''Eu, mulher, contra os infiéis do Islã radical.'' Entrevista com Ani Zonneveld

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21 Agosto 2017

“O Ocidente vencerá a batalha contra o radicalismo islâmico somente quando se dissociar da Arábia Saudita, que exporta essa ideologia violenta. Até agora, os Estados Unidos e a Europa só discutem paz, segurança e direitos humanos, esquecendo-se de que são cúmplices dos sauditas, dos quais compram petróleo e aos quais vendem armas.”

A reportagem é de Farian Sabahi, publicada no jornal Corriere della Sera, 20-08-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É o que afirma Ani Zonneveld, fundadora e presidente da Muslims for Progressive Values, uma associação de muçulmanos progressistas com mais de 10.000 membros. Ele vive em Los Angeles, onde dirige a oração (ou seja, uma imamah, uma imã mulher) das sextas-feiras (para homens e mulheres), celebra matrimônios inter-religiosos, heterossexuais, homossexuais e até mesmo transexuais.

Filha de um diplomata, Ani Zonneveld nasceu há 54 anos na Malásia, um país multicultural e multirreligioso, e viveu na Alemanha, no Egito e na Índia, para depois se mudar para os Estados Unidos, para frequentar a faculdade e se dedicar à música (ela ganhou um Grammy). Personagem transgressivo e eclético, na sexta-feira, 22 de setembro, ela será uma das convidadas do evento Torino Spiritualità.

Eis a entrevista.

Os terroristas atingiram Barcelona. Por que visam a lugares públicos?

Os terroristas que atingiram Barcelona são seres desprezíveis, querem criar notícias matando inocentes. Buscam objetivos fáceis: mercados, sorveterias, cafés, onde há uma dimensão alegre. Eles vão continuar atacando a Europa, mas o seu modo de agir não tem nada a ver com o Islã. O fato de que os que são mortos são civis, inocentes, contradiz os ensinamentos de Maomé, segundo o qual, em tempo de guerra, os civis e os crentes (incluindo cristãos e judeus) não devem ser alvejados, é proibido envenenar as fontes de água e pisotear a grama destinada ao pasto.

No entanto, os terroristas usam como pretexto as escrituras do Islã...

Eles interpretam o Alcorão à sua maneira, depravando-o, e essa interpretação deles está se espalhando como um câncer. Em um post nas mídias sociais, o suspeito Moussa Oukabir escreveu que “é preciso matar os infiéis e poupar apenas os muçulmanos praticantes”. Afirmações absurdas, porque o termo infiel não indica o não muçulmano, mas sim aquele que esconde o verdadeiro significado de Deus. Na minha opinião, esses assassinos e os seus imãs é que são kafir [aquele que não crê]. Nós, muçulmanos progressistas, trabalhamos desde 2004 para desafiar essas interpretações do Islã radical.

Vocês já se mobilizaram também por causa dos recentes eventos de Charlottesville que trouxeram para o primeiro plano o extremismo de direita?

Sim, a nossa associação assume como objetivo combater as ideologias radicais sob a bandeira do Islã, mas não percebemos nenhuma diferença entre os integristas muçulmanos e os extremistas brancos. As ideologias não se esgotam na destruição ou na remoção dos monumentos. Seria oportuno seguir o exemplo da África do Sul, onde o Museu do Apartheid e o Slave Lodge recordam os horrores do passado sem glorificá-lo.

Voltemos à Europa, onde assistimos ao retorno dos chamados foreign Fighters da Síria e do Iraque. Como é possível enfrentar esse problema?

É necessário erradicar a ideologia que anima esses jovens, trabalhando com os líderes religiosos muçulmanos, para que esses rapazes escolham um caminho diferente do radicalismo. Mas a questão é saber onde encontrar os imãs capazes de realizar essa tarefa. Em todo o caso, é um problema que deve ser resolvido pelos próprios muçulmanos, mobilizando-se para erradicar as interpretações radicais dos seus textos sagrados.

Essas interpretações radicais trazem consigo uma boa dose de misoginia. Na sua opinião, por que, ao longo dos séculos, o Islã se tornou tão agressivo com as mulheres?

Não é culpa do Islã em si mesmo, mas daqueles muçulmanos que depravaram a nossa religião. Eu fico com raiva quando penso em todas as injustiças que as mulheres muçulmanas tiveram que sofrer, quando, há 14 séculos, a Revelação tinha nos permitido obter direitos. Penso em Maria, a mãe de Jesus, à qual é dedicado um capítulo inteiro do Alcorão e que é mantida na palma da mão pelos muçulmanos, sinal do valor que o Islã dá às mulheres, bem diferente daquela atitude daqueles homens que estão monopolizando a nossa religião. No século XXI, ainda devemos lutar para poder frequentar as escolas, para decidir por nós mesmas. Defrontando-nos com conceitos absurdos, como a tutela por parte de um guardião, as diferenças de gênero em âmbito hereditário, a questão da honra.

Sobre os direitos das mulheres no Islã, em que consiste a iniciativa de vocês intitulada #ImamsForShe?

Trabalhamos com imãs do sexo masculino, com os estudiosos e as estudiosas das escrituras do Islã, com todos aqueles que promovem os direitos das mulheres e das meninas. No nosso programa, existem oficinas, campos de esportes para meninas, onde também realizamos cursos sobre as interpretações liberais do Islã, para dar a essas jovens os instrumentos para responder – com as armas da religião – às imposições e defender os próprios direitos. Seria bom se Malala (ativista paquistanesa vencedora do Prêmio Nobel da Paz) também aderisse.

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