“Não deixo de acreditar na tolerância zero de Francisco contra a pedofilia, mas outros o boicotam”. Entrevista com Marie Collins

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02 Março 2017

“Eu não podia mais permanecer na Comissão. Depois de três anos, vendo continuamente que na Cúria romana havia pessoas que não favoreciam o nosso trabalho, que substancialmente o boicotavam, sem responder às questões mais elementares que lhes eram feitas, me jogou em profundo mal estar. Senti vergonha e decidi demitir-me”.

A voz é firme, pacata. Marie Collins, irlandesa, abusada sexualmente por um padre quando tinha 13 anos de idade, não deixa transparecer nenhuma emoção enquanto, por telefone, explica a sua verdade. Pessoa em destaque na Comissão anti-pedofilia instituída por Francisco, única vitima que permaneceu no grupo e única mulher membro da mesma, decidiu ir embora porque “na Cúria romana as resistências são demasiadamente grandes. Para mim, a medida se encheu”.

A entrevista é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 02-03-2017. A tradução é de IHU On-Line.

Eis a entrevista.

Quem exatamente boicotava o seu trabalho no interior da Santa Sé?

Não quero citar nomes porque não quero prejudicar o trabalho da Comissão vaticana para a qual ainda nutro esperanças e expectativas. Em todo o caso, como escrevi quando decidi deixar o cargo, as perguntas que encaminhava para a Congregação para a Doutrina da Fé não eram respondidas, quase sempre eram desatendidas. Particularmente, feriu-me o fato que a recomendação da Comissão para que fosse instituído um tribunal para julgar os bispos negligentes, aprovada pelo Papa e anunciada em junho de 2015, não teve nenhum encaminhamento. Foram apresentados problemas legais, mal explicitados, e assim o tribunal nunca foi instituído. Tudo isso é para mim motivo de sofrimento e sinceramente achei que deveria sair.

Segundo a senhora, o Papa Francisco quer realmente combater a pedofilia?

Eu acredito firmemente que sim. Acredito nele e no seu trabalho. Mas não entendo o porquê de tantas resistências. Francisco desde o início foi sincero. Tomou decisões claras no sentido da tolerância zero. Mas no seu entorno as coisas andam como deveriam e tudo isso não é correto.

Segundo a senhora, quais são os motivos para estas resistências. Como se explica isso?

Na verdade devo dizer que não consigo explicar. Não sei dizer qual seria o motivo profundo para tal atitude. Simplesmente registro o fato e me demito. Continuarei a falar da minha história lá onde eu for convidada. Também no Vaticano. Continuarei a colaborar. Não fujo, mas prefiro estar fora da Comissão.

Houve resistências que particularmente a feriram mais que outras?

Não uma mais que as outras. Foi mais um comportamento geral. Tantos episódios: no fim do ano passado, por exemplo, enviamos uma simples recomendação aprovada pelo Papa à Doutrina da Fé para uma pequena mudança de procedimento no contexto da cura das vítimas e dos sobreviventes. Mas no mês passado, em janeiro, soube que aquela mudança fora refutadas. Para mim é uma coisa inexplicável.

Enfim, segundo a senhora, existe uma discrepância entre os anúncios e os fatos.

Existe o fato que muitas vezes ouvem-se declarações públicas sobre a profunda preocupação da Igreja pelas vitimas dos abusos, mas depois no privado o dado é que no Vaticano há pessoas que refutam o simples fato de reconhecer as cartas enviadas para provar e resolver esta preocupação. O fato é que não faltam resistências e tudo isso, para mim, é inaceitável.

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