O mundo pós-pandemia gravitará em torno do G-2: EUA e China. Entrevista especial com Bruno Hendler

“As sociedades humanas hoje são tão culpadas por não prever a covid-19 quanto o foram à época da peste negra na Idade Média ou da gripe espanhola no começo do século XX”, diz o professor

Foto: Pixabay

Por: Patricia Fachin e Wagner Fernandes de Azevedo | 05 Mai 2020

A rapidez com que a pandemia de covid-19 se alastrou e atingiu a maioria dos países do mundo tem suscitado inúmeras teses sobre qual será o futuro da globalização e dos processos que estavam em curso em relação ao futuro do trabalho, às desigualdades sociais, à capacidade de enfrentamento das mudanças climáticas e ao papel dos Estados na gestão das crises subsequentes. Entretanto, até o momento, todas essas questões “continuam em aberto e a pandemia pode acelerar ou amenizar as contradições inerentes a esses processos”, pontua Bruno Hendler, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM. Mas culpar a globalização pelo contágio global de covid-19 “é tão infantil quanto culpar os navios a vapor que dispersaram o vírus da influenza em 1918 ou culpar as caravanas de comércio que dispersaram a peste negra entre a Ásia e a Europa”, diz na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line.

Hendler aposta que na geopolítica internacional serão acentuadas as “tendências que já ganhavam força, como a dissolução do poder hegemônico dos EUA e a ascensão da China como potência capaz de dar respostas sistêmicas para problemas sistêmicos”. Além do G-2, ressalta, a Alemanha será um ator de destaque na União Europeia e na Eurásia. “O movimento de Berlim entre Bruxelas, Washington e Moscou será determinante para os rumos da União Europeia, principalmente após a definição do Brexit. Porém, a liderança alemã no combate à pandemia na Europa é mais uma mostra de que na verdade são Bruxelas e Moscou que tendem a gravitar em torno de uma Alemanha”, menciona.

Para compreender o momento atual, o que ocorre “dentro dos Estados” e as disputas pós-pandemia, Hendler sugere a leitura do filósofo e economista político húngaro Karl Polanyi. “Para o autor, a economia política dos países oscila entre o avanço das forças do mercado autorregulável e um movimento contrário de proteção dos recursos naturais e da mão de obra comodificados pelo mercado. Em suma, haveria um eterno cabo de guerra entre empresas que visam ao lucro e Estados que garantem (ou deveriam garantir) condições mínimas de dignidade a seus cidadãos”, diz.


Bruno Hendler (Foto: Arquivo Pessoal)

Bruno Hendler é professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília - UnB e doutor em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, com a tese “O Sistema Sinocêntrico Revisitado: A sobreposição de temporalidades da ascensão da China no século XXI e sua projeção sobre o Sudeste Asiático”.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - O que tem se discutido sobre a pandemia de covid-19 na área de relações internacionais? Quais são as discussões e as preocupações mais pertinentes neste momento?

Bruno Hendler - Muita coisa tem sido escrita sobre a pandemia nas Relações Internacionais e nas Ciências Sociais em geral, mas a verdade é que estamos numa janela de possibilidades ampla e imprevisível. Questões como o futuro do trabalho, mudanças climáticas, desigualdades sociais, capacidade de controle biopolítico pelos Estados e o papel das redes sociais e dos regimes internacionais continuam em aberto e a pandemia pode acelerar ou amenizar as contradições inerentes a esses processos.

Neste momento, a discussão central e imediata gira (ou deveria girar) em torno da ciência – sobre tipos de vírus, contágio, mutações e pesquisas para vacina, tratamento e cura. Quem não é da área tem pouco a dizer e precisa seguir os cientistas. Já às Ciências Sociais, inclusive às Relações Internacionais, cabe pensar em como lidar com as dinâmicas sociais, políticas e econômicas no momento de crise e apontar caminhos para o mundo pós-covid-19.

Porém, antes de apontar os caminhos, é preciso voltar um pouco no tempo. Talvez o leitor se lembre de que às vésperas da pandemia a “conversa de botequim” girava em torno dos filmes Parasita e Coringa, ambos premiados pela cerimônia do Oscar em um distante nove de fevereiro de 2020. O abismo social que mantém famílias pobres morando praticamente nos esgotos das grandes cidades e a inundação desses bairros humildes por uma chuva sem fim, retratados em Parasita, são a metáfora para entendermos que os principais prejudicados pelas mudanças climáticas – e por crises sanitárias como a da covid-19 – têm endereço e renda bem específicos.

O corte de investimento público em setores sociais como saúde e educação e o reforço do braço punitivo do Estado, expostos em Coringa, mostram a gênese dos “monstros sociais” que têm aparecido no Brasil e no mundo. Mais do que isso, expõem a contradição na declaração de economistas ortodoxos e grupos de investimento que, agora, clamam por maior papel do Estado e por um novo New Deal, Plano Marshall ou coisas do gênero. Há quem diga que “todos são socialistas em meio a uma pandemia”. O próprio ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta votou, quando deputado, a favor da infame PEC 241 ou PEC da Morte, que congelou cerca de R$ 22 bilhões de repasses ao Sistema Único de Saúde - SUS. Porém, em meio à crise da covid-19 teve a desfaçatez de ostentar um colete com a logo do SUS. É preciso ter claro que Mandetta foi um poço de sanidade e razão científica apenas porque esteve cercado por terraplanistas no governo. Sabe-se lá o que virá com a nova turma do Ministério da Saúde.

Em um momento de fechamento de fronteiras e contenção da circulação de pessoas, as Relações Internacionais têm se aproximado da Ciência Política e da Economia Política, analisando mais o que ocorre dentro dos Estados do que entre eles. Com isso, o famoso pêndulo (ou duplo movimento) de Karl Polanyi volta com força à discussão: para o autor, a economia política dos países oscila entre o avanço das forças do mercado autorregulável e um movimento contrário de proteção dos recursos naturais e da mão de obra comodificados pelo mercado. Em suma, haveria um eterno cabo de guerra entre empresas que visam ao lucro e Estados que garantem (ou deveriam garantir) condições mínimas de dignidade a seus cidadãos. O avanço brutal das forças do mercado sobre proteções e gastos sociais, no contexto da pandemia, em países como o Brasil e a Itália, tornou-nos ainda menos capazes de prover respostas sistêmicas para a questão da saúde pública.

IHU On-Line - A pandemia de covid-19 pegou os principais atores mundiais de surpresa? Sim, não e por quê?

Bruno Hendler - Sim e não. Permitam-me uma digressão para responder a esta pergunta, pois tentarei relacioná-la com os atores locais, isto é, com os cidadãos comuns, nós, que estamos em quarentena, passando por momentos de tensão coletiva e reflexão individual.

Em 1954 um psicólogo norte-americano chamado Abraham Maslow publicou uma teoria sobre a motivação humana, afirmando que todos nós agimos de acordo com uma hierarquia de necessidades partindo das mais básicas (fisiologia e segurança), passando pela sensação de pertencimento social, até chegar à autossatisfação com autoestima e realização pessoal. O argumento dele é que só conseguimos pensar nas últimas quando as primeiras estão garantidas. Por isso o termo “Pirâmide de Maslow”: você só busca os andares superiores (um hobby, uma identidade social, ou a constituição de uma família) quando suas necessidades básicas (comida, casa, proteção) estão garantidas.

É claro que o mundo real é muito mais complexo e essa hierarquia de necessidades nem sempre prevalece, mas a teoria de Maslow chama a atenção em momentos de crise como o que vivemos. Estamos de quarentena, em casa, e nossas principais preocupações são fisiológicas: evitar o contágio e garantir acesso a itens básicos como alimentos, produtos de higiene etc. Por isso que o primeiro impulso, ao cogitar-se o isolamento social, é correr ao mercado e abastecer a casa com mantimentos.

A indústria cultural joga com a ameaça às necessidades básicas e com as ações políticas para protegê-las. As principais distopias do século XX foram sobre o Estado panóptico, onipresente e opressor, aquele que garante as necessidades básicas, mas também pode nos privar delas a qualquer momento na típica relação de vigiar e punir. Os exemplos mais famosos são as obras 1984, Admirável mundo novo e Não verás país nenhum – a última, do consagrado escritor brasileiro Ignácio de Loyola Brandão, que já nos anos 1980 faz uma pesada reflexão sobre os limites ambientais do planeta. Há também distopias inversas, sobre o colapso dos governos e o retorno ao estado de natureza hobbesiano, seja por guerras ou por ameaças não humanas como pestes, máquinas inteligentes, extraterrestres, zumbis ou microrganismos, como vírus e bactérias.

O cenário que vivemos apresenta elementos dos dois tipos de distopias: há governos que sim, foram pegos de surpresa e não têm condições (ou vontade, no caso dos EUA) de dar uma resposta abrangente e satisfatória à crise; e há governos que certamente aproveitarão a pandemia para ampliar o autoritarismo com novas formas de controle social e biopolítico. Porém, se a distopia de Brandão retrata um regime militar pauperizado no Brasil, que vigia e pune sem qualquer retorno de benefício social, a China tem se revelado como um governo autoritário que não apenas entrega desenvolvimento, mas atua de forma eficiente no combate ao vírus.

IHU On-Line - Depois da disseminação do coronavírus no mundo, alguns lembraram do alerta feito por Bill Gates num evento em Vancouver, segundo o qual, se algo poderia matar milhões de pessoas nos próximos anos, seria um vírus altamente infeccioso e não uma guerra. Que aspectos dificultaram essa percepção na área de relações internacionais?

Bruno Hendler - Bill Gates não foi um visionário por prever uma pandemia. A estatística nos mostra que a constante mutação na carga genética de vírus e bactérias gera uma grande probabilidade de surgimento de novas doenças com certa frequência. A história da humanidade é marcada por ondas de doenças contagiosas, inclusive. A roleta biológica dos microrganismos está aí há bilhões de anos e as sociedades humanas hoje são tão culpadas por não prever a covid-19 quanto o foram à época da peste negra na Idade Média ou da gripe espanhola no começo do século XX. Da mesma forma, culpar a globalização pelo contágio global hoje é tão infantil quanto culpar os navios a vapor que dispersaram o vírus da influenza em 1918 ou culpar as caravanas de comércio que dispersaram a peste negra entre a Ásia e a Europa. Ainda mais absurdo é sugerir que a covid-19 seja uma arma do comunismo para a dominação global, como o fez o chanceler Ernesto Araújo.

Sobre a relação entre guerras e epidemias, sugiro o texto do professor José Luís Fiori. Segundo ele, a diferença entre ambas é que as epidemias não costumam destruir equipamentos físicos e não têm um adversário visível capaz de produzir uma identidade coletiva acima das classes sociais. Pelo contrário, provocam reações do tipo “cada um por si”. Ademais, as grandes guerras da modernidade resultaram na imposição de uma “paz hegemônica” aos derrotados, enquanto que no caso de epidemias não há vencedores e perdedores absolutos. Para ele, “não existe nenhuma força material que induza qualquer tipo de acordo ou plano de reconstrução coletiva depois do tufão epidêmico”. Ainda assim, em termos relativos acredito que esta pandemia trará, sim, vencedores e perdedores, conforme explicarei adiante.

IHU On-Line - Internacionalmente, como os governos têm enfrentado a pandemia e o que poderia ser feito no âmbito global neste momento? Ainda nesse sentido, quais são os atores que têm tido um bom desempenho neste momento?

Bruno Hendler - As respostas têm sido das mais variadas. Você tem casos de negação inicial da realidade seguidos por arrependimento e preparação às pressas para o combate à covid-19, como no Reino Unido e nos EUA. Há também os chefes de Estado que podemos chamar de terraplanistas por negarem os dados científicos e insistirem no retorno à normalidade cotidiana, como no Brasil e na Belarus. Nesta, o presidente Lukashenko chegou a recomendar vodca e sauna contra a pandemia, além de manter ativas as ligas de futebol e de hóquei no gelo. No campo da sensatez e da ciência, há diversos caminhos bem-sucedidos – até agora. A Coreia do Sul e a Islândia destacaram-se pela eficiência dos testes em massa, a Nova Zelândia e a Alemanha pelo isolamento social precoce, a China pelo isolamento logístico do epicentro da pandemia e Taiwan pela produção extra de máscaras.

Conforme uma matéria da Forbes, países governados por mulheres têm apresentado resultados melhores do que os governados por homens, mas dificilmente há aí uma relação de causalidade direta. Isto porque:

a) trata-se de uma quantidade diminuta de países com liderança feminina (17 de um total de cerca de 200);

b) a maior parte dos 17 é composta por países ricos;

c) pode haver uma relação inversa em que sociedades mais desenvolvidas têm maior probabilidade de escolher uma chefe de Estado mulher; e

d) há inúmeros outros fatores que pesam mais, como localização geográfica, traços socioculturais, taxas prévias de mortalidade, pirâmide etária etc.

Ainda assim, a discussão de gênero levantada pelos dados é pertinente. Será mera coincidência que líderes mulheres têm apresentado boas performances na gestão da crise? Quatro dos cinco países nórdicos, todos desenvolvidos, são governados por mulheres – e a Suécia, o único liderado por um homem, tem uma taxa de mortalidade que é pelo menos o dobro da taxa dos seus vizinhos. É claro que a Suécia, sozinha, representa 40% da população nórdica (10 milhões de um total de cerca de 25 milhões) e que, portanto, seus desafios têm uma escala maior. Porém, é muito improvável, quase absurdo, imaginar que uma líder mulher venha a público para bravatear ao estilo Bolsonaro, apelando para um imaginário de “macho alfa” ao dizer que vai lidar com a pandemia “como homem e não como moleque”.

IHU On-Line - Qual é o papel da diplomacia vaticana nesta crise pandêmica? Alguns avaliam que o Vaticano tem ocupado o vazio deixado por grandes líderes mundiais, como China e EUA não somente agora, mas na resolução de outros conflitos. Concorda?

Bruno Hendler - De forma geral, o Papa Francisco tem adotado uma linha progressista para os parâmetros da Igreja Católica. Isto se expressa em suas declarações a respeito dos imigrantes na Europa, das mudanças climáticas, da possível convergência entre ciência e religião, da união civil entre pessoas do mesmo sexo, entre outros. No tocante à pandemia, o Papa declarou que esta seria uma resposta da natureza às mudanças climáticas e fez apelos pelo relaxamento de sanções internacionais e pelo perdão de dívidas a países pobres. Porém, ainda que o Vaticano tenha um papel simbólico importantíssimo no mundo ocidental, dificilmente o Papa ocupará o vácuo de poder deixado pelos EUA, limitando-se ao que a Igreja tem feito historicamente como a promoção do ecumenismo e a mediação de conflitos.

IHU On-Line - A pandemia de covid-19 muda algo no cenário geopolítico internacional? Sim, não e por quê?

Bruno Hendler - Em termos geopolíticos, a pandemia acentua tendências que já ganhavam força, como a dissolução do poder hegemônico dos EUA, moribundo desde o atoleiro no Iraque em 2003, e a ascensão da China como potência capaz de dar respostas sistêmicas para problemas sistêmicos. Grosso modo, nas próximas décadas o mundo gravitará em torno do eixo G-2, EUA e China.

Os EUA perderão poder político e econômico relativos, mas seu complexo industrial-militar e a centralidade do dólar os manterão ainda por muito tempo como uma potência relevante. Ainda assim, estarão cada vez mais distantes de ser a “nação indispensável” proclamada por Madeleine Albright nos anos 1990. Dois processos indicam isso. O primeiro, na política externa, decorre do encolhimento geopolítico dos EUA nos extremos da Eurásia, isto é, o esvaziamento de alianças e compromissos estratégicos que os americanos criaram com países da Europa Ocidental e da Ásia Oriental na Guerra Fria – seja por alianças bilaterais ou multilaterais como a Organização do Tratado do Atlântico Norte - Otan. Os dois últimos presidentes republicanos, George W. Bush e Donald Trump, foram pródigos em aprofundar as cisões com seus aliados europeus, seja com a Guerra ao Terror a partir de 2001 ou com a típica truculência de Trump, anunciando que cortaria os investimentos no pacto do Atlântico Norte.

O segundo processo é doméstico e decorre da ruptura do tecido social da própria sociedade americana. A vitória do neoliberalismo de Reagan nos anos 1980 trouxe consigo uma ilusão temporária de retomada da economia que Giovanni Arrighi chamou de “outono hegemônico”. Isto é, uma expansão financeira marcada pela ampliação ilusória do crédito e do endividamento do governo, das empresas e das famílias que resultou na crise de 2008. Com a desregulação dos mercados e a destruição do Estado de bem-estar social em favor desse processo, a sociedade americana tem se tornado cada vez mais desigual, com bolsões de pobreza que mais parecem países subdesenvolvidos e que provam a incapacidade do governo em lidar com catástrofes naturais e sanitárias como o Furacão Katrina em 2005 e a pandemia de covid-19 em 2020.

A China, por sua vez, tem ocupado espaços importantes diante da retirada dos EUA de regimes de governança global e do esfacelamento de suas alianças estratégicas. Costuma-se dizer que quem paga a banda escolhe a música – e conforme o gigante asiático arca com os custos de manutenção de bens globais como mudanças climáticas, ações humanitárias, diplomacia de saúde e o próprio investimento em infraestrutura no Sul Global, sua voz será cada vez mais definitiva na agenda internacional. A eficiência com que a China tem enviado auxílio para conter a pandemia no exterior, no que tem sido chamado de “China’s Covid-19 relief diplomacy”, é notória e corrobora a hipótese de transição de poder e riqueza dos EUA para o país asiático.

 

Eurásia

 

Para além do G-2 é importante notar o movimento de outros dois gigantes econômicos da Eurásia: Alemanha e Japão. O movimento de Berlim entre Bruxelas, Washington e Moscou será determinante para os rumos da União Europeia, principalmente após a definição do Brexit. Porém, a liderança alemã no combate à pandemia na Europa é mais uma mostra de que na verdade são Bruxelas e Moscou que tendem a gravitar em torno de uma Alemanha cada vez menos amarrada a Washington. Sinal disso é o avanço das conversas sobre um “exército europeu” para além das forças nacionais, aprofundando ainda mais a integração regional em torno da locomotiva alemã. E o suporte que a Alemanha tem dado a países como a Itália no combate à pandemia pode acelerar essa tendência.

Se a Alemanha deixou de ser um contrapeso à URSS para ascender como uma potência autônoma, o Japão, que teve uma função semelhante de contrapeso ao gigante chinês durante a Guerra Fria, não teve o mesmo destino. Ainda que seu PIB bruto seja maior que o alemão, a ausência de uma periferia geográfica imediata e a dependência da proteção americana barram o caminho japonês para tornar-se uma grande potência. Por mais que o país exerça forte influência no Sudeste Asiático e disponha de grande apelo soft por meio da cultura pop, seu poder de cooptação e gravitação não se compara ao que a Alemanha exerce no leste da Europa porque, oras, há três mil quilômetros e um mar de distância entre Tóquio e Manila, a capital do Sudeste Asiático mais próxima do Japão. Para piorar, os jogos olímpicos de Tóquio tiveram de ser postergados por conta da covid-19. E finalmente, o maior dos obstáculos: a China é para o Japão um desafio muito mais complexo do que a Rússia é para a Alemanha.

IHU On-Line - Ainda se investigam a origem do coronavírus e o papel da China no enfrentamento da pandemia em seu país. A depender das investigações, que futuro vislumbra para a China pós-pandemia?

Bruno Hendler - O texto do doutorando Felipe Dalcin na Revista Relações Exteriores faz uma extensa revisão bibliográfica sobre as hipóteses de surgimento do coronavírus. O spoiler é que a probabilidade de que a doença tenha sido criada em laboratório como arma biológica é ínfima.

Acredito que a China efetivará seu plano de tornar-se uma nação desenvolvida até 2050. Conforme mostra o texto do professor Elias Jabbour , o que está acontecendo na China vai muito além dos debates no Ocidente sobre o dilema “democracia x Estado policial” ou “desenvolvimento x trabalho escravo”. A visão caricata (e errônea) com que se retrata a China mudou, mas parece que continua a mesma: passou dos exportadores de cacarecos com mão de obra escrava para o Estado policial que escondeu o surto da doença, mas construiu hospital em dez dias também com trabalho escravo. A tentativa de abafar as notícias sobre o surto da doença em Wuhan foi, de fato, um erro grave do governo chinês. Mas a resposta dada a partir do momento em que o problema foi reconhecido é inédita em termos de eficiência e controle de danos. Tudo na China ocorre em escala incrivelmente grande e organizada: a testagem, o isolamento, o tratamento dos doentes, a quarentena para aqueles que vêm de fora do país para evitar novos surtos etc.

Em suma, de um lado estamos cá, no Ocidente, debatendo se o vilão desta crise infinita (econômica, política e sanitária) é o Estado ou o mercado – e achando a resposta no fantasma da corrupção que existe (e sempre existiu) na zona cinzenta entre eles. No nosso Ocidente, o subdesenvolvido, passamos dos regimes militares para os autoritarismos de mercado, que usam apenas a parte do Estado que lhes convém – a repressão dirigida a grupos marginalizados que é necessária para legitimar a luta em defesa dos privilégios que existem há séculos. Não se enganem: a onda progressista que ganhou eleições na América Latina nos anos 2000 não foi a regra, mas a exceção na história do continente. Porém, “o gênio não volta para a lâmpada” e o embate político que temos visto no Chile, no Equador, na Argentina e na América Latina em geral tende a continuar ainda por muito tempo porque muitos avanços não podem ser desfeitos sem luta de classes.

Já do outro lado, temos uma China muito mais complexa do que os maniqueísmos criados no Ocidente que apresenta um desenvolvimento econômico, em termos brutos, inigualável na história da humanidade. Este país-civilização é uma sobreposição de elementos como:

a) uma massa camponesa formada já na dinastia Han no século II a.C. com altíssimo poder de autogestão e portanto, alguns diriam, de democracia participativa;

b) uma sociedade urbana moldada por forças de mercado nas regiões mais costeiras que tomou corpo no século X com a Dinastia Song e ganhou ainda mais força no século XVI com as guildas comerciais e manufatureiras de Guangdong e de Fujian, que operavam de forma independente (e até mesmo à revelia) das Dinastias Ming e Qing;

c) um partido comunista fundado nos anos 1920 que bebe da fonte conservadora do confucionismo e da fonte revolucionária e marxista do maoísmo; e

d) um Estado milenar refundado em 1949 após um século de pilhagens e invasões imperialistas que tem sido capaz de “trocar o pneu com a bicicleta em movimento”, isto é, de se reformar e enquadrar as forças sociais em um projeto de desenvolvimento de longo prazo enquanto novas tensões de classe aparecem.

IHU On-Line - Alguns países, como Índia, Brasil e EUA, estão começando a exigir da China trilhões de dólares de indenização pelo surto pandêmico em curso. Medidas como essa fazem sentido?

Bruno Hendler - Não, são absurdas e populistas. Já imaginou exigir indenização de países africanos pelo surgimento do ebola ou do HIV? Ou dos Estados Unidos pelo provável surgimento da gripe espanhola entre soldados que fizeram treinamento no Kansas e foram mandados para lutar na Europa na 1ª Guerra Mundial? Não tem o menor cabimento.

IHU On-Line - Uma discussão que ressurge neste momento é o papel da globalização e, mais especificamente, a dependência de vários países de um único país, como a China. Alguns defendem que será o fim da globalização como a conhecemos, enquanto outros acreditam que não haverá mudanças ou rupturas, mas, ao contrário, a aceleração da evolução e da disputa tecnológica e de processos que já estavam em curso. Que cenários vislumbra para a globalização pós-pandemia e para o atual modelo das relações comerciais?

Bruno Hendler - Em geral, quando se pensa em globalização se pensa na compressão espaço-temporal, ou seja, na redução das distâncias pelo encurtamento do tempo e do custo para percorrê-las. Isto vale para as cadeias produtivas e para a disseminação de novas tecnologias, mas também para a circulação de pessoas, ideias e doenças.

A pandemia abre um leque de possibilidades ainda imprevisíveis para o uso da tecnologia. Por um lado, pode servir para que empresas descubram a inutilidade de algumas reuniões presenciais, mas pode gerar desemprego de setores intensivos em mão de obra ou facilitar o acesso a dados pessoais e fisiológicos de seus funcionários. Pode gerar novas formas de interação pessoal, mas dar voz e visibilidade a indivíduos e grupos que defendem valores racistas, xenófobos ou misóginos. Pode servir para que professores descubram novas mídias de ensino, mas pode levar à destruição do pensamento crítico se grupos corporativos de ensino eliminarem a função crucial do debate e da interação em sala de aula – já que um espaço físico tem custos financeiros. Por fim, pode servir para que governos cooperem na disseminação de conhecimento científico e na busca por vacinas e curas, mas também que cooperem para controlar dados pessoais e exerçam controle biopolítico sobre corpos humanos.

Em suma, a quarentena pode fazer com que empresas, governos e pessoas descubram formas inovadoras de se conectar e de se desenvolver. Porém, a tecnologia não é o progresso em si – o progresso decorrerá do uso que faremos dela. Talvez eu seja muito pessimista, mas acredito que a pandemia nos levará para um mundo mais vigiado, neurótico e desigual. E no caso do Brasil, suspeito que o pacote de maldades já esteja sendo gestado pelo Ministério da Economia.

IHU On-Line - Como o senhor avalia a declaração do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, de que é preciso enfrentar o “comunavírus”?

Bruno Hendler - Pífia e lunática, uma afronta à tradição do Itamaraty. Posso dizer que me desaponta, mas não me surpreende.

IHU On-Line - Como as teorias de Relações Internacionais ajudam a explicar a crise gerada pela pandemia do coronavírus? E quais os limites que a pandemia tem mostrado do poder de explicação dessas teorias?

Bruno Hendler - Cada teoria confere um recorte específico para a realidade. O “sequestro” pelos EUA das máscaras vindas da Ásia que estavam destinadas à Alemanha é a mostra mais pura do realismo político, do “cada um por si” que rege a relação entre as nações. O fato, que gerou atrito entre ambos os países, foi classificado pelo ministro do Interior alemão como um “ato de pirataria moderno” e de “método de faroeste”.

Já as teorias neoliberais tendem a enfatizar a possibilidade de cooperação entre países e regiões, até mesmo na crise. Se, por um lado, o impulso inicial é de fechamento de fronteiras, num segundo momento a pandemia pode aproximar oponentes. Este é o caso do cessar fogo entre as Filipinas e as guerrilhas rebeldes no sul do país e o improvável diálogo entre países árabes do Golfo Pérsico e o Irã.

Não obstante, a meu ver, as teorias críticas são as mais indicadas para entender a crise. As correntes neomarxistas vão argumentar que a hierarquia de classes e de Estados afetará de forma desigual (e mais profunda) os grupos vulneráveis e os países pobres. Também argumenta que os países asiáticos sairão mais rápido da crise porque vivem um processo de expansão material com atividades intensivas em mão de obra e governos e empresas que, na Ásia, pensam mais a longo prazo, têm incentivos para proteger a população no curto prazo e colocá-la de volta aos postos de trabalho após a pandemia. Já correntes ligadas a questões ambientais são, em geral, céticas quanto ao impacto do lockdown da economia nas emissões de carbono, mas admitem que esta pode ser uma chance para se pensar em alternativas mais sustentáveis de produção, tais como o “Green Deal” da União Europeia.

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