Islamismo é distorcido por extremistas sem conhecimento religioso verdadeiro

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24 Abril 2015

"Nós condenamos de forma inequívoca a violência exercida contra inocentes no decorrer da luta que o Egito conduziu contra o terrorismo nos anos 1980 e 1990, o pecado abominável do 11 de setembro, a atual luta contra o terrorismo no Egito e o ataque recente contra o "Charlie Hebdo" em Paris", escreve Shawki Allam, Grão-Mufti do Egito, em artigo publicado no jornal Le Monde e reproduzido pelo portal UOL, 23-04-2015.

Segundo ele, "nenhum desses extremistas foi educado sobre o islã dentro de verdadeiros centros de ensino do islamismo. Na verdade eles são produto de ambientes caóticos e aderiram a interpretações deturpadas e errôneas do islamismo. O objetivo deles é político e não tem nenhum fundamento religioso, visando semear a desordem e o caos no mundo".

Eis o artigo.

Várias regiões do mundo têm sido vítimas de extremistas violentos que agem em nome do islamismo, sendo os massacres recentes em Paris os mais chocantes desses ataques. Autoridades e comentaristas ocidentais e orientais estão preocupados em saber onde se encontram os moderados. São muitos os que estão desesperadamente atrás de parceiros progressistas e pacíficos reconhecidos no mundo muçulmano.

No entanto, reconciliar o islamismo com o mundo moderno há muito tempo é uma necessidade para os muçulmanos. Esse processo remonta sobretudo ao século 19, quando aquilo que se chama de movimento da reforma islâmica nasceu na Universidade Al-Azhar do Cairo, o principal estabelecimento de ensino do islamismo.

No Dar al-Iftaa, o órgão supremo egípcio para os decretos jurídicos islâmicos que eu presido, nós debatemos permanentemente a questão da aplicação do islamismo no mundo moderno. Nós publicamos milhares de fatwas, ou decretos jurídicos oficiais, afirmando o direito das mulheres à dignidade, à educação, ao emprego e ao exercício de uma função política, e condenando a violência e o terror motivados por motivos religiosos. Nós defendemos o direito à liberdade de consciência e à liberdade de expressão dentro dos limites da decência elementar. Nós lembramos os pontos em comum que existem entre o islamismo, o cristianismo e o judaísmo. Nós nos certificamos de que seja respeitada a liberdade humana no contexto da lei islâmica. Contudo, devemos efetuar mais progressos sobre essas questões e sobre outros problemas.

Nós condenamos de forma inequívoca a violência exercida contra inocentes no decorrer da luta que o Egito conduziu contra o terrorismo nos anos 1980 e 1990, o pecado abominável do 11 de setembro, a atual luta contra o terrorismo no Egito e o ataque recente contra o "Charlie Hebdo" em Paris. Nós continuamos a fazê-lo nos debates públicos que conduzimos com os extremistas, em nossa ação junto às escolas e organizações de jovens, na formação que fornecemos àqueles que vêm do mundo inteiro estudar nos estabelecimentos teológicos egípcios e em nossa ação de prevenção junto aos extremistas. Na condição de responsável por uma das mais altas autoridades islâmicas do mundo, eu repito: o assassinato de civis é um crime contra a humanidade e contra Deus que merece punição tanto neste mundo como no outro.

O respeito às nossas diferenças.

Se devemos nos esforçar para reforçar os princípios em comum que compartilhamos, também devemos aceitar que são reais as diferenças em nossos valores e nossa concepção de mundo. As religiões e as culturas do mundo não têm os mesmos sistemas de valores. O respeito às nossas diferenças deve ser o fundamento da coexistência, jamais um motivo de conflito.

Desde que fui nomeado mufti do Egito, nós tomamos o cuidado de nos dirigir ao mundo inteiro para promover a coexistência pacífica e construir pontes.

No entanto, em relação à atenção que o mundo muçulmano vem recebendo, acredito que são necessários avanços práticos para transformar essa boa vontade em uma relação duradoura de confiança e de respeito. É essa a mensagem que desejo transmitir em nome do mundo muçulmano durante minha próxima viagem à França, entre os dias 21 e 25 de abril.

Em primeiro lugar, para que o islamismo seja um ator reconhecido e moderado no mundo de hoje, é fundamental que sejam os religiosos muçulmanos certificados a serem considerados para falar em nome do islã. A mídia muitas vezes sucumbe à tentação de misturar com todos os muçulmanos extremistas que não representam ninguém além de si mesmos.

Nós também temos uma parte de responsabilidade nessa confusão, e é por isso que está na hora de religiosos muçulmanos se expressarem mais claramente. Mas também é importante que a mídia, as ONGs e os governos sejam mais atentos em sua relação com os eruditos religiosos. É procedendo assim que um islamismo saudável e moderado poderá vencer essa minoria que adere aos ensinamentos extremistas. Muitos esforços já são feitos em todo o mundo muçulmano para educar os pregadores e todos aqueles que estudam o islamismo para ajudá-los a se engajarem de maneira mais produtiva na modernidade. Além disso, os religiosos muçulmanos estão empenhados no cenário internacional para melhorar as relações entre as religiões. 

Em segundo lugar, é necessário que nosso diálogo se dê em todos os planos. Para além do apelo imediato por iniciar um novo capítulo e melhorar nossas relações, é urgente abrir o diálogo para incluir os discursos científicos, culturais, econômicos e tecnológicos. Deveriam existir relações mais estreitas entre as universidades e centros de pesquisa franceses e egípcios e entre nossos estudantes. Essa partilha de conhecimento entre os jovens, antes que o fanatismo e os estereótipos se instalem, é um método seguro para melhorar a tolerância da próxima geração de líderes.

Em terceiro lugar, tanto no islamismo como em outras religiões, estamos assistindo a um fenômeno através do qual laicos sem um conhecimento religioso adequado estão tentando se estabelecer como autoridades religiosas mesmo não possuindo as qualificações necessárias para realizar interpretações corretas da lei e da moral religiosa. É essa atitude distorcida e rebelde em relação à religião que abre caminho para interpretações extremistas do islamismo que não têm nenhum fundamento.

Além disso, nenhum desses extremistas foi educado sobre o islã dentro de verdadeiros centros de ensino do islamismo. Na verdade eles são produto de ambientes caóticos e aderiram a interpretações deturpadas e errôneas do islamismo. O objetivo deles é político e não tem nenhum fundamento religioso, visando semear a desordem e o caos no mundo.

Nosso papel como líderes religiosos que dedicaram sua vida a estudar as exegeses religiosas é restaurar a autoridade daqueles que possuem o conhecimento. No cargo que ocupo atualmente comecei a promover uma imagem autêntica do islamismo que, espero, virá a fornecer ao mundo uma melhor compreensão do islã e do mundo muçulmano, que nos ajudará a viver juntos em paz e cooperação mútuas.

Ainda que seja um clichê dizer que o diálogo é uma via de mão dupla, essa continua sendo uma verdade fundamental que hoje corremos o risco de perder de vista. Não há dúvida nenhuma de que a responsabilidade por uma melhor relação entre o mundo muçulmano e o Ocidente é tanto de um quanto de outro. Tenho a sensação de que isso não somente é possível, como de que é a única maneira de construirmos um mundo mais iluminado e mais próspero para nossos filhos e netos. Com cooperação e respeito, nunca nenhuma tarefa foi impossível para o homem.

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