Teologia para a libertação do meu Iraque

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28 Janeiro 2020

A Igreja está passando, no Vaticano, por uma temporada de tensões. A Igreja Católica vivencia, na periferia, uma temporada de militância renovada. Os protagonistas são o cardeal de Bagdá, Louis Raphaél I Sako, alinhado com os "rebeldes" da praça Tahrir, e Leonardo Boff, pai da teologia da libertação e, agora, de uma nova teologia do meio ambiente.

A entrevista é de Lorenzo Cremonesi, publicada por La Lettura, 26-01-2020. A tradução é de Luisa Rabolini

“Não, não tenho medo de dizer isso em voz alta. Apoio abertamente, publicamente os jovens da praça Tahrir, bem como os que saem para se manifestar nas ruas do sul do Iraque: em Basra, Nassiriya, Najaf, Qarbala e Al Kut. Eles são a esperança de um Iraque diferente, mais humano, mais justo. Tolerante."

É preciso ouvi-lo pessoalmente para entender que no patriarcado caldeu de Bagdá respira-se um ar diferente, aberto e corajoso, determinado a mudar as coisas. Não uma igreja medrosa, dobrada sobre em si mesma, preocupada principalmente em não se expor. Mas pronta para correr riscos, lutar, fazer sua voz ecoar. É encarnada por uma pessoa de setenta anos, de rosto suave e sorridente, de baixa estatura, aparentemente frágil.

Aparentemente. Porque assim que você fala com ele, suas palavras são claras, cristalinas, quase militantes. "Acredito que aqui no Iraque os parâmetros da Teologia da Libertação, da Igreja que está com os pobres contra os poderosos, contra as injustiças, contra os sectarismos, que se coloca do lado daqueles que lutam pelos direitos contra a corrupção, contra as divisões, contra os partidos confessionais", diz Louis Raphaél Sako. Nada a ver com os longos silêncios e reticências dos últimos anos.

Na época de Saddam Hussein, fora se lastimar sobre a fuga dos cristãos das igrejas orientais e do fato de terem sido abandonados pelo mundo ocidental, os altos prelados iraquianos geralmente preferiam ficar nas sombras.

Não o cardeal Sako. Percebe-se que ele ainda não está acostumado ao título. “O Papa Francisco decidiu isso em maio de 2018. Espero estar à altura. Mas nada muda para mim aqui. Estou com meu povo", diz ele, mostrando um de seus escritos - depois de visitar os jovens manifestantes na praça Tahrir no início de novembro – em que ele traça "um paralelo direto entre a Teologia da Libertação, nascida e criada entre as Igrejas da América Latina em os anos 1960-70, e a situação iraquiana”.

Sua imagem em frente ao "Restaurante Turco", o grande edifício em construção que se tornou o quartel geral das revoltas, também apareceu nas mídias sociais. Ele foi aplaudido, mas também sofreu pesadas ameaças. Agora, a sua residência está guardada pela polícia noite e dia. Não é de estranhar que entre os círculos diplomáticos ocidentais em Bagdá muitos temam por seu destino. “O cardeal Sako corre grande risco. Ele está desafiando abertamente o Irã e as milícias xiitas que o apoiam. Este continua sendo um país violento, os assassinatos políticos são corriqueiros. Teerã controla os gânglios vitais do estado iraquiano", disse uma fonte diplomática anônima ao La Lettura.

Sako continua em frente. “Eu sigo o evangelho. Aqui há jovens que são sequestrados e mortos todos os dias. Mas eles também representam a primeira possibilidade real de renascimento do país após a catástrofe em que caiu desde a época funesta da invasão dos EUA em 2003", explica.

Eis a entrevista.

Cardeal, a imprensa local e internacional o filmou enquanto estava indo à praça Tahrir em um modesto tuktuk, uma motoneta. Aparentemente, o senhor foi o único expoente religioso a fazê-lo. Qual foi a sua mensagem?

Muito simples: pela primeira vez em mais de quarenta anos, compreendi claramente que esses jovens manifestantes representam um Iraque absolutamente novo, um Iraque sem precedentes, nunca antes visto. Isso também acontece no Líbano com manifestações de rua em Beirute, mas a polícia lá não atira. Aqui, ao contrários, os manifestantes desafiam os atiradores de elite e as violentas provocações de seus inimigos. Nós temos o dever de ouvi-los. Eles já perderam centenas dos seus, talvez mais de 600 mortos desde o início de outubro; mais de 22.500 feridos. São números assustadores. Mas eles continuam. São corajosos, generosos.

Em que sentido a mensagem deles é nova?

Este é um país atrasado, muitas vezes primitivo, violento. Triunfam identidades tribais, sectárias e beduínas. A ideia de nação e cidadania não existe; é desconhecida. Nas escolas, os currículos são atrasados, pré-modernos. Os jovens manifestantes, em primeiro lugar, exaltam a identidade nacional iraquiana. Eles não fazem diferença entre xiitas, sunitas, curdos ou outros. Dizem que, em primeiro lugar, somos iraquianos, iguais perante a lei e o Estado, todos com os mesmos direitos. Sei que para vocês na Europa esses são princípios óbvios. Aqui não.

Saddam Hussein, morto em 30 de dezembro de 2006, também exaltava o nacionalismo iraquiano. O senhor quer retornar àquela época?

Absolutamente não. Saddam exaltava unicamente o culto à sua personalidade. O seu era um estado totalitário, onde os indivíduos não contavam nada.

O senhor foi o único líder religioso a levar a sua solidariedade à praça Tahrir ...

É verdade. Trouxe comigo alimentos, remédios e doações em dinheiro, mais de cinco mil dólares para as clínicas que tratam os feridos nas ruas. Fui recebido como um amigo, como um irmão. Porque eles entenderam que eu os legitimava, escutava os seus sofrimentos, as suas solidões. E acrescentei que entre seus slogans, um dos mais zombadores era o da exaltação da cidadania iraquiana, que significa igualdade, liberdade, justiça. Eles agitam nossa bandeira nacional, não bandeiras religiosas.

Mas os cristãos continuam a deixar o Iraque e todo o Oriente Médio...

Verdade. Mas o risco afeta a todos, não apenas aos cristãos. Notei que também há muitos cristãos na praça Tahrir. Não têm medo de armar as tendas encimadas pelas cruzes, desfilam juntos e ninguém os incomoda.

Em que ponto estamos com esse êxodo?

Mal. Muito mal Na época de Saddam Hussein, havia 1,8 milhão. Destes, pelo menos 75% eram caldeus católicos. Agora, caímos para cerca de 400 mil, metade dos quais em Bagdá. As igrejas estão vazias. É claro que algo não funcionou após a invasão dos EUA em 2003.

Após a blitz ordenada por Donald Trump para matar Qassem Soleimani e os principais líderes das milícias xiitas em 3 de janeiro, os senhor acredita que os estadunidenses devem sair e com eles todo o contingente internacional?

Não, não creio. O contingente internacional, que também conta com um grande número de soldados italianos, contribui para manter a estabilidade no país inteiro. Os deputados curdos e sunitas fizeram bem em se abster durante a votação parlamentar pela expulsão.

Mas se os estadunidenses deixassem o Iraque, não seria um caos?

Claro. O Iraque precisa de soldados do contingente comandado pelos EUA para se manter. E nosso governo está bem ciente disso.

Quer dizer que o primeiro-ministro xiita Adel Abdul Mahdi só fez uma pantomima para satisfazer o ressentimento do Irã, mas na realidade opera para manter o status quo?

Sim, foi um voto de fachada. Tudo deve mudar para que nada mude. Grande parte do país teme as milícias xiitas. Muitos cidadãos xiitas também estão felizes por estarem aqui os EUA. Aqui prevalece um grave vácuo de poder e a presença internacional nos ajuda. Além disso, permanece vivo o perigo do ISIS, que deve continuar a ser monitorado.

Por que não levou sua solidariedade à embaixada iraniana pelo assassinato de Soleimani? Muitos líderes religiosos fizeram isso...

Não. Eu fiz apelo ao diálogo. Repeti que os gritos de vingança são inúteis, se não para reavivar tensões. Eu acrescentei que agora cabe à ONU tentar reabrir o diálogo e evitar a nova pressão violenta entre golpes e respostas.

Por que o Iraque ainda não consegue andar com as próprias pernas depois de todos esses anos?

Após a guerra de 2003, nunca se trabalhou realmente para a reconciliação nacional. Após a queda de Saddam Hussein, as comunidades imediatamente começaram a violenta competição para prevalecer umas sobre as outras. Faltou diálogo, a comparação. Nós nos tornamos um quebra-cabeça caótico de comunidades inimigas em luta. Agora você entende minhas simpatias pelos jovens da Praça Tahrir? Eles representam um raio de luz para sair desse caos. Eles devem ser ajudados, não desarticulados. Eles devem ser ouvidos e compreendidos. Pela primeira vez desde o final da ditadura de Saddam, temos forças em campo que podem dar esperança para um futuro melhor.

 

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