imaginei os graves abusos que esse padre cometia contra as vítimas", relatou à AP, recentemente. "Nunca aprovei nem participei de atos graves e desonestos como esses, e nunca fui condenado por ter feito tais coisas por nenhum tribunal."

Para os fiéis de Osorno que se opuseram ao bispado de Barros, a questão não é tanto uma questão legal que exija provas ou evidências, já que Barros era um jovem padre na época e não estava em posição de autoridade sobre Karadima. É mais porque se Barros não "via" o que acontecia à sua volta e não achava problemático um padre beijar e acariciar meninos, ele não deve ser estar à frente de uma diocese na qual ele é responsável por detectar comportamentos sexuais inapropriados, relatá-los à polícia e proteger as crianças de pedófilos como era o seu mentor.

Cruz tinha chegado na comunidade de Karadima em 1980, quando era um adolescente vulnerável, desesperado depois da recente morte de seu pai. Ele disse que Karadima teria dito que seria como seu pai espiritual, mas na verdade abusou sexualmente dele.

Com base no depoimento de Cruz e de outros ex-membros da paróquia, o Vaticano retirou Karadima do ministério em 2011, condenando-o a uma vida de "penitência e oração" por seus crimes. Agora com 87 anos, ele mora em um lar para padres idosos em Santiago; ainda não comentou sobre o escândalo e o lar recusou-se a aceitar ligações ou visitas da mídia.

As vítimas também testemunharam ao Ministério Público chileno, que abriu uma investigação sobre Karadima depois de terem ido a público com suas acusações, em 2010. O Ministério Público chileno teve que retirar as acusações, porque havia se passado muito tempo, mas o juiz a cargo do caso salientou que não foi por falta de provas.

Embora o depoimento das vítimas tenha sido considerado credível tanto pelo Ministério Público do Chile como pelo Vaticano, a hierarquia da igreja local claramente não acreditava neles, o que pode ter influenciado a opinião de Francisco. O Cardeal Francisco Javier Errazuriz reconheceu não acreditar nas vítimas no início e ter arquivado uma investigação, que teve que reabrir depois que as vítimas foram a público.

Agora, ele é um dos principais cardeais conselheiros do Papa argentino.

Quando finalmente conseguiu que a carta chegasse nas mãos do Papa em 2015, Cruz já tinha enviado versões da carta para muitas outras pessoas e tentado marcar uma reunião com o embaixador do Vaticano durante meses. O e-mail de 15 de dezembro de 2014 da embaixada para Cruz — um mês antes da nomeação de Barros — era curto e direto:

"A Nunciatura Apostólica comunica o recebimento da mensagem enviada por e-mail ao Núncio Apostólico no dia 7 de dezembro e informa que seu pedido obteve resposta desfavorável."

Pode-se argumentar que Francisco não tenha prestado atenção à carta de Cruz, já que recebe milhares de cartas todos os dias de fiéis ao redor do mundo. Não há possibilidade de ele conseguir ler todas elas, muito menos de lembrar seu conteúdo anos depois. Talvez ele estivesse cansado e confuso depois de uma semana viajando para a América do Sul quando disse, em uma conferência de imprensa no avião, que as vítimas nunca se pronunciaram para acusar o encobrimento de Barros.

Mas não era uma carta comum, nem as circunstâncias em que chegou no Vaticano.

Francisco tinha nomeado O'Malley, o arcebispo de Boston, para liderar sua Comissão para a Proteção de Menores com base em sua credibilidade ao ajudar a limpar a sujeira em Boston depois que o escândalo de abuso sexual dos EUA explodiu na diocese em 2002. A comissão reuniu especialistas externos para aconselhar a Igreja na proteção das crianças de pedófilos e educar sua equipe sobre a prevenção de abusos e encobrimentos.

Os quatro membros da comissão que estavam numa subcomissão especial, dedicada às vítimas, tinham ido a Roma especificamente para conversar com O'Malley sobre a nomeação de Barros e entregar a carta de Cruz. Um comunicado de imprensa emitido após o encontro de 12 de abril de 2015 dizia: "o cardeal O'Malley concordou em apresentar as preocupações do subcomitê ao Santo Padre."

Catherine Bonnet, membro da comissão, a psiquiatra infantil francesa que tirou a foto de Collins entregando a carta a O'Malley, disse que os membros da comissão tinham decidido descer até Roma especificamente quando O'Malley e outros membros do grupo papal dos nove cardeais conselheiros estavam reunidos, para que ele pudesse entregar a carta ao Papa diretamente em mãos.

"O cardeal O'Malley nos prometeu que entregaria a carta de Juan Carlos ao Papa quando Marie a entregou", declarou.

O porta-voz de O'Malley em Boston referiu haver pedidos de comentários ao Vaticano. Nem a assessoria de imprensa do Vaticano nem autoridades da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores responderam a telefonemas e e-mails atrás de comentários.

Mas talvez a notável resposta de O'Malley à defesa de Barros e à negligência às vítimas por parte de Francisco durante sua estada no Chile seja agora melhor compreendida.

Em uma rara repreensão de um papa por um cardeal, O'Malley emitiu uma declaração, no dia 20 de janeiro, dizendo que as palavras do Papa eram "uma fonte de grande sofrimento para as vítimas de abuso sexual" e que o efeito de tais expressões era abandonar as vítimas e relegá-las a um “exílio de descrença”.

Um dia depois, Francisco pediu desculpas por ter exigido "provas" dos crimes cometidos por Barros, dizendo que queria dizer apenas que queria ver "evidências". Mas continuou descrevendo as acusações contra Barros como "calúnia" e insistiu que nunca tinha ouvido falar de nenhuma vítima.

Mesmo quando foi dito, na conferência de imprensa a bordo do dia 21 de janeiro, que as vítimas de Karadima haviam realmente colocado Barros na cena dos crimes de abuso cometidos por Karadima, Francisco disse: "Ninguém se pronunciou. Não foram apresentadas quaisquer provas para julgamento. É tudo um pouco vago. É algo que não pode ser aceito”.

Ele ficou do lado de Barros, dizendo: "Tenho certeza de que ele é inocente", apesar de dizer que considerava o depoimento das vítimas como "evidência" no caso de uma investigação de encobrimento.

"Se alguém puder me trazer evidências, serei o primeiro a ouvir", disse.

Cruz disse que sentiu essas palavras como um tapa.

"Fiquei chateado", revelou, "e ao mesmo tempo não conseguia acreditar que alguém tão alto quanto o Papa pudesse mentir sobre isso."

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