A crise dos abusos sexuais à luz da eclesiologia e da reforma da Igreja. Artigo de Massimo Faggioli

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21 Fevereiro 2018

“Todas as grandes crises na história da Igreja redefiniram alguns aspectos da relação entre o centro e a periferia. A crise dos abusos sexuais provavelmente também terá um impacto nessa inter-relação.”

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de Teologia e Estudos Religiosos na Villanova University, Estados Unidos. O artigo foi publicado por La Croix International, 19-02-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Ainda é muito cedo para saber como o Papa Francisco será lembrado pelo modo como lidou com a crise dos abusos sexuais por parte de clérigos contra menores na Igreja Católica. Seu pontificado está atualmente envolvido naquele que continua sendo o fenômeno mais difícil do momento.

O legado do papa sobre essa questão não será julgado apenas pela credibilidade de suas intenções pessoais, mas ainda mais pela capacidade dele e da Igreja de lidar com a mais grave calamidade na história do catolicismo contemporâneo.

Algumas coisas dependem dele, outras não. Por exemplo, Francisco renovou o mandato da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores no dia 17 de fevereiro, reconfirmando a metade de seus membros originais e nomeando várias pessoas novas para esse órgão consultivo. Mas a comissão é apenas uma das muitas iniciativas que precisam ser implementadas – e ela precisa ser eficaz.

O papa foi questionado sobre o escândalo dos abusos no mês passado durante um encontro com um grupo de jesuítas no Peru. Na conversa, traduzida e publicada pela revista La Civiltà Cattolica, ele chamou o escândalo dos abusos de “uma grande humilhação” para a Igreja Católica.

“Isso mostra não só a nossa fragilidade, mas também – digamos claramente – nosso nível de hipocrisia”, admitiu. O papa também disse que “é singular o fato de que haja várias congregações, relativamente novas, cujos fundadores caíram nesses abusos”.

O desafio perante toda a Igreja é como processar essa crise para além das meras soluções de curto prazo e como situar a resposta eclesial a ela em um caminho de reforma de longo prazo. Toda ideia de reforma da Igreja se baseia em uma ideia ou um conjunto de ideias sobre a própria natureza e missão da Igreja – isto é, em uma eclesiologia. Por sua vez, toda eclesiologia se baseia em uma compreensão da tradição e da história da Igreja.

O problema hoje é que ainda não identificamos onde a crise dos abusos sexuais se encaixa na história da Igreja. Temos estudos sobre os efeitos da crise nas Igrejas locais, sobre as razões culturais e antropológicas pelas quais os padres católicos romanos abusaram dos jovens, e sobre a dimensão espiritual das feridas infligidas às vítimas. Há também relatórios aprofundados sobre o sistema que permitiu que os abusos continuassem nas Igrejas particulares, como aqueles publicadas na Irlanda em 2002 e na Austrália em 2017.

Mas ainda não temos uma visão clara de exatamente quando e onde os casos de abuso sexual começaram na Igreja global. Já passamos muito do momento de acreditar que isso aconteceu apenas nos Estados Unidos durante o período que se seguiu ao Concílio Vaticano II (1962-1965). Ainda não temos uma cronologia dos abusos sexuais do clero em todo o mundo. Mas isso não deve impedir que comecemos imediatamente a refletir sobre a eclesiologia dos abusos sexuais clericais e como ele está ligado à necessidade de reforma institucional e cultural na Igreja.

Vejamos brevemente as questões que deveriam fazer parte de uma eclesiologia da crise dos abusos sexuais para a reforma da Igreja.

A primeira diz respeito ao papado e ao Vaticano. Nos últimos dez séculos, os escândalos e os abusos na Igreja Católica foram abordados e resolvidos por formas de centralização em Roma. Da Reforma Gregoriana nos séculos XI-XII à corrupção da Cúria Romana no início do período moderno, a defesa-padrão foi dar mais poder a Roma e ao papa.

Não está claro se outro período de centralização é a resposta hoje para a crise dos abusos sexuais na Igreja Católica global. Hoje está claro que a política da Igreja local no Chile faz parte das complicadas relações entre a hierarquia local e Roma.

Será que realmente precisamos de outro supertribunal na Cúria Romana para lidar com bispos que são incapazes ou não estão dispostos a denunciar publicamente os padres abusivos? Será que isso realmente pode funcionar? Ou precisamos, talvez, de uma Igreja mais descentralizada? A eclesiologia do catolicismo liberal-progressista geralmente se opõe a dar mais poder a Roma, mas parece ambivalente sobre o papel de Roma quando se trata de perseguir os abusadores.

Do outro lado do espectro, uma eclesiologia mais conservador-tradicionalista não quer ouvir falar de Francisco, mas também se opõe historicamente a uma eclesiologia mais “local” e menos universalista. Todas as grandes crises na história da Igreja redefiniram alguns aspectos da relação entre o centro e a periferia. A crise dos abusos sexuais provavelmente também terá um impacto nessa inter-relação.

Em segundo lugar, onde a eclesiologia do episcopado foi posta em questão por causa da crise dos abusos sexuais, a quem e por quais questões os bispos devem ser responsabilizados?

Nas últimas décadas, os critérios de seleção dos bispos se basearam na adesão dos candidatos às políticas doutrinais do Vaticano sobre questões da vida e a ordenação das mulheres, e não na sua capacidade de servirem em uma missão pastoral. A exclusão da contribuição das Igrejas locais e dos fiéis no processo de seleção de um bispo precisa ser reexaminada à luz da crise dos abusos sexuais.

Além disso, desde o Vaticano II, a tarefa do bispo evoluiu cada vez mais para um papel gerencial, mais como um CEO e menos como um pastor. Os efeitos da crise dos abusos sexuais estão acentuando essa evolução. Nenhuma reflexão eclesiológica pode ignorar que é improvável que uma resposta espiritual e teológica à crise dos abusos sexuais venha de bispos que agora gastam uma quantidade significativa de seu tempo gerenciando os recursos de suas Igrejas locais na tentativa de evitar o fechamento de paróquias e de escolas.

Em terceiro lugar, o que a crise dos abusos sexuais nos diz sobre a eclesiologia do laicato e do clero? Não devemos fingir que a crise dos abusos sexuais não tem efeito sobre como os leigos e os clérigos veem uns aos outros – especialmente sobre como as mulheres católicas e a nossa juventude veem o clero totalmente masculino. De fato, esse pode ser um dos fatores determinantes daquilo que o teólogo católico italiano Marco Vergottini chamou de o fim da “teologia do laicato” do século XX e os primórdios de uma eclesiologia baseada mais no testemunho do que na ordenação sacramental.

O celibato obrigatório é um dos fatores tipicamente levantados por aqueles que investigam a dinâmica dos abusos sexuais cometidos pelo clero, por exemplo, no Relatório Final publicado há dois meses pela Comissão Real na Austrália. Mas talvez outras dimensões eclesiológicas também devam ser examinadas, como o estilo de vida do clero. Muitas vezes, os padres diocesanos vivem sozinhos e são vistos como figuras solitárias que prestam serviços a uma comunidade. Muito menos frequentemente, eles vivem em comum com outros padres, uma proposta que surgiu nos debates no Vaticano II, mas foi ignorada nos documentos finais.

Em quarto lugar, a crise dos abusos sexuais mostrou a necessidade de lançar um novo olhar à eclesiologia dos núncios papais. Desde o Vaticano II, o papel dos “embaixadores” papais mudou. Eles já não defendem mais questões que pertencem estritamente aos católicos. Agora, eles estão a serviço do mundo e da humanidade.

O Papa Francisco apoia esse desdobramento, mas o atual escândalo dos abusos sexuais no Chile mostra que a diplomacia papal ainda tende a defender a instituição mais do que a comunidade eclesial. A independência institucional dos diplomatas vaticanos em relação às Igrejas locais é um bem em algumas questões, mas há uma linha sutil entre a independência e a falta de responsabilidade.

Finalmente, há uma eclesiologia das finanças da Igreja em jogo aqui. A história do escândalo dos abusos sexuais mostrou o instinto clerical de proteger os bens eclesiásticos, mas também como os abusos sexuais e os crimes financeiros são muitas vezes parte do mesmo pacote. A ideia de uma “Igreja pobre” e de uma “Igreja para os pobres” também é uma resposta à crise dos abusos sexuais.

Francisco disse algo parecido na conversa com os jesuítas no Peru.

“O curioso é que o abuso afetou algumas congregações novas, exitosas”, declarou.

“O abuso nessas congregações é sempre o fruto de uma mentalidade ligada ao poder que deve ser sanada em suas raízes malignas. E acrescento que são três níveis de abuso que vão juntos: abuso de autoridade – o que significa misturar os foros interno e externo –, abuso sexual e enredos econômicos”, disse o papa.

Todos os pontos acima mencionados fazem parte do início de uma reflexão muito necessária.

Em seu clássico texto sobre a eclesiologia católica, “A Igreja e seus modelos”, o cardeal Avery Dulles (1918-2008) mostrou o impacto dos vários modelos eclesiológicos no debate intracatólico. O teólogo jesuíta estadunidense descreveu um modelo como “uma imagem empregada de maneira reflexiva e crítica para aprofundar a compreensão teórica da realidade”.

Seu livro, que foi publicado em 1974 e passou por revisões no início dos anos 2000, ainda é uma introdução extremamente confiável à eclesiologia católica. Certamente, ele poderia ser atualizado novamente à luz da crise dos abusos sexuais.

No primeiro capítulo, Dulles disse: “Um modelo que leva a abusos práticos é, até mesmo do ponto de vista teórico, um mau modelo”.

Ele estava se referindo à noção de satisfação vicária e às indulgências que estavam entre as causas da Reforma Protestante. Mas deveríamos nos perguntar se a crise dos abusos sexuais também está ligada a um modelo de eclesiologia que precisa ser reformado.

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