Chile. A verdade sobre Fernando Karadima e sua Pia União Sacerdotal. Aquela noite, oito anos atrás, tão terrível e tão libertadora

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27 Abril 2018

Como, onde e quem revelou a horrível história de Fernando Karadima e das suas numerosas vítimas. As primeiras tímidas verdades enquanto a máquina para ocultar e encobrir já estava trabalhando a pleno vapor e com grande disponibilidade de dinheiro.

A reportagem é de Luis Badilla, publicada por Il sismografo, 26-04-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

No dia 26 de abril, completam-se oito anos desde que a grande maioria do povo chileno, especialmente a sua opinião pública mais qualificada e bem informada, descobriu em detalhes o episódio envolvendo a Fraternidade do pároco de "El Bosque", Fernando Karadima, chamada de "Pia União Sacerdotal", e, dessa forma, os abusos sexuais cometidos contra numerosas pessoas, em especial contra três garotos que hoje, como se sabe, são Juan Carlos Cruz, Andrés Murillo e James Hamilton, por parte do pároco, o poderoso e intocável padre Fernando Karadima, o "queridinho" da alta burguesia de Santiago e dos católicos mais conservadores e saudosistas da época do golpe. Poucos imaginavam que naquela noite estava se abrindo um verdadeiro abismo para muitos, pessoas e instituições. Ninguém imaginava que a história que estava emergindo, que imediatamente tentou-se abafar até mesmo esbanjando dinheiro, teria mudado a face cultural do País, bem como a consciência de milhões de chilenos.

Os três de que falamos - Cruz, Murillo e Hamilton - estão em Roma há alguns dias esperando para se encontrar com o Papa Francisco em 28 e 29 próximos, na qualidade de seus hóspedes na Casa Santa Marta.

Poucos dias antes daquele 26 de abril de oito anos atrás, pela primeira vez, The New York Times havia publicado – em 22 de abril de 2010 - dois testemunhos muito detalhados e bastante aterradores sobre os abusos de Karadima. ("Chilen Abuse Case Tests Loyalty of a Parish") As testemunhas eram Juan Carlos Cruz e James Hamilton.

No País, em especial na capital, e em ambientes da igreja, circulavam há muitos anos rumores sobre o que acontecia na paróquia "El Bosque", e sobre quem realmente era Fernando Karadima, descrito como "um santo" pelo Cardeal Francisco Javier Erràzuriz. Havia informações sobre as denúncias que tinham sido entregues às autoridades do arcebispado, incluindo um relatório muito detalhado e assinado, sobre abusos que remontavam a 1955.

Era evidente que estava prestes a estourar um mega escândalo que mancharia os líderes da arquidiocese da capital. Em 20 de abril de 2010, no final da 99ª. Assembleia Plenária do Episcopado, monsenhor Alejandro Goic, então presidente do Episcopado emitiu uma declaração que dizia textualmente: "Pedimos a todos aqueles que estão na posse de dados objetivos (NdR: sobre os abusos) para nos comunicar o que sabem para procedermos de acordo com as normas e com o que o Papa orienta em matéria (...) No sacerdócio, não há lugar para aqueles que abusam de menores e não há desculpa que possa justificar tal crime".

Essa plenária do episcopado chileno havia sido inaugurada pelo Secretário de Estado na época, o cardeal Tarcisio Bertone, que naqueles dias visitava algumas cidades do País. Como pode ser lembrado, foi um momento muito polêmico na imprensa internacional porque o cardeal fez declarações que depois obrigaram o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, a apresentar correções e esclarecimentos urgentes. Bertone disse: "Muitos psicólogos e psiquiatras demonstraram que não existe relação entre celibato e pedofilia, mas muitos outros - e também me foi confirmado recentemente – demonstraram que existe uma ligação entre homossexualidade e pedofilia. Esta é a verdade e aí reside o problema".

Essa circunstância demonstra que o cardeal retornou ao Vaticano com um volume significativo de informações sobre o caso Karadima; caso que o episcopado conhecia e discutia há tempo, e que nesta plenária pela primeira vez abriu uma investigação sobre Karadima. A imprensa chilena da época escreveu que Bertone teve um encontro com um advogado dos denunciantes, então desconhecidos.

Naquela noite horrível ... quanta dor

No Chile, na noite de 26 de abril de 2010, cinco profissionais - incluindo os três mais conhecidos – apresentaram declaração no programa de televisão nacional, TVN, "Relatório Especial", e uma boa parte do país assistiu, colada às telas, ficando no final petrificada e chocada. As crônicas da época lembram o testemunho muito forte e lacerante do médico gastroenterologista James Hamilton, "objeto" de numerosos abusos por parte de Karadima, alguns brutais e horrendos. Também chocou muito a narrativa do jornalista Juan Carlos Cruz. Dois outros testemunhos arrepiantes foram os de Luis Luira e Fernando Batlle.

Da França, uma pessoa (que muito tempo depois se saberia que era o escritor e filósofo Andrés Murillo), enviou para o programa o seu testemunho sobre os abusos sob a forma de carta-confissão. O impacto do que foi relatado no programa da TVN foi tão grande que o então Arcebispo de Santiago, cardeal Francisco Javier Errazuriz, precisou pedir uma audiência com o Presidente da República, Sebastián Piñera para tratar do assunto. Desde aquela época, apesar de conhecer há anos as denúncias contra Karadima (já apresentadas em 2004), e para quem havia sido pedida a renúncia como pároco para protegê-lo melhor, o cardeal Errázuriz sempre tratou de minimizar, de minar a credibilidade e a seriedade das denúncias e, acima de tudo, tentou em várias ocasiões de desacreditar os denunciantes com palavras e insinuações pesadas, principalmente no caso de Juan Carlos Cruz, que anteriormente havia declarado ser homossexual.

O escândalo nacional obrigou a Justiça a nomear um procurador especial para o caso, na pessoa de Xavier Armendáriz.

Em 28 de maio de 2010, Andrés Ferrada, prefeito para a educação do "Seminario Mayor" de Santiago, declarou ao Procurador: "Em minha opinião, os denunciantes não mentem." No dia seguinte, reconheceu ter entregado a uma pessoa entre 8 e 10 milhões de "pesos" em troca de seu silêncio. Enquanto isso, Hans Kast, chanceler do arcebispado, retornando da Alemanha, compareceu perante o Procurador (27 de julho) para confirmar o conteúdo da sua carta de 10 de maio de 2010, em que reconhecia ter sido testemunha de graves moléstias sexuais de Karadima "em jovens adultos". Kast, em outro momento, confirmou novamente tudo diante do novo Procurador do caso, Leonardo Valdivieso, chamando em causa sobre a comitiva de Karadima outros dois sacerdotes: Diego Ossa e Juan Esteban Morales.

Assim, aos poucos, começou a surgir a verdade. Mas era apenas o começo de uma batalha onde as forças em campo tinham poderes e recursos desequilibrados. Mais uma vez, um ícone metafórico de Davi e Golias.

A história dos abusos de Karadima, nesses oito anos, passou por altos e baixos, e só em janeiro de 2018, com a visita do Papa no Chile, saiu do recinto em que havia sido confinada "para sempre" e, certamente, estamos apenas no início de uma nova fase.

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