Mais cedo ou mais tarde, o Papa Francisco terá que enfrentar as perplexidades da reforma

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05 Mai 2020

É verdade que, exatamente agora, o Papa Francisco tem outras coisas para se preocupar. Entre elas, ele está tentando manter a nação italiana unida, apelando no sábado à unidade política em um momento em que os governadores da oposição política ameaçam sabotar o plano do primeiro-ministro, Giuseppe Conte, de diminuir gradualmente as restrições ao coronavírus, emitindo seus próprios decretos ad hoc.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicada em Crux, 03-05-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No entanto, no momento em que isso acabar, Francisco terá que enfrentar o fato de que a sua própria casa também precisa de algumas obras.

O pensamento vem à tona em conexão com um comunicado secreto divulgado na quinta-feira passada pela Sala de Imprensa do Vaticano, anunciando que foram tomadas “medidas individuais para certos empregados da Santa Sé” depois que expiraram as medidas anteriores adotadas como parte de uma investigação sobre “investimentos financeiros e imobiliários da Secretaria de Estado”.

O que o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, não disse em voz alta, foi que os cinco empregados em questão haviam sido demitidos – e, além disso, poucas horas antes de Francisco usar sua missa diária transmitida ao vivo no Dia do Trabalhador e na festa de São José Operário para rezar pelos direitos dos trabalhadores.

“Rezemos por todos os trabalhadores, para que a nenhuma pessoa falte o trabalho, e para que todos sejam pagos com justiça”, disse o papa.

As demissões vieram diretamente de Francisco, que obviamente decidiu não esperar pelos resultados da investigação em andamento, apesar de pelo menos um dos empregados ainda nem ter sido interrogado. Os avisos de rescisão que os cinco receberam não ofereciam um motivo oficial, presumivelmente para evitar a possibilidade de recurso.

(Na verdade, estou surpreso que ninguém o tenha chamado de “massacre do Dia do Trabalhador”, o que pode ser outra indicação de como o mundo está distraído com a pandemia do coronavírus.)

Os cinco empregados incluem três leigos e dois clérigos, todos eles apontados em outubro passado como suspeitos em um acordo imobiliário em Londres, no qual a Secretaria de Estado do Vaticano usou 225 milhões de dólares da coleta anual do Óbolo de São Pedro para comprar parte de um ex-armazém da Harrods, no bairro vizinho de Chelsea, programado para ser convertido em apartamentos de luxo, e, em seguida, solicitou um empréstimo de emergência ao banco vaticano para comprar a parte restante, depois que eles romperam com o financista italiano que originalmente intermediou o negócio.

No fim, somou-se um sexto àqueles cinco, o monsenhor italiano Alberto Perlasca, encarregado dos investimentos financeiros da Secretaria de Estado até sua nomeação em julho passado para um cargo na Signatura Apostólica, a suprema corte vaticana.

Um daqueles cinco leigos italianos originais era Tomasso di Ruzza, ex-diretor da Autoridade de Informação Financeira, o órgão de vigilância contra lavagem de dinheiro do Vaticano. Di Ruzza havia sido defendido vigorosamente pelo seu ex-chefe, o especialista suíço em lavagem de dinheiro, René Brüelhart, que conduziu sua própria investigação interna, e a frustração com o caso levou à queda de Brüelhart em novembro passado.

Brüelhart havia sido o principal canal do Vaticano com a Moneyval, a agência de combate à lavagem de dinheiro do Conselho da Europa, que deverá realizar em breve outra revisão da Santa Sé. O advogado suíço tem credibilidade nesse mundo, tendo sido ex-vice-presidente do Grupo Egmont, uma rede global de unidades de inteligência financeira, e cuja fama era de ter devolvido o jato privado de Saddam Hussein para o povo do Iraque, depois de seguir o dinheiro do falecido ditador.

Até agora, não há nenhuma evidência para sugerir que Di Ruzza ou os outros quatro empregados são culpados de irregularidades. De qualquer forma, o acordo sobre o qual eles estavam sendo investigados havia sido aprovado pelos superiores da Secretaria de Estado e, no fim, pelo próprio papa.

(Enquanto isso, o Vaticano anunciou em dezembro que o mandato de Di Ruzza havia expirado, e, no dia 15 de abril, Francisco nomeou Giuseppe Schlitzer para substituí-lo, um italiano que já havia trabalhado no Banco da Itália e no Fundo Monetário Internacional, que é e membro da União Cristã de Empresários e Gestores.)

A veterana jornalista vaticana Gianfranca Soldati observou a coincidência de que as demissões ocorreram logo após o aniversário de três anos da inexplicável remoção de outro empregado vaticano, Eugene Hasler, que foi durante anos uma alta autoridade do governo do Estado da Cidade do Vaticano. No dia 28 de março de 2017, ele foi demitido pessoalmente pelo Papa Francisco e, desde então, pede que seja aberta uma investigação para mostrar o que ele fez de errado.

Em uma recente publicação no Facebook, Hasler sugeriu que certas partes não identificadas haviam falsificado informações para fazer com que o papa perdesse a confiança nele e depois escreveu:

“Após três anos, algumas coisas estão vindo à tona, outras precisarão de mais tempo, mas precisamos saber. Quase todas essas pessoas, e eu enfatizo: quase todas, ainda estão no comando e, em parte, ocupam cargos ainda mais importantes (por exemplo, promoções). Eles não são apenas leigos...”

A implicação clara de Hasler é de que ele foi transformado em um bode expiatório para clérigos do sistema com algo a esconder, o que é mais ou menos a mesma coisa que Libero Milone, ex-auditor vaticano, sugeriu quando foi preso e forçado a renunciar em 2017 – pelo então chefe dos gendarmes vaticanos, Domenico Giani, que mais tarde seria forçado a sair devido ao escândalo de Londres.

Muitos observadores aqui não podem deixar de se perguntar se a dinâmica do bode expiatório está em ação para pelo menos algumas das cinco pessoas investigadas pelo acordo de Londres, como Caterina Sansone, uma leiga que trabalhou na Secretaria de Estado e que aparentemente foi indicada apenas por ter atuado como uma figura de destaque para facilitar a papelada burocrática.

Observadores vaticanos sabem que aqui há uma prática consagrada pelo tempo de que os leigos sofram a queda quando os superiores clericais estão em apuros, e esse roteiro tem sido amplamente aplicado em relação às demissões.

Duas coisas parecem claras, especialmente para um papa que tem se comprometido repetidamente com a transparência como uma pedra angular da reforma.

Primeiro, as razões para as demissões precisam ser explicadas. Se essas cinco pessoas devem ser julgadas responsáveis por tudo o que deu errado no acordo de Londres, também é preciso explicar como elas poderiam realizar essa manobra sem a aprovação de pessoas muito mais altas na cadeia alimentar.

Segundo, o Vaticano anunciou recentemente que a coleta do Óbolo de São Pedro, que geralmente ocorre em torno da festa de São Pedro e São Paulo, no dia 29 de junho, foi transferida para o dia 4 de outubro por causa do coronavírus. Se os párocos de todo o mundo vão ter que ficar na frente das suas comunidades e pedir o apoio para o Óbolo de São Pedro, eles também devem receber uma explicação do que ocorreu.

No fim, talvez não houvesse nada de errado com o investimento – que, segundo relatos, realmente triplicou em valor no período pós-Brexit. Mas, se é assim, então é ainda mais misterioso o motivo pelo qual cinco pessoas aparentemente perderam seus empregos por causa disso.

Francisco foi eleito com um mandato de reforma e, a partir da sua própria retórica, fica claro o quanto ele abomina a corrupção. Neste exato momento, no entanto, muitos observadores diriam que as finanças do Vaticano estão mais opacas, menos transparentes e mais nas mãos da velha guarda do que quando ele começou – e, para essa pandemia, infelizmente, a curva não parece estar se achatando.

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