Na reforma financeira, Papa Francisco não dá o braço a torcer

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04 Março 2015

A esta altura, uma coisa já deve estar bastante clara a respeito do Papa Francisco: ante as tentativas de impedir seus esforços de reforma através de ataques a seus reformadores, este papa não dá o braço a torcer.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 03-03-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O último caso de que se ficou sabendo é o do cardeal australiano George Pell, a quem foi dada a incumbência de liderar uma limpeza histórica das finanças vaticanas um ano atrás. Terça-feira o Papa Francisco aprovou um conjunto estatutos sob a liderança de Pell que, até certo ponto, vai dar o que falar.

(Os estatutos foram divulgados terça-feira, mas foram assinados pelo papa no dia 22 de fevereiro e entraram em vigor no dia 1º de março.)

As primeiras reações à decisão vêm sendo diversificadas, com alguns comentadores italianos considerando-a como uma derrota à ambição de Pell em criar um “superdicastério”, quer dizer: um departamento vaticano com, praticamente, poderes ilimitados sobre tanto a administração quanto a vigilância de todos os ativos do Vaticano.

Comparado contra o que estava realmente em jogo, no entanto, a maioria dos observadores provavelmente irão considerar o resultado como uma vitória básica para Pell e sua equipe.
Francisco aprovou um quadro legal para todos os três novos órgãos supervisores lançados no ano passado:

• O Conselho para a Economia, de 15 membros, que define a política a ser adotada;
• A Secretaria para a Economia de Pell, que a implementa;
• Um novo auditor geral independente, encarregado de manter honesto todo mundo.

O que se faz mais notável sobre os estatutos não é tanto o que há neles, mas o que não há.

Nos momentos anteriores à decisão do papa, uma série de religiosos da velha guarda vaticana sugeriram impor novos limites a Pell e a sua Secretaria para a Economia, alimentados pela percepção de que ele havia acumulado um controle excessivo.

O cardeal italiano Francesco Coccopalmerio, presidente do Pontifício Conselho para Textos Legislativos, formalizou este descontentamento numa série de alterações sugeridas aos estatutos primeiramente apresentadas ao Conselho para a Economia, que amplamente as rejeitou, e então as passou ao papa.

Entre outras coisas, Coccopalmerio propôs a criação de um novo grupo de quatro (ou cinco) cardeais que supervisionariam Pell; limitar o papel e a influência dos especialistas financeiros leigos que trabalham para o Conselho para a Economia, e que são, em grande parte, percebidos como aliados de Pell; e tirar alguns dos maiores atores financeiros do Vaticano, tais como o governo do Estado da Cidade do Vaticano, da competência de Pell.

Tudo isto seria visto como novos limites significativos, mas nada disso aconteceu.

A mudança substantiva mais importante veio numa decisão de tirar a administração do patrimônio imobiliário do Vaticano do departamento de Pell, assumido por ele em julho passado quando a seção “ordinária” da Administração do Patrimônio da Sé Apostólica – APSA foi transferida para a Secretaria para a Economia.

Mesmo aqui, no entanto, a secretaria será a responsável pelas novas aquisições e pelo departamento pessoal, que são, na verdade, os aspectos que dão mais trabalho e que consomem mais tempo.

Uma sugestão que Francisco adotou de Coccopalmerio foi acrescentar dois auditores assistentes para trabalhar com o novo auditor geral.

Numa pequena mas reveladora demonstração de apoio ao prelado australiano, Francisco também descartou a sugestão de Coccopalmerio de se eliminar o inglês como uma língua de trabalho nos novos departamentos, em favor da típica insistência do Vaticano quanto ao idioma italiano.

Em setembro, revelações na imprensa italiana estiveram focadas no histórico de Pell em lidar com queixas de abusos sexuais enquanto atuava como arcebispo de Sydney, na Austrália, sugerindo que as críticas de uma Comissão Real Australiana enfraqueceriam Pell a tal ponto que Francisco pudesse se ver obrigado a livrar-se dele.

Na semana passada, a campanha anti-Pell emplacou um outro sucesso, desta vez com notas fiscais vazadas de seu departamento mostrando que este gastou mais de meio milhão de dólares em seus primeiros meses de operação, apesar da diretriz para se impor, no Vaticano, uma disciplina e sobriedade financeira.

Por parte de alguns, parece mesmo haver perseguição.

Por exemplo, quando Pell, em dezembro, afirmou ter descoberto centenas de milhões de euros escondidos em ativos, autoridades na Secretaria de Estado preparam um memorando para insistir que tais fundos eram perfeitamente legítimos e que haviam sido deixados de lado para despesas imprevistas. O memorando vazou na imprensa, forçando Pell a defender sua suposta descoberta.

A mesma coisa aconteceu em fevereiro, quando o cardeal australiano atualizou os demais cardeais sobre em que pé estavam os trabalhos, dizendo, entre outras coisas, que o seu departamento havia encontrado um déficit de quase 1 milhão de dólares em fundos de pensão. Dias depois, autoridades do fundo de pensão publicaram uma nota insistindo que estavam em boa forma e rejeitando relatos “alarmistas” quanto à sua viabilidade.

No final, nada disso foi suficiente para fazer com que o pontífice abandonasse Pell. E isto não deveria ser surpresa, porque já vimos isto antes sob o atual papado.

Em julho de 2013, Francisco nomeou o monsenhor italiano Battista Ricca como o seu representante no Banco Vaticano, para monitorar uma operação de limpeza destinada a evitar escândalos futuros com a instituição.

Pouco tempo depois, o respeitado vaticanista Sandro Magister publicou acusações na revista de notícias italiana L’Espresso de que Ricca havia se envolvido em relacionamentos homoafetivos enquanto atuava como diplomata papal no Uruguai na década anterior.

Embora não houvesse nada relativo a abusos sexuais ou conduta criminal, tais revelações foram, mesmo assim, embaraçosas. Muitos analistas acharam que o papa se veria forçado a remover Ricca, mas Francisco defendeu o seu amigo e Ricca continua na função até hoje.

Poder-se-ia citar outros exemplos, incluindo tudo o que disse nos últimos anos o cardeal hondurenho Oscar Rodriguez Maradiaga, nomeado por Francisco como o coordenador do Conselho dos Cardeais.

Às vezes, alguns críticos lamentam que Rodriguez pareça se considerar um vice-papa, pela sua forma de agir em certos momentos. Apesar disso, não há nenhum indício de que Francisco tenha a intenção de pedir ao prelado hondurenho para pensar duas vezes antes de falar.

A moral da história parece ser que se você quer ver fora um dos reformadores escolhidos pelo papa, a última coisa que você deverá fazer é vazar informações sobre eles ou envolver-se numa campanha de divulgação delas.

Este tipo de coisa, pelo que parece, praticamente garante que Francisco irá se manter firme em suas escolhas em vez de mudar o curso delas.

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