Novo assessor papal sobre abuso sexual quer que a Igreja ofereça sua experiência ao mundo

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27 Fevereiro 2018

A comissão vaticana que o Papa Francisco criou em 2014 para assessorá-lo na luta contra o abuso sexual está agora procurando reparar a sua relação com as vítimas e “seguir em frente” no sentido de emprestar a sua expertise e suas fontes para o mundo exterior, de acordo com um participante recém-nomeado ao grupo.

Na semana passada, o Vaticano anunciou que Francisco tinha confirmado sete membros da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores e nomeado nove novos participantes, alguns dos quais ex-vítimas de abuso sexual.

A Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores é um organismo consultivo do papa para a questão da salvaguarda de menores e adultos vulneráveis a abuso sexual.

A reportagem é de Claire Giangravè, publicada por Crux, 26-02-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correia.

A primeira fase da comissão, antes desta sua recente renovação, teve “muitos momentos de reflexão”, segundo Ernesto Caffo, membro há pouco nomeado e fundador-presidente da Telefono Azzurro, organização sem fins lucrativos da Itália que visa proteger as crianças.

A maioria destes pontos de reflexão considerou a relação da comissão com as vítimas, disse Caffo em entrevista ao Crux, tendo sido este um ponto de partida importante e necessário para definir os objetivos e a abordagem do grupo.

Ainda segundo Caffo, que também leciona neuropsiquiatria infantil na Universidade de Modena e Reggio Emilia, é “imensamente importante” dar às vítimas uma “maior voz” no trabalho futuro da comissão.

Olhando para a frente, ele acredita que a comissão e a Igreja como um todo estão alcançando um ponto de maturidade, onde ela pode ser “um modelo” em termos de engajamento no assunto. O objetivo é encontrar na Igreja “uma fonte de força” que possa oferecer ao mundo o seu conhecimento e expertise.

Isto ficou claro, segundo ele, num congresso em Roma ocorrido em outubro passado sobre a “Proteção dos menores na era digital”, que reuniu especialistas do mundo inteiro para se unirem à Igreja e reconhecerem nela um parceiro valioso.

Caffo disse que o evento foi a confirmação de que a Igreja tem o potencial de reunir pessoas em torno da questão do abuso infantil.

Quais as palavras-chave para a comissão no momento em que entra em sua segunda fase? Segundo Caffo, são: mais rápida, mais ativa e mais visível.

Eis a entrevista.

Qual a sua reação a esta nomeação e, com sua experiência na Telefono Azzuro – ponto de referência na Itália para a proteção dos direitos da criança –, qual a contribuição que espera dar à comissão?

Como psiquiatra, sempre estudei o assunto da violência contra as crianças, em termos de pesquisa e formação. Por muitos anos, dirigi um curso sobre violência sexual e pedofilia na Universidade de Modena e Reggio Emilia, que, por muito tempo, foi a única formação universitária sobre estes temas.

Alguns anos atrás, nós organizamos, juntamente com a Santa Sé, com o apoio do Bambino Gesù e com a presença de Dom Charles Scicluna, uma conferência no senado italiano com convidados internacionais para assinar uma carta – a Carta de Roma – contra o abuso sexual. Era a primeira vez que o assunto era abordado, e organizamos outras conferências. Dessa forma, dentro de poucos meses, o número já estava em doze, nas quais a carta era copiada.

Provavelmente vocês sabem que trabalhamos duro nessa área por muitos anos, e que trabalhamos com a Gregoriana em seu congresso científico de outubro passado. Aqui também os temas são amplos, incluindo toda a infância.

Você faz referência ao evento sobre o mundo digital e os menores?

Sim, exatamente. Estive no comitê científico do congresso. Como sabem, este evento foi aberto pelo Cardeal Pietro Parolin e foi encerrado pelo Santo Padre. O Pe. Federico Lombardi também teve uma parte ativa nos trabalhos, o que nos permitiu reunir pessoas de diferentes disciplinas acadêmicas do mundo inteiro que lidam com o tema dos abusos sexuais e ameaças à infância, bem como pedofilia. Tentamos conscientizar para questões que estão se tornando cada vez mais aparentes.

Houve também a presença de outras religiões, e isso pavimentou o caminho para um congresso inter-religioso em novembro nos Estados árabes, precisamente para fortalecer este esforço da Igreja Católica na proteção dos menores. Isso serve para explicar como este esforço se desenvolveu ao longo dos anos para responder à dor e ao sofrimento das vítimas de abuso e que levou a muitos passos à frente e a muitas ações concretas.

Nesse sentido, penso que o papel da comissão, hoje, é bastante importante. A sua primeira fase teve muitos momentos complexos de reflexão, na tentativa de chegar ao fundo das coisas e de levar a sério as indicações das vítimas, mas não só isso. Hoje, a questão é ir além, ter uma visão global, ver também modelos de prevenção, modelos de formação e modelos de intervenção mais eficazes junto às vítimas, que nos permitam encontrar uma série de respostas. Penso ser esta a razão para o aumento no número de participantes na comissão, adicionando oito novos membros, a fim de continuar nesse caminho.

É importante também desenvolver modos sempre mais eficazes de escuta das vítimas, talvez lhes dando uma maior voz, que permanece imensamente importante, em parte para enviar uma mensagem ao mundo exterior também. Por exemplo, abrir uma reunião inicial com as vítimas é importante para reforçar essa missão, para que o sofrimento deles se transforme no ponto de partida para a construção de modelos de prevenção e intervenção.

O senhor está dizendo que, depois de um período de reação a uma série de dinâmicas internas com a Igreja, a Igreja agora está pronta a oferecer apoio também ao mundo exterior, desenvolvendo modelos para o mundo inteiro?

Exatamente. Creio que este foi o sinal que se construiu ao longo dos últimos vários meses. A conferência em Roma foi um desses sinais, onde o trabalho feito teve a sensação de que a Igreja, com base em todo o trabalho realizado, pode ser um modelo para outros grupos, outros países, outras culturas. O que se amadureceu dentro da Igreja pode ser um modelo de proposta por um envolvimento muito mais aberto, depois de um primeiro momento de defesa e reflexão interna.

Acredito que hoje, apesar do fato de ainda haver a necessidade de uma reflexão interna, chegou a hora de olharmos para frente, e este modelo [a partir da Igreja] pode ser importante para oferecer respostas e soluções. Penso que este é o caminho da comissão, que é especialmente importante para os países que, muitas vezes, estão correndo um risco ainda maior, como os da África e da América Latina, onde a reflexão ainda não amadureceu. Isso não só é verdade para a Igreja, mas para a sociedade toda. Com respeito a este assunto as instituições ainda não entenderam.

Hoje, a Igreja, com o seu legado em lidar com os sofrimentos da infância, pode dar uma contribuição, não só com respeito ao abuso sexual, mas em outras formas de sofrimento e transtorno. A comissão nasceu do propósito de proteger os menores, não só do abuso, mas das dificuldades e da exploração de toda a espécie. Faria sentido para a comissão querer dar o seu melhor esforço para o futuro.

Você menciona a inclusão das vítimas de abuso nessa comissão. Como essa decisão deve ser interpretada?

Há dois componentes. O primeiro é o desejo de as próprias vítimas serem ouvidas. Por exemplo, eu sei que a ONLUS [organização italiana de caridade voltada às crianças] desenvolveu procedimentos parecidos. A questão da relação com as vítimas precisa ser constante. Nos últimos anos, houve uma relação estável entre elas e a Santa Sé. Não estou falando só da Austrália [o encontro do Papa Bento com as vítimas], mas outras ocasiões. É uma questão de escuta, de entendimento.

O papel das vítimas no trabalho da comissão é importante porque mantém presente a ideia de começar com o concreto, com o sofrimento real das pessoas. Penso que aqui também as vítimas podem nos ajudar a olhar adiante, perguntando como a experiência deles pode ajudar a garantir que não existam outras vítimas, certificando-se de que situações semelhantes não ocorram como aconteceram no passado.

Me parece que esse é um aspecto e uma característica positiva da comissão, ou, pelo menos, isso é o que espero. Sei que tem havido muita discussão sobre as vítimas, sobre como reconhecer essas pessoas, o que é bastante importante, porque elas são as testemunhas e a nossa garantia para o futuro.

Falemos sobre os próximos passos. O que pode nos dizer sobre os objetivos que esta comissão quer alcançar?

Acredito que tudo vai depender da estratégia desenvolvida pela comissão, e do que o cardeal-arcebispo Sean O’Malley, de Boston, presidente da comissão, tem em mente. O elemento central que percebo, em termos de pontos fortes da comissão, é a conciência que possui dos vários elementos do problema, em termos de pesquisa e formação, e assim por diante, em vários setores do mundo atual, e que é a base para uma série de respostas que temos de identificar quanto a prevenção, formação e seleção de pessoas envolvidas com crianças e adolescentes em várias partes do mundo.

As áreas da educação e da vida social precisam de muita atenção, pois é aí onde se dá o contato com as crianças, para sermos úteis em seus desenvolvimentos e na capacidade delas de evitar toda forma de abuso que ocorre na obscuridade. O que é preciso são “as melhores práticas” para a intervenção nas situações mais difíceis, onde, em várias partes do mundo, as crianças são vítimas de sofrimento e exploração.

A ideia é encontrar na Igreja uma fonte de força, para que ela possa ser promotora dos direitos e do bem-estar, fazendo-se presente em todas as partes do mundo e oferecendo respostas e instrumentos concretos. Se pensarmos sobre o número de escolas, hospitais que a Igreja possui hoje, ela pode se transformar mais ainda numa “força avante” na defesa dos menores.

Digamos que isso, em minha opinião, é o que a comissão quer promover, edificando-se no trabalho que foi feito e estendendo a mão para outras pessoas que podem colaborar. Nestas horas desde a minha nomeação, ouvi de muitas pessoas, pessoas que estão entusiasmadas em colaborar neste tipo de iniciativa. Isso reforça a ideia da Igreja como um ponto de referência no enfrentamento dos novos desafios.

A mim isso parece uma novidade, como aquilo que aconteceu no congresso de outubro. Reunimos as melhores pessoas no mundo que conhecemos, sem pedir nada, e elas saíram entusiasmadas a continuar o trabalho juntas. Foi uma confirmação de que a Igreja tem o potencial de para reunir pessoas e desenvolver ideias, o que é excepcional.

Ficarei feliz se a Igreja vier a ser uma espécie de terminal para este trabalho que está sendo feito no mundo inteiro em nome das crianças, e também elencar o que as vítimas trazem, desde os adultos até as crianças, de forma que a comissão tenha a oferecer o melhor apoio possível.

Penso, realmente, que precisamos nos mover num ritmo mais rápido do que no passado, e que os esforços precisam ser mais visíveis, mais ativos, ao oferecer instrumentos às pessoas que trabalham neste campo em lugares como as favelas, nas situações de grande risco. Penso que precisamos estar atentos às situações que normalmente estão ocultas. Também devemos nos fazer presentes no novo reino digital, pois existem grandes questões aí de exploração e outras dificuldades para as crianças.

Precisa ser uma ocasião para um novo estímulo e uma nova reflexão, não só sobre pedofilia, mas outros temas também, tais como a exploração na web. Todos estes assuntos estão presentes na Declaração de Roma adotada em outubro passado. Acho que as coisas precisam seguir nessa direção, baseando-se no que já existe e olhando para todas as realidades aí fora, trabalhando em todos os setores.

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