Sete lições geopolíticas em tempos de coronavírus. Artigo de Alfredo Serrano Mancilla

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31 Março 2020

“Nasce uma nova desordem econômica global. O risco-país não importa. O número de cientistas ou camas disponíveis para cuidados intensivos, sim. A predileção pela financeirização fica deslocada pela importância da economia real. Abre-se uma nova disputa pela frente: entre o Consenso (neoliberal) de Washington, permanentemente atualizado, e um novo consenso pós-coronavírus que considera que a saúde pública é vital”, escreve Alfredo Serrano Mancilla, economista espanhol e diretor executivo do Centro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica (CELAG), em artigo publicado por La Jornada, 29-03-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

De tudo se aprende, inclusive em tempos de cólera. A pandemia do coronavírus também traz lições em chave geopolítica para a América Latina.

1. A primeira pergunta é óbvia: O que o Grupo de Lima está fazendo nesta contingência? Esta aliança nasceu para um objetivo tão limitado que não está à altura dos desafios históricos que tem a ver com as preocupações reais dos cidadãos da América Latina. E algo muito parecido acontece na Organização dos Estados Americanos - OEA.

2. Ausência de instâncias regionais efetivas que enfrentem esta problemática supranacional. É nesse momento que se sente falta da UNASUL e de sua capacidade de coordenação, diante de situações como esta. A CELAC tem uma oportunidade histórica de assumir essa tarefa.

3. A China, primeiro. Pede-se ajuda prioritariamente ao gigante asiático, e não para os Estados Unidos. A China foi o lugar de origem deste vírus e, portanto, o primeiro país a sofrer suas consequências. Mas, após esse momento, superou a crise de maneira muito efetiva. A porcentagem de afetados e mortos em comparação com a sua população é mínima, diferente do que acontece em outros lugares do mundo. Demonstrou capacidade para vencer com eficácia esta batalha. Sai reforçada a nível global.

4. O neoliberalismo, como racionalidade, não serve. O salve-se quem puder não funciona. A supremacia do individual é um grande entrave agora que pedimos esforços coletivos. A cooperação se impõe frente à concorrência. Os mercados não sabem se regulamentar sozinhos. Não existe mão invisível que os regulamente, e tampouco se cumpre o mito de que os agentes privados conseguem seus lucros por assumir mais riscos.

5. A Europa já não é um espelho a ser imitado. Mais uma vez, e já são muitas, voltam a perder uma oportunidade para mostrar ao mundo que estão na vanguarda em temas importantes. Não puderam ser efetivos frente ao coronavírus. O Estado de bem-estar é muito mais frágil do que presumiam. A soberba eurocêntrica fez com que subestimassem tudo o que vinha do Extremo Oriente. A Itália e a Espanha chegaram tarde e estão sendo as mais afetadas pela crise, e não é por acaso. A União Europeia, além disso, demonstra sua incapacidade para coordenar e harmonizar ao menos uma ação diante dessa pandemia. Demonstra-se, assim, que este espaço é de fato um mercado único econômico e monetário, mas está muito longe de ser um projeto social comum.

6. Quando se fala de saúde, é preciso sempre olhar para Cuba. O que ninguém tem, Cuba dispõe. O Henry Reeve (Contingente Internacional de Médicos Especializados em Situações de Desastres e Graves Epidemias) foi criado em 2005 por Fidel Castro, e agora são imprescindíveis: começam a aterrissar em muitas partes do mundo. Cuba se situa no centro de gravidade geopolítico quando falamos em saúde.

7. Nasce uma nova desordem econômica global. O risco-país não importa. O número de cientistas ou camas disponíveis para cuidados intensivos, sim. A predileção pela financeirização fica deslocada pela importância da economia real. Abre-se uma nova disputa pela frente: entre o Consenso (neoliberal) de Washington, permanentemente atualizado, e um novo consenso pós-coronavírus que considera que a saúde pública é vital, o Estado deve ser protagonista com suas políticas expansivas contracíclicas (fiscais e monetárias), é necessário um maior controle de capitais dos países emergentes para evitar sua fuga neste tempo de adversidade, a economia precisa girar em torno da vida humana, e, é claro, a dívida externa deveria ser perdoada pelos organismos multilaterais, assim como reestruturada com intervalo de dois anos (sem juros), no caso dos credores privados.

Sem dúvidas, estamos diante de um novo dilema civilizatório com significativas consequências geopolíticas no mundo, e, é claro, para a América Latina.

 

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