Síria. 'Eis aqui os desastres dos EUA, o Isis é o nosso martírio'. Entrevista com o cardeal Raphael I Sako

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11 Julho 2018

Tem dois cardinalatos a seu cargo, o de patriarca da Igreja cristã caldeia e o de novo cardeal, recém consagrado pelo Papa Francisco. Para dizer ao mundo que os cristãos do Oriente são muito importantes, e todos deveria se preocupar com isso. Raphael I Sako, cristão caldeu, é um pastor e um homem de sabedoria, de elevada cultura: ninguém quanto ele pode testemunhar o que viveu o seu povo no Iraque, o martírio de tantos, tão persistentes e firmes na fé. E lembrar as responsabilidades de políticas pouco generosas, cruéis e repetidamente equivocadas jogadas sobre as costas dos povos, sem o mínimo respeito politicamente correto. Perguntamos por que o título tão pomposo com o qual é chamado, Sua Beatitude. "Porque viver o evangelho já significa viver na terra abençoada. Então, um cristão, se quiser ser verdadeiro, deve seguir as bem-aventuranças. Estou no caminho. Eu vivo na paz, na alegria e na gratuidade da fé cristã".

A entrevista é de Monica Mundo, publicado em Il Sussidiario, 07-07-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Você nasceu em uma aldeia no Curdistão. Já percebia, quando criança, que vivia em uma terra considerada diferente, de algum modo perseguida e marginalizada, mesmo que sua família fosse cristã?

Minha família fugiu da Turquia em 1925, após o genocídio dos armênios, caldeus e assírios. Em Zaho, na fronteira, os britânicos deram aos exilados uma aldeia que eles ampliaram e construíram, e eu nasci lá. Mas meus pais possuíam terras e precisavam de trabalhadores muçulmanos, que vieram para a aldeia e se tornaram quase metade da população, até que a quiseram toda para eles. Eles mataram meu tio: então meu pai pegou um rifle e matou um deles, feriu outros 4 e foi preso. Felizmente, a esposa do morto foi contar ao juiz que meu pai havia agido em legítima defesa e aos parentes de seu irmão que ele não era totalmente culpado. Então ele foi solto. Mas, é claro, não ficamos na aldeia, por medo e pela nossa segurança. Fomos a Mosul, a antiga Nínive. E eu cresci lá.

Para nós, Mosul nos últimos anos tornou-se um dos redutos do Daesh, do Ísis. Portanto, já como jovem você vivenciou a guerra, a condição de um migrante. Sua família religiosa, católica. Você tem uma irmã freira que entrou no convento no mesmo dia em que você entrou no seminário. Vocês combinaram isso?

Não, realmente não! Eu tinha 12 anos e ela era mais nova que eu. Fui à estação de trem porque ela tinha que ir a Bagdá, à casa das Irmãs da Imaculada. Depois de levá-la à estação, voltei para casa para pegar minha mala e também fui ao seminário.

Você deve ter ficado muito feliz quando foi indicado para a púrpura, que já usava, porque é o hábito dos patriarcas!

Para nós, o vermelho é o símbolo não do papel do poder, mas do amor, do sangue, de dar a vida aos outros. Ser consagrado na Igreja significa dar a própria vida. Não devemos ter medo, como Jesus, esse sacrifício não é em vão, mesmo esses mártires de hoje ... esse sangue é fértil. A paz virá, juntamente com a estabilidade, para a dignidade humana. Mas são necessários sacrifícios.

Você fala com muita clareza e serenidade. Para nós, graças a Deus, é inconcebível pensar que dar a vida significa dar o próprio tempo, a própria obra, mas também o sangue. Porque temos o privilégio de desfrutar, como cristãos, de uma situação favorável há muitos séculos. A igreja iraquiana não.

Em nossa história, mesmo antes da chegada dos muçulmanos, havia os persas. Centenas de cristãos foram assassinados por causa disso. Então, quando os muçulmanos chegaram, forçaram muitos a se converterem, milhares se recusaram e foram mortos pela fé. Nós sempre tivemos mártires, mesmo agora com o Isis.

Tornar-se sacerdote aos doze anos, por que uma escolha tão perigosa?

Fiquei muito comovido quando vi um padre na igreja aonde eu ia à missa com meu pai. Para mim, foi um exemplo, um modelo, sonhei em me tornar um padre como ele. Hoje esses modelos são um pouco raros, mas existem na Igreja.

E você, padre (é chamado de habuna por seus fiéis, pai) manteve esse aspecto pastoral junto com todas as competências teológicas. Você fala oito idiomas fluentemente, e quis ter, além de uma formação em teologia, também um diploma em filosofia na Sorbonne, um dos templos da cultura laica.

Depois de me formar em Roma, voltei para o Irã, era a época da guerra com o Iraque, um absurdo, um milhão de mortes. Eu sabia que, se não tivesse um doutorado "laico", teria que prestar serviço militar. Eu encontrei Saddam cara a cara, disse que eu tinha um doutorado como os outros, mas eles me responderam que não era reconhecido porque era do Vaticano. Fazer uma guerra como padre? Eu não sou feito para fazer guerra, respondi a ele.

Nenhum homem é feito para fazer guerra ...

Ele me disse: “Tudo bem, ore por mim", e protelou o meu caso, a fim de permitir-me voltar para ser padre em Mosul. Então eu tive um convite, tinha um congresso em Amsterdã e lá conheci um professor da Sorbonne, que me ofereceu uma vaga de doutorado em Paris. Em nove meses eu terminei ... e evitei o serviço militar!

Você trovejou muitas vezes contra as guerras decididas em gabinete, que sempre recaem sobre as pessoas, o povo, e também disse que há um plano para dar uma nova forma ao Oriente Médio, a ser dividido ao longo de fronteiras étnicas e religiosas.

Claro. É o plano dos norte-americanos. Várias vezes eles conversaram sobre esse plano do novo Oriente Médio, de Kissinger à senhora Clinton, abertamente.

Desde o início, eles se equivocaram na política do Oriente Médio, após a primeira guerra mundial. Eles não procuram realizar um projeto de cidadania, conduziram, por exemplo, um rei da Arábia Saudita para o Iraque, outro para a Jordânia, quando havia iraquianos, havia jordanianos! Poderiam ter colocado na Constituição como base apenas a cidadania, pela qual todos os cidadãos são iguais, sem dizer que são curdos, árabes, cristãos, muçulmanos ... isso é uma coisa pessoal, enquanto a cidadania é para todos. Assim tudo explodiu como um vulcão, e todo mundo procura outra identidade: xiita, sunita, cristã, árabe, curda ... como podemos conciliar tais identidades opostas? É quase impossível.

Após a queda do regime de Saddam Hussein, quanto do seu povo teve que fugir? E quantos podem voltar hoje?

Quase um milhão de cristãos, mas mais ainda muçulmanos, toda a inteligência, os ricos e os jovens, que partiram em busca de um futuro. E em minha opinião quem partiu não volta mais, porque as crianças agora frequentam escolas em outros países e não querem.

O que o Iraque precisa para sair de uma crise perene?

Precisamos mudar a mentalidade, a cultura sectária e criar um estado laico, civil e laico baseado na cidadania. Uma economia mais forte, a independência dos países vizinhos, por exemplo, Irã, Arábia Saudita, Turquia e também dos Estados Unidos. Boas relações, mas sem poder intervir na política interna, é um impacto forte demais: os iraquianos não são livres.

Que tarefa podem ter os cristãos, mesmo que tão poucos? Vocês são nossos irmãos mais antigos, porque São Tomé é vosso pai e ele evangelizou estas terras, a sua língua é uma forma de aramaico que Jesus falava. Você repetiu várias vezes que, embora poucos, vocês têm a tarefa de ser sal e fermento.

Para vocês a Bíblia dos primeiros Padres tem uma linguagem diferente, vocês não podem compreendê-la, mas para nós é como se estivesse em nosso sangue, nós entendemos o que significa ser o sal, a luz ... Nós temos essa consciência, então temos uma missão e quando há uma missão é preciso muito sacrifício. Nós contamos muito na sociedade iraquiana, nossa qualificação, educação, e especialmente a abertura. Quando uma mulher cristã sai à rua, todo mundo olha para ela e diz: "Por que ela é livre e nós não podemos?". A mudança ocorre aos poucos, graças à nossa conduta, às nossas orações.

Padre Sako, há um livro, escrito alguns anos atrás, quando a maioria das cidades do Iraque estava nas mãos do Isis, Mais fortes que o terror, publicado pela Emi: esse título resume o que nos contou até agora, conta uma história terrível que vivemos como uma notícia cotidiana, como um medo de que esse terror também chegasse até nós. Nós nos acostumamos com o terror que vocês viveram dia após dia. Você nunca teve medo?

Nunca, nunca, nunca. Também falei com membros do Isis, para fazer negociações, salvei muitas pessoas assim. Eu acredito que precisamos conhecer as razões pelas quais existe o Isis, a Al Qaeda: tudo é muito complicado. Vocês não sabem nada sobre o que é o Isis. O Isis é cego. O Isis em minha opinião é politizado, é claro, mas o Isis se baseia nos versículos do Alcorão. Os muçulmanos devem fazer uma nova leitura dos versículos que pedem violência, que pensam que somente o Islã seja a verdadeira religião, que outras religiões sejam falsas. Se existem versículos do tempo de Maomé, é necessário inseri-los no contexto, fazer uma exegese, como nós fizemos.

A maior parte do Islã no Iraque é moderada?

Nem todos os muçulmanos são fanáticos, não devemos generalizar e, por natureza, os iraquianos são moderados, vivemos 35 anos em um regime laico. Depois os norte-americanos abriram as fronteiras e todos esses fundamentalistas vieram da Jordânia, Egito, Iêmen, Arábia Saudita ...

Falando em fronteiras, você se expressou em duas ocasiões de maneira muito contundente. Uma afirmando que é errado acolher pessoas que fogem do Iraque quando deveriam ser ajudadas a ficar por lá, porque senão acabarão faltando pessoas, faltando jovens.

Porque tudo é cortado, uma tradição, um patrimônio que remonta há mais de dois mil anos aos caldeus, uma civilização cujo patrimônio vive na comunidade, na língua. Se as crianças forem embora, depois de uma ou duas gerações elas serão norte-americanas, francesas e italianas. Por isso precisamos proteger as pessoas no local. E depois, repito, os cristãos têm uma missão, se querem ajudar os muçulmanos a se abrirem. São necessários cristãos, na sua terra.

Depois você falou contra o muslim band norte-americano, a discriminação dos migrantes com base religiosa, que além de ser injusta em si, coloca os cristãos ainda mais em risco.

Nunca devem ser criadas situações em bases religiosas ou étnicas: se um homem deixa seu país por razões econômicas ou políticas, ele busca uma vida mais digna e deve ser ajudado. Porém sou contra as migrações forçadas e em massa: devemos discernir. É melhor ajudar os africanos, os asiáticos a permanecem em seus países, promovendo projetos locais, para casas, escolas, hospitais ... Aqui no Ocidente os cristãos iraquianos que conheço estão dispersos, isolados, estressados. Eles não conhecem a língua, a mentalidade, é outro mundo.

O reconhecimento do Papa foi importante para o seu povo, sei que muitos celebraram, tanto cristãos como muçulmanos.

Nada mudou para mim, sou um patriarca e o título é superior ao de cardeal. Mas há uma mensagem por trás dessa nomeação: o Papa não pode vir ao Iraque, o ambiente não está pronto, então ele quis estar perto dos cristãos iraquianos com a sua amizade e com a oração, criando uma ponte entre a Igreja iraquiana e a Santa Sé.

O que a Igreja iraquiana nos pede?

Segurança! Cidadania, trabalho, escolas, hospitais e fidelidade à Igreja universal. Pede uma atenção pastoral fiel, viva e próxima.

Recentemente a reunião em Bari entre as igrejas orientais foi um sinal da atenção do Papa para realidades divididas e isoladas que se sentem parte de um abraço comum.

O papa não é o papa do Ocidente, não é apenas chefe da Igreja latina e romana. Toda a Igreja deve estar presente em sua pessoa. Quando viemos em visita ad limina, dissemos a ele que somos esquecidos, apesar de sermos um pequeno rebanho queremos estar presentes na Cúria, e para expressar sua solidariedade convocou todos os patriarcas católicos e ortodoxos, para vermos juntos o que a Igreja pode fazer e o que podemos esperar da sociedade internacional, os medos e as esperanças. A primeira esperança é a paz, poder viver livres e com alegria, sem medo, sem sentir-se escravos.

O Estado Islâmico foi derrotado?

Militarmente sim, mas como ideologia ainda é forte, talvez mais forte. Porque não tem um território, mas está na cabeça, e a ideologia incentiva quem a serve a buscar vingança contra os ocidentais, considerados culpados. Isso explica os ataques nos países europeus.

Como essa ideologia doentia pode ser erradicada?

A tarefa dos muçulmanos e das autoridades religiosas é fazer uma reforma dos ensinamentos, os discursos em mesquitas devem ser livres, abertos, não é possível viver no século VII, no primeiro da era muçulmana. O mundo muda e é preciso enfrentar a modernidade de maneira correta. Sem se ater a uma letra antiga. Eu sempre digo para aprender com a nossa experiência, segundo a qual a Igreja é sempre reformanda...

Uma menina iraquiana cristã, Myriam, comoveu consciências aqui entre nós, explicando em uma entrevista, com ingênua, mas límpida consciência, sua oferta de perdão a quem a havia sequestrado, a quem a havia desenraizado de sua cidade, Qaraqosh.

Fui visitar a família de Myriam em Erbil, onde ela se refugiou. O pai é cego, desempregado, e há muitas crianças na casa. A pequena foi sequestrada e depois libertada com um pequeno resgate. Os pais viveram um período dramático, mas resistiram com oração, solidariedade e proximidade. Hoje, tudo é baseado no dinheiro, que o individualismo, especialmente aqui entre vocês, triunfa e mata, a fé em Deus e a fidelidade com os homens são a coisa mais importante que deve ser lembrada.

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