Irã nuclear: por que a decisão de Trump preocupa o Vaticano

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12 Mai 2018

O último movimento de Trump, embora pré-anunciado, está despertando grande preocupação no Vaticano. O Papa Francisco está alarmado. O L’Osservatore Romano de quarta-feira, 9, abriu a primeira página com a manchete: “Ruptura de Trump sobre o Irã”.

A reportagem é de Marco Politi, publicada por Il Fatto Quotidiano, 11-05-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E, no artigo, citando o presidente estadunidense sobre as chamadas “provas” exibidas pelo primeiro-ministro israelense, Netanyahu, a respeito da suposta atividade nuclear iraniana, o jornal da Santa Sé enfatiza: “Deve-se dizer, no entanto (...) que a AIEA (Agência Internacional para a Energia Atômica) desmentiu Netanyahu, negando tais atividades. E, também hoje, a AIEA reafirmou que o Irã respeita plenamente o acordo”.

O órgão da Santa Sé, além disso, é forçado a manter um certo estilo controlado. Quem quer saber qual é o clima que reina no Vaticano deve recorrer a canais livres para se expressar mais livremente e, ao mesmo tempo, em plena sintonia com os pensamentos do pontífice. Isso acontecia também nos tempos de João Paulo II.

Quando o ataque estadunidense contra o Iraque de 2003 estava em preparação, o Papa Wojtyla deixava que o batedor livre fosse o diretor da Rádio Vaticano, Pe. Pasquale Borgomeo, que – ainda antes que George W. Bush entrasse em guerra – atirava contra a política estadunidense, condenando o “unilateralismo da política (estadunidense)” e a teorização da guerra como “cruzada do bem contra o mal”.

Nestes dias, o espelho do alerta, que invade o Vaticano diante do surgimento de novos conflitos, se encontra no artigo de fundo do Avvenire, o jornal da Conferência Episcopal Italiana. O título é eloquente ao máximo. “Um oceânico devastador”. E as reflexões do editorialista Riccardo Radaelli são muito duras.

As motivações de Trump para denunciar o acordo com Teerã são definidas como um “tambor retórico”. Washington age sob o impulso das “pressões sauditas e israelenses” e da direita estadunidense. Os falcões ao redor do presidente dos Estados Unidos se movem com “determinação fanática” para destruir a herança política de Obama. A palavra passa agora para a Europa: “É indubitável, no entanto, que a União Europeia pode permanecer silenciosa ou se curvar passivamente às decisões estadunidenses”.

Não escapou da diplomacia vaticana que o primeiro-ministro israelense, Netanyahu, há poucos dias, pediu a autorização do Parlamento para ter a faculdade de decidir praticamente sozinho a declaração do estado de guerra em situações de “extrema emergência” (ele precisa unicamente da aprovação do ministro da Defesa).

No Vaticano, também registraram que, em setembro passado, Israel organizou as mais impressionantes manobras militares dos últimos 20 anos. É preciso notar: na presença de um Egito amigo, de um Líbano incapaz de agressão, de uma Síria esgotada pela guerra civil, de uma Jordânia notoriamente em boas relações com o Estado de Israel.

Um artigo de análise militar nas páginas internas do Avvenire explica que, na realidade, não se deve crer na eventualidade de um enlouquecimento de Teerã e, portanto, de um ataque atômico iraniano contra Israel. O que está em jogo é outra coisa: a supremacia militar incontestável de Israel e a possibilidade de ameaçar seus inimigos (Hezbollah, Hamas e Jihad islâmica palestina) com a “estratégia agressiva da resposta desproporcional”. Como se vê nessas semanas com o assassinato sistemático de manifestantes do Hamas ao longo da fronteira de Gaza e os repetidos ataques aéreos contra bases sírias que abrigam militares iranianos.

Em última análise, a direita nacionalista e o bloco fundamentalista de Israel precisam da superioridade militar total para poder implementar a política de anexação rastejante dos territórios palestinos na Cisjordânia.

Netanyahu prometeu que “dois Estados”, de acordo com os acordos de Oslo do agora distante 1993 (um Estado israelense e um Estado palestino), nunca existirão, e está mantendo a promessa. Atiçar o confronto contra o Irã (com o apoio da Arábia Saudita) desvia a atenção da ocupação das terras palestinas. Em poucos dias, será inaugurada a embaixada estadunidense em Jerusalém, e isso galvaniza os falcões nacionalistas e fundamentalistas.

Mas um Oriente Médio exaurido pela violência do ISIS, pelas revoltas ocorridas no Iraque com a malfadada guerra de Bush e de Blair, pela catástrofe da guerra civil síria não precisaria de outro foco de tensão. Por isso, o Papa Francisco está extremamente preocupado.

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