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24 Outubro 2018

Como está longe o ano de 1987, quando Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev assinaram um dos acordos sobre o desarmamento nuclear que serviram de prelúdio para o fim da Guerra Fria. Hoje, volta à atualidade o seu reverso, o rearmamento nuclear está na pauta do dia.

A reportagem é de Federico Rampini, jornalista italiano, correspondente nos EUA do jornal La Repubblica, publicada em La Repubblica, 23-10-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Donald Trump, liderado pelo conselheiro mais “falcão” que é John Bolton, prepara-se para retirar os Estados Unidos do tratado que limitava os arsenais nucleares de porte intermediário. O gesto é repleto de consequências, embora seja a reação a um rearmamento que já está em andamento por parte da Rússia e da China.

Na verdade, Barack Obama já denunciou, há mais de quatro anos, as repetidas violações por parte de Moscou, que desenvolve novas armas nucleares muito além das possibilidades permitidas pelo tratado. Quanto à China, o crescimento anual das suas despesas militares é impressionante, e Pequim não conhece restrições de qualquer tipo: os tratados da era Reagan-Gorbachev nasceram bilaterais, porque, na época, havia duas superpotências, ninguém podia imaginar a formidável trajetória da República Popular.

Portanto, não é o caso de jogar toda a culpa sobre Trump; corre-se o risco de repetir o mesmo erro dos pacifistas “em sentido único”, que, nos anos 1970, se manifestavam contra os euromísseis estadunidenses, ignorando os SS-20 soviéticos já instalados ameaçadoramente na fronteira do Leste Europeu e apontados contra nós [na Itália].

As alterações climáticas continuam sendo inquietantes. Acrescentemos os contínuos “duelos virtuais” nos mares e nos céus do Extremo Oriente, onde as forças armadas chinesas e as frotas estadunidenses se cutucam em uma disputa de provocações que poderiam sair do controle.

Acrescentemos as contínuas invasões de aviões russos nos céus escandinavos, onde o temor do expansionismo de Putin está levando até mesmo suecos e finlandeses a reexaminarem a sua tradicional neutralidade.

Passar dos tambores de guerra aos conflitos reais é mais fácil do que se imagina, como lembram as reconstruções históricas dos “líderes sonâmbulos” que caminharam rumo aos dois conflitos mundiais, quase sem perceberem.

Trump e Bolton têm razão sobre o fato de que o rearmamento já foi iniciado há muito tempo e por outros. O problema é se a reação estadunidense é eficaz para frear o militarismo dos que estão no poder em Moscou e Pequim.

O especialista em geopolítica Fred Kaplan publicou na Slate uma das mais lúcidas e documentadas refutações da resposta estadunidense. A sua conclusão: é um favor para Putin, porque rasgar o tratado envia o sinal “todos estão livres”, enquanto seria preciso instá-lo a respeitar os acordos.

Por outro lado, a resposta dos Estados Unidos se insere no credo unilateralista de uma administração que não quer mais ter as mãos amarradas por pactos internacionais. Trump pode até se atribuir uma afinidade com Reagan: o qual, antes de se sentar à mesa de negociações com Gorbachev, levou a URSS ao colapso, esgotando-a em uma corrida armamentista que estava acima das suas forças.

Precisamente esta última analogia, porém, dificilmente pode ser repetida 30 anos depois. Se Trump pensa em refazer “aquele” Reagan, com um prolongado braço de ferro para ver quem tem mais recursos para investir no rearmamento, ele corre o risco de errar de época. A Rússia continua sendo um anão econômico como a URSS, Putin fracassou na decolagem rumo à modernização, mas ele é um gigante na geoestratégia: domina as novas guerras “assimétricas”, tais como a pirataria digital ou a manipulação das mídias sociais; ele sabe expandir a própria rede de alianças a partir de dentro do pátio da Otan (veja-se na Turquia).

Quanto à China, o seu tamanho econômico é mastodôntico, nada a ver com a URSS ou a Rússia de hoje. Seu regime autoritário pode mobilizar recursos enormes tanto para os armamentos clássicos, quanto para os arsenais nucleares, quanto para as novas fronteiras do desafio aos Estados Unidos que são a reconquista do espaço ou a inteligência artificial.

Precisamente porque não se deve ter ilusões sobre as intenções de Moscou e Pequim, é preciso tentar amarrar as suas mãos com acordos novos.

O clima hoje não é esse. E, enquanto isso, o cenário de um idílio Trump-Putin também parece estar se afastando rapidamente.

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