As ameaças de Trump à China e o déficit comercial recorde

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17 Fevereiro 2018

"Depois de um ano de (des)governo Trump, está ficando claro que a euforia de Wall Street não passava de uma bolha, a moeda virtual Bitcoin atingiu seu valor mais baixo em meses e o Senado americano evitou o “Shutdown” elevando o teto do endividamento interno e colocando os EUA no caminho da insolvência de longo prazo", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 16-02-2018.

Eis o artigo.

“I ran for office because I was very critical of President Obama’s trillion-dollar deficits.
Now we have Republicans hand in hand with Democrats
offering us trillion-dollar deficits” – Rand Paul

O Census Bureau dos Estados Unidos atualizou os dados do comércio internacional do país, indicando que o déficit bilateral do país com a China bateu todos os recordes históricos e atingiu a fantástica cifra de US$ 375 bilhões em 2017.

(Fonte: EcoDebate)

Isto contrasta com o discurso protecionista de Donald Trump que prometia reverter as vantagens chinesas. Ainda em 2016, quando era candidato à presidência dos Estados Unidos, Trump dizia que a China era o maior inimigo comercial do país, pois adotava práticas desleais no comércio internacional, manipulava o câmbio para conseguir maior competitividade global e praticava preços artificialmente baixos (dumping) para conseguir ampliar seus crescentes superávits comerciais.

Ele prometeu impor tarifas aos produtos chineses para mostrar a Pequim que os EUA “não estão mais de brincadeira” quando se trata de garantir “relações comerciais justas”. Ele disse que instruiria o representante de Comércio dos EUA a abrir processos contra a China tanto em seu país quanto na Organização Mundial do Comércio (OMC). Ele chegou a prometer adotar uma tarifa de 45% para mercadorias chinesas. Em agosto de 2017, Trump solicitou investigação das políticas comerciais chinesas, incluindo um suposto roubo de US$ 600 milhões anuais em direitos de propriedade intelectual dos Estados Unidos, embora a China negue as acusações.

Na reunião do Fórum Econômico em Davos e durante seu recente Discurso sobre o Estado da União, Donald Trump deixou claro que pretendia ser mais duro com a China, enquanto o ministro das Relações Exteriores chinês disse que o presidente americano tem uma “mentalidade antiquada da Guerra Fria”.

Em janeiro de 2018, finalmente Trump passou da retórica para a prática e anunciou a imposição de tarifas comerciais contra painéis solares e máquinas de lavar, importados da China, endurecendo as ações contra o gigante asiático.

Porém, toda a histeria de Trump não foi suficiente para reverter o déficit comercial dos EUA com a China. O gráfico acima, com dados do Census Bureau dos EUA, mostra que o saldo comercial dos EUA com a China cresceu enormemente nos últimos 25 anos, pois era de US$ 23 bilhões no começo do governo Clinton, em 1993, passou para US$ 84 bilhões no fim do governo Clinton, em 2001, atingiu impressionantes US$ 268 bilhões no fim do governo Bush, em 2008 e não parou de subir no governo Obama, chegando a US$ 367 bilhões em 2015, caindo um pouco para US$ 347 bilhões em 2016. Para se ter uma comparação, o déficit comercial dos EUA com a China é seis vezes maior do que o déficit com o México.

Mas enquanto o governo Trump tenta construir um muro na fronteira com o México e com a América Latina, além de fechar as fronteiras aos imigrantes e refugiados, o mundo continua tendo superavit com os EUA. O déficit comercial total dos EUA foi de US$ 77 bilhões em 1991, atingiu o máximo de US$ 837 bilhões em 2006, no governo Bush, caiu para menos de US$ 800 bilhões anuais nos 8 anos do governo Obama e voltou a subir no governo Trump, atingindo US$ 810 bilhões em 2017. A China sozinha teve um superavit recorde de US$ 375 bilhões no primeiro ano do governo Trump. Ou seja, Trump não passa de um “tigre de papel”.

(Fonte: EcoDebate)

Enquanto os EUA estão em retração na governança global e com déficits crescentes (comercial e fiscal), a China, sob a liderança de Xi Jinping avança na política “One Belt, One Road” (um cinturão, uma estrada), que é uma iniciativa estratégica de desenvolvimento e integração da Eurásia e o resto do mundo que pretende investir US$ 1 trilhão em dez anos e consiste em uma nova rota da seda para reconfigurar a globalização à moda chinesa. Somente com o superavit comercial obtido nas transações com os EUA nos últimos 3 anos, a China arrecadou mais de US$ 1 trilhão.

O fato é que a força da China no comércio internacional e a fraqueza dos EUA pode dar início não só a uma guerra comercial, mas também a uma guerra mais ampla, acontecimento que geralmente acompanha o processo de transição entre uma potência emergente e uma potência submergente.

O livro “Destined for War: Can America and China Escape Thucydides’s Trap?”, do professor e pesquisador Graham Allison, aponta para a possibilidade de uma Guerra entre EUA e China. O mote é o que ele chama de “Armadilha de Tucídides”, que se refere a um padrão mortal de estresse estrutural que ocorre quando um poder crescente desafia um poder governante hegemônico. Esse fenômeno é tão antigo quanto a própria história. Sobre a Guerra do Peloponeso que devastou a Grécia antiga, o historiador Tucídides explicou: “Foi a ascensão de Atenas e o medo que isso incutiu em Esparta que tornou a guerra inevitável.” Nos últimos 500 anos, essas condições ocorreram dezesseis vezes. A guerra estourou em doze deles e pode acontecer agora com o surgimento de um conflito de grandes proporções entre os EUA e China.

Além do déficit comercial, os EUA tem uma dívida pública que caminha para 100% do PIB e um grande déficit fiscal crescente e projetado para aumentar nos próximos anos, conforme mostra o gráfico do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO). O déficit ultrapassou US$ 1 trilhão nos anos de recessão (chegou a -9,8% do PIB em 2009) e caiu para US$ 438 bilhões em 2015 (-2,4% do PIB), mas aumentou para US$ 585 bilhões em 2016 e US$ 666 bilhões em 2017.

(Fonte: EcoDebate)

Motivos de preocupação com uma nova guerra mundial não faltam. Os EUA, a despeito dos crescentes déficits fiscal e comercial, aumentaram o orçamento militar para níveis recordes, acima de US$ 600 bilhões ao ano. No discurso sobre o Estado da União, em 30 de janeiro, Trump defendeu um reforço na defesa do país, citando ameaças de países e rivais, como China, Rússia e Coreia do Norte, que “desafiam nossos interesses, nossa economia e nossos valores”. Ele afirmou: “Como parte da nossa defesa, precisamos modernizar e reconstruir nosso arsenal nuclear, com a esperança de nunca ter que usá-lo, mas tornando-o tão forte e poderoso que impeça qualquer ato de agressão”.

Por outro lado, a China, além de investir na dívida pública americana, avança seu poderio militar na Ásia e constrói ilhas artificiais no mar da China para manter o controle naval da região. Pequim continua construindo submarinos adicionais, mesmo já possuindo uma frota de 75 submarinos, mais do que os 70 dos EUA. Também possui 2 porta-aviões (contra 10 dos EUA). O orçamento militar da China caminha para US$ 200 bilhões, o segundo maior do mundo, mas um terço do orçamento militar americano. A China é uma potência militar emergente. O uso da Inteligência Artificial e dos robôs sapiens assassinos pode ser o fator desencadeador de uma guerra.

Depois de um ano de (des)governo Trump, está ficando claro que a euforia de Wall Street não passava de uma bolha, a moeda virtual Bitcoin atingiu seu valor mais baixo em meses e o Senado americano evitou o “Shutdown” elevando o teto do endividamento interno e colocando os EUA no caminho da insolvência de longo prazo.

Neste contexto, a “Armadilha de Tucídides” pode se manifestar novamente diante dos crescentes superávits comerciais e o fortalecimento global da China, vis-à-vis a fraqueza comercial dos EUA, embora forte em bases militares e em arsenal nuclear. Cresce a probabilidade de um confronto. Não sem surpresa, o “Relógio do fim do mundo” está cada vez mais perto da meia-noite.

Segundo Noam Chomsky: “Estamos à beira de uma catástrofe global”. Ele disse que a administração Trump, em particular, acelerou dois riscos fundamentais para a humanidade, por sua recusa em agir para combater a mudança climática e seu golpe de sabre contra uma Coreia do Norte com armas nucleares.

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