China e Estados Unidos em disputa pelo topo do mundo. Vamos todos acabar em guerra?

Imagem da apresentação de Graham T. Allison | Adaptação IHU

Por: João Vitor Santos | 09 Janeiro 2019

Até bem pouco tempo todos queriam viver “um sonho americano”, ou norte-americano para ser mais específico. Era dos Estados Unidos que vinha muito mais do que tecnologia, cultura e dinheiro, uma economia potente e frutificadora, pois o que embalava esse “sonho” era o ideal que estava envolto em tudo isso. Não obstante, os Estados Unidos se autoproclamam curadores de uma ordem mundial que organiza as formas de vida ocidentais. Mas, ao que parece, os ventos mudaram e o sonho já não é mais sonhado como antes. A soberania e estabilidade da "nau norte-americana" parece ameaçada – veja só – por ventos que sopram do Oriente. Desde que a China provou o amargor de se tornar coadjuvante no cenário global – sim, aquela mesma China de três mil anos de História – e decidiu ser grande de novo, as coisas parecem estar mudando. O problema todo é que os Estados Unidos e os estadunidenses não querem nem pensar em ver seu sonho virar pesadelo e muito menos deixar o topo do mundo. Uma ideia disso são as guerras comerciais entre os dois países, mas que têm respingado no mundo todo, que temos visto diariamente nos noticiários. A grande questão é: essa disputa pode acabar em guerra, tragando o mundo todo para um cenário de catástrofe? 

Graham T. Allison /Foto: Universidade Harvard

Graham T. Allison, professor na Escola de Governo John F. Kennedy, na Universidade Harvard, é um dos pensadores que tem se concentrado nessa questão. Numa rápida exposição, bem ao estilo das palestras TED, Alisson provoca: “Is war between China and the US inevitable?” [“A guerra entre a China e os EUA é inevitável?”, em tradução livre].

Essa conferência em vídeo tem circulado o mundo, sendo traduzida em vários idiomas. Para se ter ideia, a versão com legendas em português tem mais de 800 mil visualizações. Talvez, o sucesso esteja na abordagem objetiva do professor. “A ideia de outro país ser tão grande como os EUA atinge muitos norte-americanos como um ataque a quem eles são”, observa, ao apontar que a história de ascensão chinesa é a maior e mais fascinante trajetória já contada. Isso porque não se trata de apenas uma ascensão econômica, mas de uma mudança de uma mentalidade nos mais variados e sentidos amplos da vida. “A questão é as consequências que essa ascensão da China causará e a confusão que isso criará aos EUA e para a ordem mundial, da qual os EUA tem sido o arquiteto e o guardião nos últimos tempos”, revela.

Segundo Allison, nos últimos 500 anos, houve pelo menos 16 casos em que um país ameaça a hegemonia de outro, ou seja, quer tirar uma nação e assumir seu posto no topo do mundo, sendo capaz de influenciar toda ordem mundial. Desses, 14 acabaram em guerras. Bem, não é preciso ser exímio estatístico e nem ter acompanhado todas as notícias das disputas entre Estados Unidos e China publicadas recentemente para supor que, diante do cenário que estamos, é bem provável que estejamos nas bordas de uma terceira guerra mundial. Exagero? Para o professor, também não. Basta que se conheça a potência – e o potencial – da China do século XXI.

Um objetivo claro e um líder determinado

O professor Graham T. Allison recorda que, em 1978, quando China começou a despontar nos mercados, “nove de cada dez pessoas chinesas viviam com menos de dois dólares por dia”. Em 2018, 40 anos depois, menos de um a cada 100 vive sob essas condições. E há a promessa do governo chinês de melhorar as condições de vida dessas pessoas. “É um milagre na nossa época”, destaca. “A China ascendendo de forma incontrolável acelerando em direção a uma hegemonia aparentemente imutável dos EUA, a caminho do que pode ser a maior ascensão da história”, acrescenta.

Não faltam dados para comprovar a sua constatação. Ele lembra por exemplo, o caso de algumas obras. Da janela de sua sala na universidade, acompanha, por anos, o projeto de ampliação de uma ponte que, a cada ano, tem um novo prazo para conclusão das obras e, claro, mais um orçamento estourado. E se isso faz parte da realidade de grandes obras nos Estados Unidos, o que dizer do Brasil. Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, chega a 2019 sem ter concluído obras de infraestrutura urbana que foram concebidas para a Copa do Mundo de 2014, quando o mundial de futebol foi realizado no Brasil. Porém, em Pequim, o professor lembra que uma ponte teve o tamanho dobrado, quase que triplicando o número de pistas e, logo, o trânsito de veículos, em apenas 48 horas [veja vídeo abaixo].

 

Em setembro de 2018, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU publicou, na revista IHU On-Line, um dossiê com entrevistas com 14 especialistas que analisaram o crescimento chinês. Todos apontam a capacidade da China de se reinventar sem perder sua tradição. É como se olhasse para Ocidente e buscasse nele apenas as experiências que pudessem alçá-los ao topo do mundo, mas sem perder a essência do que é ser chinês. O italiano Francesco Sisci, professor da Universidade Renmin, em Pequim, na China, em recente artigo reproduzido no sítio do IHU, também recorda que a China passa por essa reavaliação após ter provado o dissabor da crise. “O modo como os chineses e a China viam a si mesmos e seu ‘país’ mudou depois de uma crise histórica que remodelou a sua visão de mundo. As crises são político-culturais, mas foi o reexame cultural de si mesma que historicamente desencadeou as diferentes novas ‘Chinas’ que encontramos em seus 3.000 anos de história”, observa Sisci.

 

 

Tudo endossa a perspectiva de Allison, que destaca que por trás dessa velocidade na execução de uma obra como essa ponte ou da inversão da pirâmide da pobreza “está um líder orientado por propósitos e um governo que funciona”. “O líder mais competente no cenário internacional hoje é Xi Jinping [governante chinês]”, dispara. “Ele não faz segredo e diz o que quer. Como disse quando tomou posse há seis anos, o objetivo dele é tornar a China grande de novo. Bandeira levantada muito antes de Donald Trump”, brinca.

Armadilha de Tucídides

Quando o professor Allison fala em estudar, quer provocar para que se olhe para experiência do passado. É quando reedita a ideia da Armadilha de Tucídides, que conta a epopeia da Guerra do Peloponeso, na Antiguidade. Foi esse pensador grego que formulou a reflexão de que quando Atenas passou a ameaçar a soberania de Esparta a guerra foi se tornando inevitável. “Então, a ascensão de um em relação ao outro cria um coquetel tóxico de orgulho, arrogância e paranoia, que os entorpece para a guerra”, conclui.

Assim, observa que a Armadilha de Tucídides trata justamente desse grande desafio que é lidar com a ameaça de um sobre outro, que pode ser Atenas sobre Esparta, Alemanha sobre Inglaterra, no contexto da Segunda Guerra, ou mesmo China sobre Estados Unidos dos nossos tempos. Para Allison, compreender essa lógica é como ter uma lente capaz de auxiliar na compreensão de contextos que vivemos. É o caso da disputa comercial entre Estados Unidos e China e a forma como Trump vai tentando capitanear seguidores – e que parece estar conseguindo com o Brasil, vide as primeiras ações do Governo Bolsonaro. E questiona: “vamos seguir os passos da História?” E emenda: “Ou podemos, através de uma combinação de imaginação, bom senso e coragem, encontrar uma maneira de controlar essa rivalidade sem uma guerra que ninguém quer e que todos sabem que seria catastrófica?”.

 

O terceiro elemento

Graham T. Allison ainda destaca que, dentro dessa lógica da Armadilha de Tucídides, mesmo quando uma nação se sente ameaçada pela outra não quer chegar a uma guerra. Aliás, racionalmente nenhum dos dois lados vai querer isso, tendo já vivido duas grandes guerras mundiais. Segundo ele, ocorre que a incidência de um terceiro elemento pode precipitar o choque entre os dois polos. “E isso inicia um movimento em espiral que arrasta os dois para um lugar em que não queriam ir”, completa. No caso da Primeira Guerra, esse terceiro elemento foi o assassinato de um personagem secundário, o arquiduque Franz Ferdinand, que desencadeou uma série de reações até que o combate explode.

O professor acredita que se o grego Tucídides visse hoje Trump e Xi Jinping, coçaria a cabeça. Mas ficaria realmente preocupado se visse um terceiro elemento como Kim Jong-un, da Coreia do Norte. “Temos o roteiro ideal para repetir a história e todos empenhados a desempenhar seus papéis”.

Uma saída possível

“Norte-americanos e chineses deixariam ser levados pela história para uma guerra catastrófica para ambos? Ou seria possível compartilhar uma nova forma de liderança do século XXI, ou, como disse Xi Jinping, criar uma nova forma de grandes relações de poder?”, questiona o professor, inspirado pela dúvida que o move nos últimos tempos. O lado bom é que na atualidade mais líderes mundiais têm clareza para essa Armadilha de Tucídides e suas consequências. O lado ruim, segundo ele, é que não há um plano viável para o fatalismo histórico. Graham T. Allison defende que uma saída possível passa, cada vez mais, pela concepção de ideias criativas, corajosas e inovadoras. Não podemos apenas “administrar o mundo que temos, mas criar o mundo que deveria existir”. Assim, pensa que se trabalharmos sobre isso, teremos ideias inovadoras, diferentes e até malucas, podendo assim criar espaços realmente diferentes no mundo.

Não será a primeira vez que algo similar ocorreu. “Lembram-se do que aconteceu logo após a Segunda Guerra Mundial?”, provoca. “Um notável grupo de norte-americanos, europeus e outros, não apenas governos, mas o mundo da cultura e dos negócios, se envolveu numa onda criativa de imaginação e transformação do mundo pós-guerra”. É assim que se criou uma nova ordem mundial, “que permitiu que vivêssemos a nossa vida sem a guerra por poder e com mais prosperidade”.

Um detalhe destacado pelo professor: quando os pilares dessas ideias foram apresentados para a comunidade internacional, muitos tomaram como ingênuos sonhos. “O meu favorito foi o Plano Marshall”, recorda, ao pontuar a estratégia que envolveu os Estados Unidos, devastado pela guerra, na reconstrução de uma Europa também cinza e amarga do pós-guerra. Para Allison, foram por esses sonhos e necessidade de pensar noutra ordem que se criou as Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, Banco Mundial, entre outros. “Todos esses elementos de ordem para a paz e prosperidade. Então, em uma palavra, o que precisamos é: fazer de novo”.

 

Assim, o professor crê que uma resposta negativa possível à questão “vamos acabar todos em guerra por causa das disputas entre China e Estados Unidos?” passa por defender uma nova onda de imaginação e criatividade fundamentada na História. “Como o filósofo Santayana [1] nos lembrou, no final, apenas aqueles que se recusam a estudar a História estão condenados a repeti-la”, sintetiza. O que fica, é o desafio de provocar essa nova ordem mundial que dê conta dos desafios e transformações galopantes do século XXI.

Graham T. Allison

Nasceu na Carolina do Norte, em 1940. É cientista, escritor, político e professor na Escola de Governo John F. Kennedy, na Universidade Harvard. Seu livro Reaking Foreign Policy: The Organizational Connection, coescrito por Peter Szanton, foi publicado em 1976 e teve muita influência sobre a política externa da administração do presidente Jimmy Carter, que assumiu o cargo no início de 1977. Desde a década de 1970, Allison também foi um dos principais analistas da política nacional de segurança e defesa dos Estados Unidos, com especial interesse nas armas nucleares e no terrorismo.

Assista ao vídeo de Allison

 

 

Instituto Humanitas Unisinos - IHU realizará, no dia 7 de maio de 2019, das 8h30min às 22h, o "Ciclo de Estudos A China e o mundo. A (re)configuração geopolítica global". Saiba mais informações e faça sua inscrição aqui.

Nota:

[1] George Santayana (1863-1952): filósofo, poeta, ensaísta e romancista. Nascido na Espanha, foi criado e educado nos Estados Unidos, porém sempre manteve seu passaporte espanhol. Santayana, que se identificava como norte-americano, escreveu sua obra em inglês e é geralmente considerado parte da intelectualidade daquele país. Aos 48 anos de idade, deixou seu posto em Harvard e retornou à Europa permanentemente. (Nota da IHU On-Line)

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