Reagan versus Freud: qual o modelo de gestão de Bento XVI?

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09 Julho 2011

Há muito a ser aprendido com as histórias de detetive, inclusive que a solução para qualquer mistério normalmente está em encontrar a pergunta certa a fazer. Neste momento, um emocionante mistério do Vaticano se centra na Congregação para os Religiosos, e aqui está uma candidato para ser a pergunta certa: o melhor modelo para o estilo de gestão de Bento XVI é Ronald Reagan ou Sigmund Freud?


A análise é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 08-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quando Reagan assumiu a Casa Branca em janeiro de 1981, ele insistiu que "personnel is policy" [os recursos humanos são a política]. Ele queria dizer que a direção de um governo é determinada por quem detém seus postos de trabalho chave, portanto, de forma que não pode haver escolhas casuais. Por outro lado, supõe-se que Freud tenha dito: "Às vezes um charuto é apenas um charuto". Aplicada à governança, essa frase sugere que nem todo movimento de recursos humanos deve ser a pedra de Roseta. Às vezes, isso tem a ver apenas com quem está sentado na cadeira.


O que torna isso relevantes acerca da Congregação dos Religiosos – tecnicamente, a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica – é que ela sofreu uma mudança bastante impressionante na liderança ao longo dos últimos 12 meses , implorando pela pergunta se essa metamorfose é o resultado do acaso ou da escolha.

O novo regime é composto pelo arcebispo brasileiro João Braz de Aviz, nomeado em janeiro como prefeito, e o arcebispo norte-americano Joseph Tobin, indicado cinco meses antes como secretário, ou o segundo no comando. Eles substituíram uma equipe liderada pelo cardeal esloveno Franc Rodé, nomeado durante o crepúsculo dos anos de João Paulo II em 2004.

Agora com 76 anos, Rodé era reconhecidamente um herói para alguns e uma bête noire [besta negra] para outros. Ele repetidamente denunciou uma "crise" na vida religiosa, alimentada por aquilo que ele via como desobediência, relativismo moral e as incursões do secularismo. A Visitação Apostólica às irmãs norte-americanas foi lançada sob Rodé, e ele se esforçou para isolar os Legionários de Cristo das consequências produzidas pelas prejudiciais revelações sobre seu fundador, em parte por ele ter considerada como inspiradora a abordagem tradicional deles às disciplinas da vida religiosa.

A diferença entre aquela época e agora é inconfundível. Em termos políticos brutos, tanto Braz quanto Tobin se saem mais como centristas; estilisticamente, ambos se veem como ouvintes e reconciliadores, em vez de "pararraios".

O pano de fundo de Tobin está na corrente dominante da vida religiosa depois do Concílio Vaticano II (1962-1965). Tanto em termos de temperamento quanto de teologia, ele reflete o ethos desse mundo: prático, autocrítico, surpreendentemente não clerical e sensível às questões de gênero e de poder. Entre outras coisas, ele se esforçou muito para reconhecer a "ferida" causada pela investigação às irmãs norte-americanas e para enviar sinais de reaproximação.

Por sua parte, Braz é um devoto do Movimento dos Focolares, que, segundo seus amigos, deixou pelo menos três marcas profundas em sua personalidade: a espiritualidade da unidade, um compromisso com o diálogo e um nível de conforto junto a mulheres fortes (fundado pela leiga italiana Chiara Lubich, o Movimento dos Focolares é o único movimento católico cujos estatutos exigem que a presidente seja uma mulher).

Recentemente, a prestigiosa revista italiana 30 Giorni publicou uma entrevista com Braz, na qual ele proclamou que "começamos a ouvir de novo". Ele também ofereceu uma avaliação muito positiva da Teologia da Libertação na América Latina, expressou admiração por heróis católicos progressistas como o falecido arcebispos Óscar Romero, de El Salvador, e Hélder Câmara, do Brasil, e revelou que, como arcebispo de Brasília, removeu seus seminaristas das instituições administradas pelos Legionários de Cristo por causa das preocupações com "a falta de confiança na liberdade pessoal".

Como queira que isso seja interpretado, ele certamente não é Franc Rodé.

A pergunta do milhão é: até que ponto essa mudança é intencional? Bento XVI realmente quis mudar de rumo, ou o novo tom é mais um subproduto de uma simples necessidade de preencher vagas?

Atualmente, as provas parecem estar misturadas.

Há pouca dúvida de que Tobin foi uma escolha pessoal, e que o papa tinha pelo menos alguma noção do que ele estava recebendo. Durante os 12 anos em que Tobin liderou a sua ordem, ele chegou a conhecer o então cardeal Joseph Ratzinger na Congregação para a Doutrina da Fé, geralmente no contexto das discussões sobre o último teólogo redentorista em apuros (a especialidade da Ordem é a teologia moral, sempre uma receita para azia).

Segundo a maioria dos analistas, Ratzinger ficou impressionado. Quando o cargo de secretário ficou vago no final de 2009, os mais íntimos disseram que Rodé preparou uma lista de candidatos e apresentou-a à Secretaria de Estado. A resposta foi: "O papa quer Tobin".

Com Braz, o caso para a teoria do caos – alterações imprevistas resultantes de pequenos passos bem longe – parece ser mais forte. Ele não tinha nenhuma experiência real com o Vaticano e não provinha do círculo de pessoas íntimas do qual Bento arrancou outros grandes assessores. Em uma entrevista comigo logo após sua nomeação, Braz identificou uma lógica bastante mundana para a sua nomeação: "Acho que fui escolhido em parte porque o Santo Padre quer um brasileiro no Vaticano, já que no momento não há nenhum outro brasileiro em alguma alta posição no Vaticano".

Sendo assim, pode ser prematuro chegar a uma solução sobre o debate entre Reagan e Freud. Talvez só com o tempo, enquanto Bento XVI é forçado a decidir se apoia sua nova equipe ou se toma distância dela, é que ficará claro até que ponto ele tencionava chegar à direção que Braz e Tobin estão estabelecendo.

Sob essa luz, o que acontecer dentro e ao redor da Congregação para os Religiosos, nos próximas dias, pode ecoar muito além dos limites da vida religiosa. Isso só poderia provar, por assim dizer, uma "chave hermenêutica" para a compreensão de todo o papado de Bento XVI.

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