Um escândalo de abusos sexuais sacode o Exército dos Estados Unidos

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21 Fevereiro 2011

Durante um passeio no Estado de Vermont (Estados Unidos), em 2006, um companheiro da Guarda Costeira violou Panayiota Bertzikis, de 29 anos, depois de lhe dar uma surra. Traumatizada, vendo que seu agressor a seguia ameaçando, já que vivia em seu próprio barracão, acudiu nervosa ao seu comandante buscando justiça. Não esperava a resposta que recebeu: “Se falares novamente sobre a violação, é a ti que vamos processar, mas por difamação”. O calvário de Panayiota não acabou com a violação. Aquilo foi apenas o episódio inicial de um longo processo no qual acabou pendurando o seu uniforme e precisou fazer um tratamento por um transtorno de estresse pós-traumático.

A reportagem é de David Alandete e está publicada no jornal espanhol El País, 18-02-2011. A tradução é do Cepat.

Panayiota e outros 16 soldados – 15 mulheres e dois homens – apresentaram esta semana uma demanda no Tribunal Distrital dos Estados Unidos na Virgínia, na zona metropolitana de Washington, contra os dois últimos secretários de Defesa, os republicanos Robert Gates e Donald Rumsfeld, acusando-os de “negligências sistemáticas na hora de impedir os casos de violação e abusos sexuais”. Todos sofreram agressões sexuais e viram como seus comandantes os protegeram e, em alguns casos inclusive, promoveram os agressores. Agora pedem que um organismo independente, alheio à hierarquia castrense, investigue esses casos e julgue os violadores.

Em 2009, último ano de que há dados oficiais, houve 3.230 denúncias por abusos sexuais no Exército dos Estados Unidos, que tem 1,47 milhão de soldados na ativa. O Pentágono estima que esse número representa apenas 20% do total dos casos, razão pela qual o número real de abusos entre as tropas seja de aproximadamente 16.100 casos ao ano. Número que vem aumentando desde 2007. A maioria dos soldados que se atreve a denunciar acaba pedindo a baixa e quase todos sofrem estresse pós-traumático.

“Uma violação já é algo terrível. Se acrescentares a isso uma cultura de repressão e silêncio do Exército, é ainda pior”, explica Panayiota. Ela sabe bem disso. Ainda tem dificuldades para falar de como seu violador ficou impune. De como seu agressor viveu durante meses no mesmo local. Sua presença a angustiava. Quando estava de serviço dormia sempre com a porta de seu quarto trancada. Quando tinha dias livres fugia da base, dormia em hotéis ou na rua. Um dia seu comandante a reuniu com seu agressor. Disse-lhes: “Superem suas diferenças, aprendam a trabalhar juntos”.

Com os anos, Panayiota foi transferida para outra base, em Massachusetts. As notícias de sua violação chegaram antes dela. Diversos cúmplices de seu agressor a insultavam pelos corredores. “Mentirosa”, lhe diziam, “puta”. Um dia um grupo de homens a encurralou. Tentaram tirar-lhe o uniforme, a insultaram, disseram-lhe que caso falasse novamente do incidente a violariam outra vez. A investigação oficial, enquanto isso, seguia aberta. De fato, seus comandantes a usaram como desculpa para lhe negar uma promoção que, por tempo de serviço e méritos, ela considerava justa. Abandonou o uniforme para sempre em 2007 para fundar a Military Rape Crisis Center, uma organização de ajuda aos soldados vítimas de abusos sexuais.

Anuradha Bhagwati, de 35 anos, foi capitã no corpo da Marinha  e a deixou em 2007 depois de presenciar, impotente, numerosos casos de agressão e violação escondidos por seus companheiros e superiores. “Os demandantes, neste caso, são só uma mostra dos milhares de soldados agredidos sexualmente, que foram abusados física e psicologicamente, e que foram torturados enquanto defendiam o país”, explica. “Quando estes demandantes trataram de fazer com que seus agressores se responsabilizassem pelos seus atos, só encontraram ameaças, represálias e vinganças”.

“Vi, sob o meu comando, como alguns dos melhores soldados do país abandonavam o Exército depois de viver uma verdadeira perseguição”, acrescenta. Para eles, ao trauma de terem sido violados se soma a vergonha de serem acusados de mentirosos ou traidores. “Trata-se de uma instituição na qual o poder e o comando são tudo, determinam cada decisão e movimento. Os depredadores sexuais aproveitam essa estrutura para perpetuar seu abuso”, explica Bhagwati, que, após abandonar a Marinha, dirige a organização Service Women’s Action Network [Rede de Ação para as Mulheres do Serviço Militar], de ajuda a mulheres soldados.

Humilhações sistemáticas sem castigo

Kori Cioca, membro da Guarda Costeira até 2007. Seu agressor, um superior, a insultou e cuspiu nela. Invadiu sua casa e se masturbou na frente da sua cama. Ele a violou em dezembro de 2005. Ela o denunciou, mas seus comandantes a obrigaram a assinar um documento em que admitia que as relações haviam sido consentidas. Sofre depressão e transtorno pós-traumático.

Rebekah Havrilla, sargento do Exército até 2009. Um soldado a violou e a fotografou. Ela foi buscar ajuda em outra base onde um capelão lhe disse: “Seguramente era vontade de Deus que fosse violentada”. A aconselhou a ir mais à missa.

Greg Jeloudov, soldado do Exército até 2009, foi violentado por um superior. Ao denunciá-lo, seu comandante zombou dele, o obrigou a assinar um documento em que dizia que era gay e o expulsou em virtude da lei que (até 2010) proibia os gays de servir abertamente.

Jessica Nicole Hinves, soldado da Aeronáutica. Em janeiro de 2009, um companheiro a violou em seu quarto. Denunciou-o, mas os amigos dele começaram uma campanha de assédio reiterado. Seu comandante denegou os cargos e premiou o violador com um diploma por seus méritos como piloto. Hinves abandonará o Exército em 23 de abril.

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