Vice e as engrenagens das guerras americanas

Imagem: New York Public Radio

Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 19 Fevereiro 2019

Assistir à Vice desde o Terceiro Mundo não é apenas conhecer um personagem-chave da política estadunidense do século XXI. O filme propicia a compreensão das engrenagens da burocracia estadunidense para seu projeto de expansão do poderio militar. A política internacional, além de amoral, é a demonstração do desejo de poder transbordado de homens e suas instituições por uso da sua mais forte ferramenta da modernidade: o Estado Nacional.

Dick Cheney passou longe de ser um expoente intelectual ou estudante bem-sucedido, sem carisma e sem apelo popular, representa a política distante da realidade da maioria das pessoas, fria e burocrática. O roteiro do filme escrito e dirigido por Adam McKay destaca a mediocridade de um americano caricato, fanfarrão e grosseiro, nascido no Wyoming, de tradição conservadora. Sua ascensão política é descrita no filme pela mesma mediocridade, sem carisma, uma liderança pragmática que entra na política pelo desejo de ascensão pessoal. Nesse processo conhece os meandres da política estadunidense por dentro, no seio da Casa Branca, embriagado diretamente na fonte que mais emanou poder no último século.

O poder pelo poder é a expressão do conservadorismo que Cheney representa. Não há razão outra para a política para além do desmando, da capacidade de destruir vidas por articulações de poucas palavras, selecionadas e proferidas em pequenas salas. Foi assim, como assessor comissionado do Escritório de Oportunidades Econômicas, que aprendeu o funcionamento da máquina contraditória de uma república democrática: poucos homens, brancos, negociando acordos a seus interesses e de quem os financia. A nação, indubitavelmente, é um instrumento de poucos. Cheney encontrou nesse jogo a fuga da sua mediocridade, virou o ator de um jogo que possibilitava um estudante fracassado de Yale na década de 1960 a comandar uma guerra gananciosa no Iraque em 2003.

Por essa expressão que a história de Cheney, interpretada por Christian Bale, não deve ser a única referência de Vice. É apenas um americano do interior que apreendeu as regras do jogo criado pelos EUA. Demonstrou engenhosidade ao moldar o Estado e escalar suas peças em terrenos estratégicos, porém a mediocridade intelectual e o desbarato que os lobistas fazem do Estado mantiveram desvelado no tapete a violência norte-americana no Oriente Médio. O poder do Estado numa ordem unipolar, onde o desacato é impune, e o bombardeio se impõe ao Direito, deixa milhões de vidas vulneráveis. A sensação de onipotência é de tal forma inconsequente que o país viu em menos de 10 anos ameaçado o seu posto de superpotência. “Make America Great Again” torna-se um jargão tapa-buraco do conservadorismo Republicano.

Em 2006: George W. Bush, presidente dos EUA, Dick Cheney, vice-presidente, e Donald Rumsfeld, secretário de Defesa. Foto: Sgt. D. Myles Cullen | U.S Air Force Staff

A história dos EUA de Richard NixonRonald Reagan, George H. BushGeorge W. Bush/Dick Cheney e Donald Trump é um ciclo sucessivo de ameaças e bombardeios. Para latino-americanos, africanos e asiáticos a engrenagem que gira a política no Norte é a munição de mísseis. Vice demonstra como um personagem central da política doméstica estadunidense recarrega os canhões. O Terceiro Mundo é como um quintal para a farra juvenil de um universitário sem sucesso. A falta de espírito democrático e republicano incitou Cheney às manobras que resguardam um poder ilimitado ao Executivo e tornam o Estado ainda mais distante da participação civil.

Na última semana, os eventos que o governo Trump propiciou remontam passos da invasão ao Iraque em 2003. Em reunião em Varsóvia com chanceleres de países árabes, da Polônia e do Reino Unido, além do primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu, o vice-presidente Mike Pence acusou os países europeus de sustentarem inimigos dos EUA. O conselheiro de Segurança Nacional John Bolton alertou o aiatolá Ali Kahmenei, líder supremo do Irã, que celebrava os 40 anos da Revolução Islâmica, que este não teria muitos aniversários para comemorar.

Assim como o governo de Saddam Hussein foi o bode expiatório de Bush e Cheney para o ataque dos EUA ao Iraque, o governo Trump busca um artifício contra o Irã. Em janeiro, Israel bombardeou uma guarda de elite iraniana na Síria. Ao criticar os países europeus, a Casa Branca procura isolar e enfraquecer o Irã no pacto nuclear.

O país islâmico é o principal aliado do governo sírio na região. A resistência das forças armadas iranianas é um dos pilares de sustentação de Bashar Al-Assad. O bombardeio feito por Israel deixou a região mais instável.

Em 2002, Bush e Cheney souberam construir o inimigo a ser combatido, posicionaram as peças e ajustaram as peças para impulsionar o jogo. Evidente que o 11 de setembro foi um combustível para essas pretensões. Em fevereiro de 2019, Trump, Pence, Pompeo e Bolton ainda não encontraram o pavio para disparar os canhões deliberadamente como fizeram seus antecessores. Talvez isso demonstre que a insuficiência do governo americano, que ficou paralisado por mais de um mês e sofre para aplicar seu programa de campanha, precise ser compensada com novos aliados no tabuleiro.

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